A estratégia da Apple para produtos de tecnologia de consumo é praticamente infalível desde o lançamento do iPod, em 2001. Ou melhor, era, até o Vision Pro.
Marcando a primeira investida da empresa em realidade aumentada, o headset é uma conquista tecnológica extraordinária. Também é pesado, tem bateria de curta duração e custa a partir de US$ 3.500 (R$ 18,6 mil, sem considerar impostos). Não surpreende que as vendas tenham sido escassas e que a Apple, após lançar um modelo levemente aprimorado, esteja recuando de novas atualizações.
Parece um fracasso, certo? Bem, sim. Mas, olhando além do fiasco imediato, a trajetória do Vision Pro é um sinal claro de que a Apple —que talvez tenha criado mais produtos revolucionários para o consumidor do que qualquer outra empresa da história— ainda entende como criar inovações que mudam o mundo.
A primeira coisa a saber sobre o Vision Pro é que ele realmente é um prodígio tecnológico. Quando foi lançado, em fevereiro de 2024, a PCMag descreveu sua combinação de rastreamento ocular e gestual com telas de alta resolução como “um salto geracional no design de interfaces de realidade mista”.
E, no ano e meio desde então, a Apple aprimorou tanto o hardware quanto o software. Assim como o iPhone original oferecia uma experiência de uso fundamentalmente diferente dos smartphones anteriores, o Vision Pro parece mais algo saído de um filme de ficção científica do que qualquer produto disponível hoje.
A segunda coisa a entender é que, apesar de ser fruto de bilhões de dólares em investimentos e anos de P&D, o Vision Pro está longe da visão original da Apple: óculos que você poderia usar o dia inteiro.
Na verdade, o Vision Pro é algo que você pode usar por, no máximo, algumas horas —e definitivamente não é algo para usar na rotina diária. Isso não se deve apenas à bateria limitada ou ao peso; o dispositivo também isola o usuário do mundo externo. E seus casos de uso são muito restritos (o mais óbvio é consumo de mídia, e mesmo assim ele carece de recursos, como um app da Netflix).
Dadas essas limitações e o preço extraordinariamente alto, o fracasso do Vision Pro era tanto previsível quanto inevitável. Eu adoro gadgets mais do que a maioria das pessoas (irracionalmente, segundo minha esposa). E nunca considerei comprar um Vision Pro. Pelo que parece, não estou sozinho. De fato, muitos dos que compraram o dispositivo acabaram devolvendo-o porque não conseguiram usá-lo o suficiente para justificar o preço.
Então por que acredito que a Apple gastar bilhões desenvolvendo um produto destinado a ser um fiasco comercial é um bom sinal para o futuro da empresa?
Por causa do que isso revela sobre a contínua disposição da Apple de desafiar consensos e usar seus recursos virtualmente infinitos para impulsionar a tecnologia nas direções que mais provavelmente levarão ao seu próximo produto revolucionário.
Pense no lançamento do primeiro iPhone. Ele tinha vantagens tecnológicas importantes sobre smartphones anteriores, como a tela multitouch e o teclado virtual. Desenvolver essas tecnologias exigiu ao menos US$ 150 milhões em investimentos —uma quantia enorme para a Apple na época.
Avanços desse tipo frequentemente exigem esse nível de aposta, mesmo quando significa arriscar a própria empresa, como fez a Boeing com o 707.
Hoje, a Apple é tão lucrativa que não precisa arriscar sua sobrevivência para fazer grandes apostas. Mas, mesmo enquanto enfrenta críticas por supostamente ficar para trás em IA, ela tem feito enormes investimentos tecnológicos —apenas de formas diferentes do restante da indústria.
Gastar dinheiro em algo quase certamente fadado ao fracasso pode parecer uma má ideia, mas é fácil esquecer que, enquanto as piores ideias frequentemente parecem condenadas desde o início, o mesmo vale para muitas das melhores.
Hoje, o sucesso do iPhone parece inevitável. Mas, no lançamento, muitos achavam que ele fracassaria. Até o professor Clayton Christensen, da Harvard Business School, criador da influente teoria da inovação disruptiva, tinha certeza disso.
A disposição da Apple de seguir em frente após o Vision Pro mostra que ela não se apaixona pelas próprias ideias. A empresa avançou a tecnologia de maneiras que certamente serão úteis em futuras investidas em realidade aumentada, aprendeu que o mercado prioriza acessibilidade e ergonomia em vez de pura engenharia —e cortou suas perdas antes que elas se tornassem mais que um detalhe contábil.
Os maiores retornos são resultado de ir contra a corrente. A maioria dessas tentativas fracassará. Mas a Apple opera numa escala que poucas empresas conseguem imaginar.
Como apontou recentemente o especialista em marketing Michael Miraflor, a área de serviços da empresa gera mais receita do que a Target, o iPad fatura o equivalente à AMD e o iPhone mais do que o Bank of America.
Riscos como o Vision Pro são exatamente o tipo de aposta que a Apple precisa fazer para mover a agulha —e não há melhor sinal para seu futuro do que continuar disposta a tomá-los agora.





