
As revelações da Polícia Federal (PF) sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro deram novo significado a uma série de declarações feitas pelo magistrado nos últimos anos.
Segundo a investigação, Vorcaro enviou mensagens a Moraes nos dias que antecederam sua prisão, em novembro de 2025, inclusive perguntando se deveria deixar o país. A PF conseguiu recuperar as mensagens enviadas pelo banqueiro, mas não as respostas do ministro porque teria sido utilizada a função de visualização única do WhatsApp, que faz o conteúdo desaparecer depois de aberto.
Outro ponto levantado pelos investigadores envolve o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Segundo a PF, Alexandre de Moraes fez alterações em um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório. A banca confirmou que o ministro participou da revisão do documento. Um segundo contrato, de R$ 50 milhões, previa o pagamento de parte dos honorários com cotas de um jatinho e de um helicóptero.
Diante desses fatos, o STF analisa nesta terça-feira (15) se o ministro deve ser alvo de uma investigação formal sobre sua relação com o ex-banqueiro. As revelações da PF colocam em xeque uma série de frases de Alexandre de Moraes, sobre democracia, independência judicial, colegialidade e atuação do Judiciário, que envelheceram mal diante dos novos fatos.
Na noite desta segunda-feira (14), o ministro negou as conversas com Vorcaro e disse que as mensagens apontadas na investigação policial seriam uma “farsa” (leia mais em “Outro lado”, ao fim deste texto).
VEJA TAMBÉM:
- O Dia D para Alexandre de Moraes e o STF: tudo sobre o julgamento histórico
1. “O herói do filme precisa continuar”
Em entrevista à revista americana The New Yorker, publicada em abril de 2025, Moraes mencionou ameaças que teria recebido e contou que brincava com sua equipe de segurança dizendo que não poderia morrer porque “o herói do filme precisa continuar”.
A declaração tem a ver com a imagem pública que o ministro tentou criar de si ao longo dos anos, de protagonista de uma batalha em defesa da democracia contra uma ameaça extremista, para justificar a série de medidas excepcionais tomadas pelo STF em casos de sua relatoria.
Mais de um ano depois, entretanto, a imagem do “herói” já é confrontada até mesmo por aliados, parte da imprensa e uma ala governista, que passaram a defender a investigação contra o ministro.
2. “Desprezo para com o Poder Judiciário”, sobre o apagamento de mensagens
Alexandre de Moraes, que segundo a PF enviou mensagens de visualização única a Daniel Vorcaro em seu celular, já criticou duramente o uso desse tipo de recurso ao julgar réus.
Em 2025, votando pela condenação da cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, que pichou a estátua da Justiça com batom durante os atos de 8 de janeiro de 2023, o ministro definiu o ato de deletar mensagens de celular no âmbito de um inquérito como “desprezo para com o Poder Judiciário e a ordem pública”.
Segundo a investigação da PF, as mensagens de Moraes ao banqueiro foram enviadas por meio de visualização única, recurso que impede que o destinatário tenha acesso posteriormente ao conteúdo. Foi por isso que os investigadores conseguiram recuperar as mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes, mas não as respostas do ministro.
Sobre Débora, no entanto, o ministro sequer garantiu que a cabeleireira de fato apagou as mensagens ou utilizou o recurso de visualização única.
“Foi observado nesta análise que existem diversas conversas no aplicativo Whatsapp e que estas têm uma interrupção nos diálogos concernente ao período entre dezembro/2022 e primeira quinzena de fevereiro/2023. Isto pode ser um indício de que Debora dos Santos tenha apagado do seu telefone os dados relevantes referentes ao período das manifestações antidemocráticas e atos antidemocráticos do dia 08/01/2023”, afirmou Moraes ao votar para condenar a cabeleireira a 14 anos de prisão.
VEJA TAMBÉM:
- Moraes criticou Débora do batom por apagar mensagens, mas fez o mesmo ao falar com Vorcaro
3. “Trata-se de ilação mentirosa”, sobre mensagens de Vorcaro
Quando vieram a público as primeiras informações sobre conversas por celular entre Vorcaro e Moraes, ainda em março deste ano, o gabinete do ministro negou que ele tivesse recebido aquelas mensagens.
“Trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o Supremo Tribunal Federal”, afirmou o gabinete de Alexandre de Moraes em nota divulgada à imprensa.
No entanto, o relatório divulgado no início de agosto pela Polícia Federal trouxe uma quantidade muito maior de elementos sobre a relação entre os dois. A investigação apontou pelo menos seis encontros, mensagens enviadas por Vorcaro ao ministro e contatos que ocorreram inclusive pouco antes da prisão do banqueiro.
4. “O Judiciário é um órgão colegiado, para que uns corrijam os equívocos dos outros”
Em agosto de 2025, ao afirmar que instituições formadas por seres humanos podem cometer “erros e acertos”, Alexandre de Moraes defendeu a importância da colegialidade do Judiciário. “Exatamente por isso o Judiciário é um órgão colegiado, para que uns corrijam os equívocos dos outros”, afirmou.
A defesa de Moraes pela “correção a partir do colegiado” se tornou frágil nos últimos dias após o ministro lançar uma ofensiva para tentar evitar que o plenário do Supremo analisasse a abertura de inquérito por sua relação com o ex-banqueiro.
5. “Um Judiciário vassalo, que quer fazer acordo, não é um Judiciário independente”
Em diferentes ocasiões, Alexandre de Moraes fez defesas enfáticas da independência do Judiciário e da necessidade de que magistrados não se submetam a pressões externas.
Em discurso no Senado, em 2022, o ministro afirmou que “um Judiciário vassalo, covarde, que quer fazer acordos (…) não é um Judiciário independente”.
A declaração ganha outro peso diante das revelações da Polícia Federal. Se um Judiciário independente não pode ser “vassalo” nem fazer acordos com quem está sob investigação, caberia a Moraes e aos demais ministros do Supremo permitir uma apuração séria e independente sobre sua conduta.
6. “A própria democracia vem sendo atacada de forma jamais vista”
Em agosto de 2025, o ministro afirmou que “a própria democracia vem sendo atacada de forma jamais vista desde a redemocratização do mundo, pós-Segunda Guerra”. Na mesma ocasião, afirmou que as instituições deveriam se fortalecer para combater o que chamou de “novo populismo extremista”.
Moraes se colocou repetidamente como um dos principais responsáveis por impedir esse suposto avanço antidemocrático, mas agora, ao tentar impedir a investigação contra si, enfraquece a narrativa que construiu ao longo dos anos, apoiada por parte da imprensa e por governistas.
Esta Gazeta do Povo já abordou de forma exaustiva os excessos do ministro na condução de processos em que, na prática, acumulou os papéis de investigador, vítima e julgador, sobretudo à frente do chamado inquérito das fake news. O procedimento, que há anos é alvo de críticas por romper com ritos tradicionais do sistema acusatório, se tornou uma ferramenta de amplo poder contra críticos e opositores do ministro.
A demonstração mais recente veio justamente no contexto do caso Banco Master. Dois dias depois de André Mendonça retirar o sigilo do relatório da Polícia Federal que apontava a relação entre Moraes e Vorcaro, o próprio Moraes usou o inquérito das fake news para pedir a investigação do colega, acusando-o de supostas irregularidades na condução das apurações sobre o Banco Master e o INSS.
Outro lado
Na noite desta segunda-feira (14), véspera da sessão que pode decidir pela abertura de inquérito contra Moraes, o ministro acusou o colega André Mendonça de montar uma “farsa” contra ele para promover uma “vingança” em nome de “aliados” que, segundo ele, tentaram viabilizar a suposta tentativa de golpe de Estado.
“Apesar da farsa montada e divulgada, não existe absolutamente nada e todos sabem a motivação político-eleitoral dessas criminosas mentiras. Vingança. Está muito clara a tentativa de vingança dos aliados daqueles que tentaram acabar com a Democracia e o Estado de Direito e foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal”, disse Moraes.
VEJA TAMBÉM:
- Arbítrios em série: 104 decisões abusivas de Alexandre de Moraes
Fonte: Gazeta do Povo








.gif)












