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Venezuela: Retomada do petróleo não é fácil nem barata – 05/01/2026 – Economia

O presidente Donald Trump descreveu um cenário em que empresas petrolíferas dos Estados Unidos correriam para a Venezuela após a captura do ditador Nicolás Maduro no sábado (3) e “gastariam bilhões de dólares, consertariam a infraestrutura gravemente danificada” e “começariam a gerar dinheiro para o país”.

Mas os objetivos de Trump para o petróleo enfrentam grandes desafios.

Um pequeno grupo de produtores ocidentais com operações ou acordos já existentes na Venezuela poderia ampliar a produção com relativa rapidez se as condições políticas fossem favoráveis. Uma revitalização mais ampla da debilitada indústria de petróleo e gás do país, porém, provavelmente levaria anos e exigiria investimentos de dezenas de bilhões de dólares.

O prêmio potencial é enorme —a Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo—, assim como os riscos. Empresas de energia dos EUA como Exxon Mobil e ConocoPhillips já tiveram prejuízos no país. Os preços do petróleo, além disso, estão baixos, após uma queda de mais de 20% no último ano, o que torna mais difícil justificar novos gastos.

Por ora, duas das grandes questões para as petroleiras são como o regime venezuelano será reconstruído após a captura de Maduro e se os Estados Unidos suspenderão as sanções impostas para enfraquecer a economia do país.

“Não são muitas as empresas que vão se apressar a entrar em um ambiente sem estabilidade”, afirmou Ali Moshiri, que supervisionou as operações da Chevron na Venezuela até 2017 e hoje comanda uma petroleira privada com interesses no país.

A Chevron, maior produtora privada de petróleo na Venezuela, e outros operadores menores, poderiam ajudar a elevar a produção do país para até 1,5 milhão de barris por dia em até 18 meses, segundo Moshiri. Isso custaria até US$ 7 bilhões (R$ 37,9 bi), partindo de um nível atual estimado em cerca de 1 milhão de barris diários.

Ainda assim, a Venezuela produziria pouco mais de 1% do petróleo consumido no mundo e menos da metade do que bombeava no fim dos anos 1990.

Uma expansão adicional provavelmente levaria anos. Isso porque grande parte da infraestrutura petrolífera venezuelana está em mau estado e, mesmo que produtores manifestem interesse em retornar, levaria tempo para negociar contratos e restabelecer presença no país.

“Muita coisa depende da política e de quem está no comando”, disse Daniel Yergin, historiador de energia vencedor do Pulitzer e vice-presidente da consultoria S&P Global.

Alguns analistas traçaram paralelos com o Iraque, onde a produção de petróleo levou anos para se recuperar após a invasão dos EUA em 2003.

Por enquanto, a indústria petrolífera venezuelana permanece sob sanções dos EUA, paralisada por uma campanha agressiva contra muitos dos navios-tanque usados para exportar o petróleo do país. Essas restrições permanecerão enquanto os EUA pressionarem a ditadura venezuelana a promover mudanças de política, disse no domingo(4) o secretário de Estado Marco Rubio.

“É uma alavanca enorme que continuará em vigor até vermos mudanças, não apenas para atender ao interesse nacional dos Estados Unidos, que é o número um, mas também para conduzir o povo venezuelano a um futuro melhor”, afirmou Rubio no programa “Face the Nation”, da CBS News.

Apenas a Chevron conseguiu exportar petróleo regularmente nas semanas desde que os EUA apreenderam o navio Skipper em 10 de dezembro, segundo o TankerTrackers.com, que monitora o transporte marítimo global.

A empresa detém uma licença exclusiva do governo Trump que permite continuar operando na Venezuela e enviar petróleo para refinarias da Costa do Golfo dos EUA. Por isso, é amplamente vista como a mais bem posicionada para aumentar a produção caso as condições no país se estabilizem.

Outras companhias de energia que mantiveram presença na Venezuela incluem a italiana Eni e a espanhola Repsol, que produzem gás natural em áreas offshore do país. As sanções dos EUA, porém, impedem a exportação. O Departamento do Tesouro americano também emitiu em 2025 uma licença que permitiria à Shell, sediada em Londres, retomar trabalhos em um campo de gás offshore venezuelano, embora a Venezuela tenha interrompido posteriormente as negociações.

Outras, como Exxon Mobil e ConocoPhillips, deixaram a Venezuela após o antecessor de Maduro, Hugo Chávez, nacionalizar parcialmente a indústria petrolífera por volta de 2007. Essas empresas passaram anos tentando, sem muito sucesso, obter bilhões de dólares em indenização pelos ativos confiscados.

Mais recentemente, autoridades venezuelanas tentaram melhorar as relações com algumas petroleiras ocidentais. O regime de Maduro negociava um acordo de comércio de petróleo com a ConocoPhillips até o ano passado, segundo informou o New York Times.

Após a captura de Maduro, a ConocoPhillips disse que “seria prematuro especular sobre quaisquer atividades comerciais ou investimentos futuros” e não abordou especificamente as negociações. A Chevron afirmou que continua operando na Venezuela “em total conformidade com todas as leis e regulamentos aplicáveis”.

Moshiri disse que, como primeiro passo para estimular mais investimento estrangeiro, o governo Trump precisaria suspender as sanções contra a Venezuela. “A única bala de prata para reverter a economia hoje é o investimento em petróleo”, afirmou

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