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Xabi Alonso e o banheiro de perfume dos técnicos – 14/01/2026 – Marcelo Bechler

Esta semana a demissão do técnico Xabi Alonso, do Real Madrid, dominou o debate na Europa sobre as habilidades que um treinador deve ter. Xabi tinha aproveitamento de 72% e foi mandado embora seis meses depois de assumir a equipe. Suas credenciais eram de um título alemão invicto pelo Bayer Leverkusen —equipe que nunca havia sido campeã. Ainda ganhou uma Copa nacional e foi vice-campeão da Europa League.

Fez isso com um futebol autoral: três zagueiros construtores, alas que viravam pontas, atacantes móveis, um meio-campista que ditava o ritmo de jogo e um camisa 10, Floriant Wirtz, com liberdade. No Real Madrid encontrou Vinicius, Mbappé, Bellingham, Valverde e companhia. Todos ótimos, mas com características bem diferentes do que tinha antes em mãos.

Xabi vacilava entre tentar acomodar os jogadores e querer implementar sua forma de jogar. No futebol não existe nada pior do que hesitar. E esta postura vacilante fez com que jogadores e diretoria não comprassem a ideia do treinador.

Em dezembro, antes de enfrentar o Manchester City, Pep Guardiola foi questionado sobre que conselho daria ao seu colega. Respondeu “Que mije com o seu pinto. E, como não vai mijar perfume, ele vai se sair bem”. Pep, inimigo histórico do Real Madrid, estava ironizando uma máxima que se criou sobre ele, ainda em tempos de jogador do Barcelona. Como se expressa muito bem e sempre parece ser o dono da razão, jornalistas em Madri começaram a dizer que ele deveria “urinar perfume” de tão “limpinho e perfeito” que seria.

De fato, Guardiola estava zombando, mas também dando um conselho sincero a Xabi Alonso: fazer as coisas de seu jeito, seguir suas convicções e acreditar em seu potencial. Em seu primeiro trabalho em um clube de primeira prateleira, Alonso ficou no meio do caminho entre suas táticas e os egos dos jogadores. Acabou demitido ao perder um clássico jogando na retranca e apostando em lançamentos para Vini —totalmente o contrário do que seu jogo propõe.

Afinal, de que é feito um técnico de futebol? Neste mictório dos treinadores, é melhor treinar ou administrar?

Para mim, primeiro o estrategista e depois o gerenciador. Até que o estrategista seja necessário outra vez. Por exemplo, Jorge Jesus montou um Flamengo devorador em 2019. Depois de sua saída, Dorival Júnior, Rogério Ceni e Renato Gaúcho tiveram sucesso na esteira do português. Domenech Torrent, Jorge Sampaoli e Vitor Pereira, apostando em mudanças táticas, fracassaram. Tite não conseguiu fazer o choque necessário para voltar a vencer, mas Filipe Luís, quebrando a dinâmica “Jorge Jesuítica”, sim.

Jurgen Klopp fez sucesso no Liverpool implementando seu Rock’n Roll e depois Arne Slot conseguiu vencer com mais gestão que revolução no primeiro ano. Quando precisou modificar peças e forma de jogar, se perdeu. Quando Luís Enrique assumiu o Barça, tinha um caminho pavimentado por Guardiola e seu trabalho foi administrar Messi, Suarez e Neymar em campo. No PSG, encontrou uma “estrada de terra tática” e abriu mão de medalhões para fazer um time vencedor à sua maneira. Abel Ferreira se mantém anos no Palmeiras com um perfil de elenco diferente, com menos estrelas e mais poder ao treinador.

Voltando ao Real Madrid, o clube sempre opta pelas estrelas. A aposta para o banco é por Alvaro Arbeloa, ex-jogador que passou sete temporadas como profissional no clube. Porque se o novato não tem muita experiência como técnico, ao menos tem muita experiência no Real Madrid. No banheiro, não sairá perfume, mas ele pode sair limpo de lá.

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Autor: Folha

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