Dois estudos recentes elaborados por economistas que pesquisaram as bets terminaram com sugestões para tornar a experiência menos fluida —a ideia é criar mais dificuldades ou tornar o processo menos intuitivo.
Algumas propostas incluem intervalo obrigatório entre apostas e bloqueio do Pix para pagamento. Os pesquisadores afirmam que essas medidas podem ser mais eficientes que ações isoladas de educação financeira.
Outro ponto relevante encontrado nos estudos envolve as motivações para ingressar no mundo das bets. Além do fato de que alguns jogadores encaram a jogatina como investimento, outra conclusão foi que aqueles que conseguem economizar parte da renda mensal têm menos chances de apostar.
A primeira pesquisa, “O que leva os brasileiros a apostar em bets?”, foi publicada na última edição da Revista Brasileira de Finanças, em janeiro.
Os autores Daniel Abreu e Aureliano Bressan usaram dados do Raio-X do Investidor Brasileiro, da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), para estimar qual é a dimensão de diferentes fatores na decisão de apostar. A pesquisa é feita pelo Datafolha, que divulgou o último resultado em abril.
O principal motivo pelo qual as pessoas começam a jogar nessas plataformas é por achar que se trata de um investimento. Entre quem aposta bastante, porém, a noção determinante é ganhar dinheiro extra.
Para os autores, é possível identificar uma percepção distorcida de que as bets funcionam como complemento de renda. Em segundo e terceiro lugar ficam a emoção e a diversão.
“A combinação desses fatores mostra que o indivíduo age tomado pela emoção e por diversão, mas, principalmente, na tentativa de recuperar perdas anteriores, que é um resultado amplamente documentado pelas finanças comportamentais”, afirma Aureliano Bressan.
Para o pesquisador, faz sentido aumentar o intervalo entre um jogo e outro porque o apostador tenta compensar a perda anterior com uma rodada em seguida. Forçar um intervalo obrigatório a cada tentativa seria uma forma de criar a possibilidade para reflexão e, eventualmente, de uma nova decisão.
Os fatores sociodemográficos mais consistentes foram idade (jovens apostam mais), gênero (homens mais frequentes) e uso intensivo de internet.
Daniel Abreu afirma que, apesar de as pessoas apostarem pela crença de que bets são tipos de investimento, outro fator chamou a atenção: o Raio-X do Investidor de 2026 mostrou que a chance de o indivíduo entrar no mundo das apostas diminui quando é possível economizar uma fatia da renda mensal.
Conforme o pesquisador, o resultado expõe mais uma evidência de que um dos fatores que atrai as pessoas para as plataformas é que elas precisam de dinheiro.
Falha de mercado
A pesquisa de Abreu e Bressan é baseada em dados e usa regressões e outros métodos estatísticos para estimar a dimensão de diferentes fatores na decisão de apostar. A metodologia é muito diferente de “Bets não vendem apostas, vendem decisões“, artigo que Flávio Ataliba publicou na página do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV (Fundação Getulio Vargas).
O economista revisita a literatura acadêmica sobre como os consumidores tomam decisões. Mesmo com as diferenças no método de pesquisa, Ataliba chega a uma recomendação similar.
Ele conclui que as bets não devem ser tratadas como uma questão de mau comportamento individual, mas como uma nova categoria de falha de mercado.
Na teoria econômica, falhas de mercado são situações em que a melhor escolha para a sociedade na totalidade não coincide com o equilíbrio do que é oferecido pela economia.
Um exemplo clássico é o de bens ou serviços que causam externalidades negativas, como poluição. O equilíbrio econômico da oferta e da demanda por carros e produtos industriais produz alta poluição. Este resultado impõe ação do governo, por exemplo, para promover mudanças na economia que diminuam a poluição e aumentem o bem-estar social.
Flávio Ataliba argumenta que o modelo de negócios das bets consiste em aproveitar os vieses cognitivos das pessoas —atalhos mentais do cérebro para tomar decisões rapidamente que podem distorcer a percepção de riscos e recompensas. Este modelo, diz o acadêmico, causa o descompasso entre equilíbrio de mercado e um bem-estar social.
Como todos possuem padrões na forma de tomar decisões, não há nenhum grupo imune ao problema de apostar demais, afirma ele.
Para Ataliba, o resultado mostra que a propensão a apostar demais não será corrigida com mais educação financeira ou com campanhas para dizer que bets não são investimentos. Ele nega defender a proibição de casas de apostas, mas diz ver problemas com a velocidade do processo de aposta.
Como o Pix reduz o tempo de aposta, uma possível solução apontada seria retardar a transação, o que colocaria o consumidor em uma condição mais vantajosa.
Demografia das bets
Os pesquisadores que se debruçaram sobre as pesquisas da Anbima e do Datafolha afirmam que as motivações econômicas e emocionais são mais importantes para determinar a intensidade das apostas do que as características como idade, renda e sexo.
Ao comparar as informações das três edições do Raio-X do Investidor, eles notaram, no entanto, que essas últimas passam por mudanças ao longo dos anos. Uma delas é em relação a pessoas que entraram recentemente no mundo das bets: Os homens sempre foram mais propensos a começar a apostar, mas a diferença com as mulheres está aumentando.
É uma tendência diferente do que ocorreu com a idade. Os mais propensos a apostar são os adultos jovens, tendência compatível, segundo os acadêmicos, com evidências internacionais. No entanto, de 2023 para cá, pessoas mais velhas passaram a fazer mais bets.
Ao longo dos anos, os dados também mostram mudanças no perfil de quem aposta bastante. Por exemplo, em 2023, havia uma correlação mais forte entre quem acompanhava influenciadores financeiros e apostadores, mas isso foi se diluindo ao longo dos anos.
Os autores ponderam que, possivelmente, essa relação foi se perdendo à medida que o tema das bets passou a circular em canais de comunicação mais amplos.
Estar frequentemente online tem um efeito de porta de entrada. As bets são um fenômeno de internet, mas a evidência dos pesquisadores sugere que a intensificação do comportamento não é tão ligada à exposição online.
Autor: Folha








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