Quando o médico recomendou que Julie Bernstein começasse a comer frango e carne para aumentar a ingestão de proteínas, ela ficou meio irritada. Aos 76 anos, a paciente era vegana havia décadas e não estava disposta a voltar aos hábitos antigos. Sem saber como orientá-la sobre fontes vegetais de proteína, ele sugeriu então que recorresse à inteligência artificial.
Passadas algumas semanas, ela digitou seus objetivos no ChatGPT e ficou maravilhada com a rapidez com que ele gerou ideias de cardápios ricos em proteína, listas de compras e instruções para preparar refeições que incorporavam lentilha, quinoa, proteína em pó e sementes de chia. “Parecia um livro de receitas feito sob medida. Ele entendeu direitinho o que eu precisava”, disse Bernstein.
Desde que o ChatGPT foi lançado, em 2022, os chatbots se tornaram uma fonte muito popular de informações sobre saúde. Em uma pesquisa com mais de 5.500 norte-americanos adultos publicada em abril, 25% entrevistados disseram ter usado a ferramenta recentemente para obter orientações. Outra enquete, publicada em janeiro, revelou que quase 350 dos 1.000 participantes admitiram ter usado o ChatGPT ou outro recurso de IA para criar dietas nutricionais ou para emagrecimento.
Não faz muito tempo, pedimos aos leitores do The New York Times que compartilhassem suas experiências do tipo; recebemos mais de 500 respostas, todas extremamente positivas, inclusive com muita gente encantada com a capacidade da máquina de fornecer conselhos rápidos. Já os nutricionistas afirmam que, embora sejam úteis para a realização de tarefas simples, como a sugestão de cardápios, às vezes também podem induzir o usuário ao erro.
Leia a seguir alguns dos relatos compartilhados, com as opiniões de especialistas sobre as promessas –e as possíveis armadilhas– da confiança na tecnologia em termos de orientação nutricional.
Vantagens: planejamento de refeições e monitoramento de nutrientes
Depois que Vanessa Crain, 47, recebeu diagnóstico de cardiopatia, em 2025, prometeu levar a sério a alimentação –e por recomendação do cardiologista, tentou seguir a dieta Dash, que valoriza frutas, legumes, verduras e grãos integrais.
Nos fins de semana, passava horas folheando livros de receitas e planejando as refeições dos próximos dias, tarefas que logo se tornaram um fardo. Então terceirizou a missão para o Claude. “Menos de uma semana depois já comecei a me sentir diferente, com mais energia e menos vontade de comer besteira”, disse. A IA recomendava até as opções mais saudáveis de delivery para quando não tivesse tempo de cozinhar, ela disse, o que a ajudou a perder 4,5 kg em dois meses.
Segundo Lisa Oldson, médica especialista em obesidade, a pressão mental de decidir o que comer geralmente é o aspecto mais complicado de uma alimentação saudável. Por isso ela admite fazer uso da IA, ensinando os pacientes a usar o ChatGPT até mesmo para calcular o conteúdo nutricional das refeições, como os níveis de proteína e fibra.
“Mas é preciso ficar atento caso os conselhos comecem a ficar muito rígidos ou causem ansiedade, porque é sinal de que está fazendo mais mal do que bem”, alertou o nutricionista Wesley McWhorter.
Armadilhas: conselhos imprecisos e até prejudiciais
De acordo com Nick Tiller, que estuda a desinformação na saúde, os chatbots são convenientes e rápidos, mas às vezes dão conselhos incrivelmente ruins.
Alex Rawdin, 39, pediu à IA para ajudá-lo a emagrecer, mas, depois de várias semanas seguindo a dieta cetogênica (rica em gordura e pobre em carboidratos) que lhe foi recomendada, lembrou que o médico tinha pedido que limitasse a ingestão de proteína animal ao mínimo por causa das pedras nos rins.
Quando repassou essa informação ao chatbot, foi aconselhado a interromper a dieta. “Teria sido legal ele pedir meu histórico de saúde antes de recomendar alguma coisa.”
Os chatbots não são treinados para avaliar os antecedentes do paciente ou usar a avaliação clínica como faz um profissional, explicou Dawn Clifford, nutricionista e professora de ciências da saúde.
Em um estudo publicado em março, pesquisadores turcos pediram a cinco chatbots bastante populares que criassem um planejamento alimentar de três dias para ajudar um grupo (fictício) de adolescentes com sobrepeso ou obesidade a emagrecer. Todos produziram cardápios que continham, em média, cerca de 700 calorias diárias a menos do que os elaborados por uma nutricionista.
“Se os jovens seguissem tais orientações em longo prazo, correriam riscos de desnutrição e/ou distúrbios alimentares“, escreveram os autores.
Shelley Wood, nutricionista especializada em gastroenterologia, volta e meia atende gente que segue dietas desnecessariamente restritivas com base nas sugestões de chatbots. “Depois de muitas conversas com o ChatGPT, um paciente passou meses comendo só mamão, espinafre, frango e ovos para ajudar a aliviar problemas como inchaço e dor de estômago. Emagreceu em um nível preocupante, apresentando fadiga e queda de cabelo.”
Para Tiller, seguir esses conselhos nutricionais pode ser uma coisa boa —ou catastrófica. Em um estudo publicado em abril, ele e os colegas fizeram várias perguntas relacionadas à saúde a cinco chatbots e, entre as 50 respostas sobre nutrição, 72% foram classificadas como ineficazes ou prejudiciais.
“Os modelos de IA estão evoluindo bem rápido, então é provável que hoje já estejam oferecendo respostas mais adequadas. Mesmo assim, duvido que todos os problemas tenham sido resolvidos.”
Drew Pusateri, porta-voz da OpenAI (dona do ChatGPT), afirmou por e-mail que os chatbots não foram projetados para substituir tratamentos médicos.
Apesar de todas as possíveis desvantagens, muitos leitores se mostraram satisfeitos com as orientações fornecidas, inclusive porque a IA oferece algo que os médicos e/ou outros profissionais de saúde não podem oferecer: ajuda em questão de segundos, a qualquer hora, sem necessidade de agendamento ou pagamento.
“Os chatbots podem ser úteis, não há dúvida sobre isso, mas, antes de recorrer a eles para um diagnóstico, controle de doenças, orientação sobre suplementos ou mudanças radicais na dieta, é melhor consultar um médico. Se possível, passe com um nutricionista, que tem formação mais direcionada e geralmente faz consultas mais minuciosas”, disse McWhorter.
“Também vale a pena pedir referências e conferir se são de fontes confiáveis, como instituições acadêmicas, revistas científicas revisadas por pares ou organizações de saúde. Outra dica é repetir a mesma pergunta a vários chatbots; respostas diferentes são um indício de que pelo menos uma pode estar incorreta”, completou Clifford.
Autor: Folha








.gif)












