Quando dois homens apareceram há alguns meses em uma liga de futebol para adultos no subúrbio de Dallas, Anthony Williams mediu os homens —altura, peso e circunferência da cintura— e voltou com notícias decepcionantes.
“Eu disse a eles: ‘Desculpe, vocês não são gordos o suficiente'”, contou Williams, um dos técnicos da liga, na semana passada, enquanto assistia a duas equipes da liga, Fat Man United e Totten-Ham and Cheese, jogarem em uma arena coberta a uma hora de carro do centro da cidade.
A Man v Fat League é reservada para jogadores corpulentos, que são atraídos pelo futebol competitivo e por doses generosas de humor autodepreciativo para perder peso.
Fundada na Grã-Bretanha em 2014 como uma resposta aos programas de emagrecimento que atraíam principalmente mulheres, a Man v Fat expandiu-se para os Estados Unidos em 2024. Agora, possui mais de uma dúzia de ligas em Nova York, Nova Jersey, Flórida e Texas, que atraem homens como Joseph Alvarado Delgado, de 26 anos, que ganhou 23 quilos enquanto trabalhava em restaurantes de fast-food na região de Dallas após o ensino médio.
Desde que entrou para o programa, Delgado disse: “Estou muito mais enérgico, durmo muito melhor e minha esposa diz que não ronco tanto”.
Williams pesa os jogadores antes de cada partida e revisa um registro do que comeram durante a semana anterior. A classificação da liga é baseada tanto nas partidas vencidas quanto nos quilos perdidos.
Para Delgado, goleiro na Man v Fat, as porções generosas de macarrão com queijo, hambúrgueres, batatas fritas, cerveja e rum temperado —e a azia— o levaram a perceber que precisava fazer algo. Um exame abdominal trouxe notícias ainda mais alarmantes. “Meu fígado estava inflamado e parecia o de um alcoólatra de 40 anos”, disse Delgado, relatando o que um médico lhe disse.
Ele mudou radicalmente sua dieta, reduziu o álcool e entrou para a liga no verão passado. Este mês, quando subiu na balança antes de uma partida, ele havia emagrecido de 150 kg para 127 kg em um ano.
O único lado negativo, disse ele, é que perder peso pode ser caro: um par de botas de cowboy de couro de avestruz de US$ 500 (R$ 2.685) que ele comprou com seu peso anterior não serve mais. Ele calculou que possui US$ 1.500 (R$ 8.055) em roupas que agora estão muito grandes para ele.
Com seus nomes de times irreverentes e espírito descontraído —um jogador tinha “No Salad” (sem salada) estampada nas costas da camisa—, a Man v Fat pode ser visto como uma brincadeira. Mas os participantes, que pagam US$ 99 por mês para jogar na liga, dizem que levam a coisa a sério.
Os jogadores na Grã-Bretanha perderam coletivamente 408 mil kg —”equivalente a mais de 82 elefantes”, disse a liga. Para se qualificar, os jogadores devem ter mais de 18 anos e um índice de massa corporal de pelo menos 27,5, o que para um homem de altura média se traduz em vestir algo entre uma camisa grande e extra grande —ou maior. A regra se aplica apenas ao início do programa. Os jogadores não são expulsos por perderem muito peso.
O aspecto competitivo —em que cada quilo perdido pelos companheiros contribui para a classificação da equipe na liga— é uma grande motivação, disse Naim Eljaouri, um atacante de 37 anos, enquanto o suor escorria pelo seu rosto, acrescentando: “Temos um grupo de bate-papo onde nos incentivamos mutuamente”.
As partidas semanais são disputadas em quadra coberta, com duração de 28 minutos, e podem parecer uma mistura de futebol e hóquei. A bola pode quicar na parede que delimita o campo, que tem menos da metade do tamanho de um campo de futebol padrão. O jogo só é interrompido após um gol ou um pênalti, ou quando a bola bate na rede acima das paredes.
“Vocês não têm ideia de como somos mais rápidos agora”, disse Gustavo Alvarez, um médico que entrou para a liga na primavera passada. “Quando começamos, basicamente ficávamos parados só trocando passes.”
Alvarez joga pelo Fat Man United. Outros nomes de times também são trocadilhos com times de futebol famosos, incluindo o Fatty Liverpool Football Club (FC no jargão do futebol).
Alguns nomes de times fazem referência a comidas: K-FC Dallas e Butterball United.
Há também OB City, Heart Attack FC e Mission: Slimpossible.
Williams questiona os jogadores individualmente a cada semana sobre o que comeram, um relato que, segundo os jogadores, os desafia a se alimentarem melhor.
Delgado disse que tenta não decepcionar seu treinador. “Se ele vir seis cheeseburgers do McDonald’s na lista, vai me olhar torto.”
Os jogadores dizem que a liga oferece benefícios que vão além da perda de peso. Numa época em que casos de solidão masculina ganham as manchetes, companheiros de equipe forjam amizades em torno de um propósito comum.
Jarod Zlotkowski, que joga pelo Fatty Liverpool e administra um bar esportivo na região de Dallas, disse que a liga lhe permitiu conhecer pessoas com quem normalmente jamais cruzaria o caminho.
Chris Alsip, vendedor de uma empresa de tecnologia, pesava 195 kg quando entrou para a liga. Sua filha de 7 anos, que faz aulas de futebol no mesmo local, chama os jogos do pai de “futebol de gordo”.
Alsip disse que achava que as pessoas o julgavam como “preguiçoso, desleixado, não inteligente, de baixo esforço” apenas com base em seu peso. Exercitar-se com outras pessoas pesadas alivia parte do julgamento, disse ele.
Durante as pesagens após o recesso de Ano Novo, muitos jogadores admitiram que a alegria das festas atrapalhou suas dietas. Mas quando Alsip subiu na balança, pesava 151 kg, 3,6 kg a menos do que antes das festas e 43,5 kg a menos do que em maio, sua primeira pesagem no Man v Fat.
Seu número de sapato diminuiu de 46 para 47, e sua cintura de 132 cm para 107 cm.
Alsip disse que contou com a ajuda de medicamentos: Mounjaro, um dos novos remédios para perda de peso e diabetes conhecidos como GLP-1.
Outros dizem que estão se dedicando apenas à dieta e exercícios para emagrecer.
“Quero sentir a sensação de realização de ter conseguido por conta própria”, disse Delgado, que rejeitou a sugestão de seu médico de tomar os medicamentos. Para atingir seu objetivo de voltar ao peso de 104 kg que tinha no ensino médio, com seus 1,83 m de altura, ele substituiu as barras de Snickers por pipoca e o refrigerante Dr Pepper por água.
Antes do casamento, em agosto, ele precisou ajustar o terno e colocar duas palmilhas nas botas de cowboy.
Sua esposa, Stephanie Moreno, brincou à margem de uma partida recente que seu marido poderia perder tantos quilos que acabaria voando.
“Ele é minha pequena partícula de poeira”, disse ela.
Autor: Folha






