quinta-feira, janeiro 8, 2026

Venezuela pode influenciar Petrobras e contas públicas

A prisão de Nicolás Maduro e a iminente volta de petroleiras americanas à Venezuela colocam em risco adicional as já deterioradas contas públicas brasileiras. O país acumula déficit primário desde novembro de 2014 e viu o rombo das estatais federais triplicar em 2024 — saltando de 0,02% para 0,06% do PIB entre maio e novembro.

A ameaça agora é a queda nos dividendos da Petrobras. Com empresas como Exxon Mobil e Chevron de volta ao país vizinho, a oferta global de petróleo deve aumentar, derrubando preços e reduzindo os repasses da estatal ao Tesouro Nacional.

O cenário, porém, não é apenas de riscos: as sanções americanas mantidas por Donald Trump bloqueiam as exportações venezuelanas e abrem janela para o Brasil se tornar fornecedor alternativo de petróleo à China no curto prazo.

O histórico fiscal brasileiro mostra que se trata de uma fragilidade estrutural, não conjuntural. Segundo o Banco Central, houve apenas um breve respiro entre o final de 2021 e o início de 2023, quando a recuperação econômica pós-pandemia e receitas extraordinárias geraram superávit temporário. A deterioração, porém, voltou com força — e uma queda nos dividendos da Petrobras tornaria esse buraco ainda mais profundo.

Reabertura da Venezuela pode reduzir repasses ao Tesouro

A possível volta de petroleiras americanas à Venezuela ganha relevância justamente nesse contexto de fragilidade fiscal. Com Maduro preso, quem assumiu a presidência venezuelana foi Delcy Rodríguez, ex-vice-presidente e figura influente na indústria petrolífera. Pragmática, ela tem sinalizado disposição para cooperar com os Estados Unidos e criar condições para que companhias americanas explorem as maiores reservas de petróleo do mundo.

O retorno dessas empresas pode ser rápido. Se petroleiras como a Exxon Mobil retomarem operações em larga escala, a oferta global de petróleo vai aumentar e pressionar os preços para baixo. Projeções de analistas do setor indicam que a Venezuela poderia voltar a produzir 3 milhões de barris por dia — hoje produz menos de 1 milhão.

O impacto para a Petrobras seria direto. Como a exportação de petróleo é uma das principais fontes de receita da estatal, preços mais baixos significam lucros menores e, consequentemente, menos dividendos para a União — agravando ainda mais o quadro fiscal brasileiro.

Luís Garcia, sócio da consultoria tributária Tax Group, ressalta que a Petrobras já enfrenta oscilações causadas pela produção global e por questões de governança interna. “A fragilidade fiscal do governo e seu alinhamento com a antiga ditadura venezuelana também podem limitar o acesso do Brasil a contratos e investimentos”, afirma.

Sanções americanas abrem janela para exportações brasileiras

No curto prazo, entretanto, o Brasil pode sair ganhando. As sanções econômicas mantidas por Trump criam uma oportunidade comercial imediata: com parte significativa da produção venezuelana destinada à China bloqueada, o país pode se tornar o principal fornecedor alternativo de petróleo ao gigante asiático.

Na prática, as sanções significam que grande parte das exportações venezuelanas segue proibida — incluindo o petróleo que abastecia a China, seu principal comprador antes das restrições.

Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras, enxerga aí uma janela estratégica. “O backup do óleo da Venezuela para a China será o Brasil”, afirmou à CNN.

A substituição, no entanto, não é automática nem simples. O petróleo venezuelano é pesado e rico em enxofre, usado pelos chineses para fabricar betume na construção civil. O brasileiro, por sua vez, é mais leve e de melhor qualidade. Ainda assim, enquanto durarem as sanções, há espaço considerável para o Brasil ampliar suas exportações.

Preços menores aliviam inflação, mas afetam investimentos

Os efeitos da eventual retomada da produção venezuelana variam conforme o horizonte temporal. No curto prazo, as sanções funcionam a favor do Brasil, redirecionando as compras chinesas e ampliando as exportações nacionais de petróleo.

Já no médio prazo, o cenário se inverte. O aumento da oferta global derruba os preços, reduzindo as margens e receitas da Petrobras. Em cascata, caem também os dividendos ao governo federal, e os planos de investimento da estatal podem ser revistos ou adiados.

Nem tudo, porém, é negativo. Combustíveis mais baratos tendem a reduzir a inflação e aliviar a pressão sobre os juros — um alívio para consumidores e para a política monetária do Banco Central. Por outro lado, o redirecionamento de investimentos para a Venezuela pode afetar a B3 (bolsa de valores brasileira), enquanto empresas nacionais enfrentarão concorrência acirrada de companhias americanas de grande porte.

Oportunidades para empresas e profissionais brasileiros

Além do petróleo em si, há oportunidades na reconstrução da infraestrutura venezuelana. Décadas de má gestão depreciaram gasodutos, refinarias e instalações portuárias. Equipamentos foram vandalizados, componentes essenciais desapareceram, e a manutenção foi simplesmente abandonada.

Para Vitor Sousa, analista da Genial Investimentos, essa deterioração representa uma oportunidade de negócio. “Os ativos podem vir a mercado a preços muito baixos, gerando possibilidades lucrativas para empresas e investidores brasileiros”, diz. Não se trata de começar do zero, mas de recuperar e modernizar uma infraestrutura já instalada.

O Brasil tem outro trunfo importante: conhecimento acumulado. A Petrobras atuou por anos na Venezuela, e executivos brasileiros da estatal e de empresas do setor de óleo e gás conhecem bem o mercado local — um diferencial que pode ser decisivo na disputa por contratos.

Ricardo Inglez de Souza, especialista em Comércio Internacional, enxerga o cenário com otimismo cauteloso. “A tendência é de estabilização dos preços e, eventualmente, redução para patamares mais razoáveis, com comércio mais estável regional e globalmente.”

Restauração da Venezuela levará anos

O otimismo, porém, precisa ser temperado com realismo. Mesmo com estabilidade política, a retomada plena da produção venezuelana demandará tempo e bilhões de dólares. Estimativas da consultoria Argus apontam que a restauração completa levaria anos.

Gustavo Vásquez, responsável na Argus pela precificação de petróleo nas Américas, destaca que a infraestrutura está amplamente deteriorada. Há ainda outro desafio: desde os anos 1990, a indústria sofre com a perda massiva de talentos técnicos — funcionários foram afastados da petroleira estatal venezuelana PDVSA (Petróleos de Venezuela) por razões políticas, e reunir mão de obra qualificada será outro obstáculo.

Apesar das incertezas, o mercado já reage. Desde a prisão de Maduro, ações da Chevron e da Exxon Mobil subiram, refletindo apostas no retorno ao país. As empresas, contudo, só entrarão com garantias sólidas de estabilidade jurídica e ambiente favorável aos negócios.

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