No Amazonas, o caminho até um exame para prevenção do câncer do colo do útero pode levar horas, e, para algumas mulheres, começa dentro de um barco.
Foi o que a farmacêutica Valquíria do Carmo, 55, encontrou ao observar as comunidades quilombolas de Tambor, em Novo Airão, e São Benedito, em Manaus. Para chegar a uma UBS (Unidade Básica de Saúde), mulheres precisam gastar com combustível, passar horas no deslocamento e encontrar alguém que cuide dos filhos enquanto estão fora de casa.
A situação expõe um desafio que vai além da região Norte. Mulheres podem passar anos sem fazer a prevenção do câncer de colo do útero, ou cervical, mesmo quando estão na faixa de 25 a 64 anos, para a qual o SUS (Sistema Único de Saúde) realiza o rastreio.
A fim de alcançar quem não chega aos serviços de saúde, pesquisadores e gestores buscam novas formas de facilitar o acesso a exames.
Desde os anos 1980, o método mais utilizado no rastreio era o papanicolau. O exame coleta células do colo do útero para detecção de lesões por HPV (papilomavírus humano), causador da quase totalidade de casos de câncer cervical.
Em 2025, uma nova diretriz do Ministério da Saúde passou a recomendar o teste de DNA-HPV oncogênico como método preferencial de rastreamento, em substituição gradual ao papanicolau.
O teste de DNA-HPV identifica a presença de tipos de HPV de alto risco antes que alterações nas células do colo do útero se desenvolvam. É um exame altamente sensível, sendo capaz de detectar a infecção em 97% dos casos. Para termos de comparação, o papanicolau não passa de 70%. Um resultado negativo no DNA-HPV permite ampliar para cinco anos o intervalo até o próximo exame.
Autocoleta
A diretriz prevê que a amostra possa ser obtida por autocoleta. Esse método facilita o acesso ao exame, por dispensar a ida da mulher até uma UBS.
É nesse contexto que atua a Rede Previna-se, da qual Carmo faz parte. A iniciativa reúne pesquisadores de várias regiões do Brasil para estudar o rastreamento do câncer do colo do útero a partir da autocoleta vaginal.
No projeto, mulheres com falhas de rastreio recebem o kit em visita de agentes comunitários de saúde, que analisam o resultado e dão orientação a partir dele.
Entre agosto de 2025 e junho de 2026, a equipe incluiu no projeto 200 mulheres residentes no Amazonas.
O estado tem a maior incidência do câncer cervical, no Brasil, com 28,57 casos para cada 100 mil mulheres. O percentual representa o dobro da média nacional, segundo dados do Inca (Instituto Nacional de Câncer). Os tipos 16 e 18 causam as lesões mais associadas ao câncer do colo do útero e respondem por cerca de 70% dos casos.
Coordenadas pela professora Márcia Consolaro, da Universidade Estadual de Maringá, as pesquisas do grupo começaram com um projeto local, realizado entre 2014 e 2016.
Mulheres que não haviam feito o rastreamento nos quatro anos anteriores foram divididas em três grupos: um teve a coleta do papanicolau, outro fez a autocoleta e o terceiro pôde escolher entre os dois métodos.
A autocoleta teve maior adesão, indicando seu potencial para ampliar a cobertura. A experiência serviu de base para ampliar as análises a outras regiões do país.
Nesse estudo, Consolaro também buscou entender os motivos pelos quais as mulheres não faziam o preventivo.
“O principal motivo apontado foi o medo de receber um diagnóstico de câncer. Em seguida, apareceram a vergonha do exame e o receio de serem atendidas por um homem. A oposição do marido e questões religiosas também foram citadas”, diz.
Integrante do grupo desde 2016, a enfermeira Sandra Palloso encontrou situações semelhantes ao longo de mais de 30 anos dedicados à prevenção do câncer do colo do útero.
Nesse período, fez visitas de busca ativa com agentes comunitários de saúde em treinamento. Em uma delas, encontrou uma mulher que usava tornozeleira eletrônica e estava havia seis anos sem fazer o preventivo por ter vergonha do dispositivo de monitoramento.
Programa pioneiro
A autocoleta, porém, não é a única experiência que busca ampliar o rastreio. Em Indaiatuba (SP), o DNA-HPV passou a ser usado em um programa municipal implantado em 2017, em parceria com a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). O programa acompanha as mulheres desde a convocação para o exame até o tratamento.
Ao todo, 20.551 mulheres foram testadas. A cobertura chegou a 77,8% da população-alvo. A iniciativa identificou 258 lesões precursoras de alto grau e 29 casos de câncer. Entre os tumores encontrados, 83% estavam no estágio 1.
Enfermeiros foram treinados para fazer a coleta e registrar cada etapa do atendimento. Segundo Adriana Salmen, coordenadora do programa municipal, esse trabalho é necessário para evitar que uma mulher faça o exame e depois desapareça do sistema sem o devido acompanhamento.
O caso de Indaiatuba se tornou uma das referências para a mudança nacional no rastreamento. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 150 mil coletas de DNA-HPV já foram realizadas no Brasil. O objetivo é levar o novo método a toda a rede pública até dezembro de 2026 —faltam apenas Acre, Alagoas, Espírito Santo e Mato Grosso. Nessas localidades, permanece o papanicolau.
A mudança também altera o fluxo de atendimento. Um resultado positivo de DNA-HPV não significa câncer. A equipe de saúde da UBS deve verificar se há uma lesão e definir os próximos passos, que podem incluir papanicolau, colposcopia e, diante de uma área suspeita, biópsia para confirmar se existem lesões precursoras ou câncer.
“Não existe teste perfeito. Não adianta fazer rastreamento se você não tem uma linha de cuidado para investigar e tratar quem tiver resultado positivo”, diz Flávia Miranda Corrêa, consultora médica da Fundação do Câncer, instituição privada sem fins lucrativos que atua há 35 anos em projetos de saúde pública.
O ginecologista e professor da Unicamp Julio Cesar Teixeira estima que a antecipação de diagnósticos evitará cerca de 350 mortes mensais por câncer do colo do útero no Brasil.
Ele coordena desde 2017 um grupo de pesquisa em rastreamento de câncer cervical com teste de DNA-HPV no SUS e prevê que o impacto sobre a mortalidade poderia começar a aparecer de 2 a 3 anos após a implantação do novo método.
Teixeira defende que o intervalo de cinco anos após um resultado negativo pode ajudar o sistema a alcançar mulheres que hoje ficam fora do rastreamento. “Em vez de concentrar recursos em exames repetidos de mulheres que já tiveram resultado negativo, a estratégia permite buscar quem nunca fez o teste ou está há anos sem realizá-lo.”
Esta reportagem foi produzida durante o 11º Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha, que teve apoio do Einstein Hospital Israelita e do Laboratório Roche.
Autor: Folha








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