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Esporte ‘muda vidas’, diz fisiculturista cego e diabético – 06/08/2026 – Músculo

Passar por treinos exaustivos e dietas restritas, bem como treinar poses e executá-las na frente de uma multidão são parte da rotina de um fisiculturista profissional. Para Renan Henrique Evangelista de Azevedo, no entanto, tudo o que envolve o esporte serve para que ele continue “inspirando pessoas e trazendo novos atletas”.

Referência na categoria especial, o fisiculturista convive com três doenças autoimunes: diabetes mellitus tipo 1, atrofia do nervo óptico e bexiga neurogênica. Em entrevista à coluna, ele fala sobre representatividade e inclusão: “O esporte muda vidas. Mudou a minha e pode mudar a de muitas outras pessoas também. Se, de alguma forma, eu conseguir contribuir para que isso aconteça, já fico muito feliz (…) quando eu subo para competir, costumo dizer que estou representando muito mais gente do que apenas a mim mesmo. Estou representando todas as pessoas com deficiência e mostrando que elas também são capazes”.

“Saber que posso ser uma luz na vida de outras pessoas é algo que me deixa extremamente feliz”, ressalta o louveirense de 26 anos.

Início

Evangelista tem diabetes desde os 7 anos, perdeu totalmente a visão aos 17 e começou a treinar com 15. Com 21 anos, competiu no fisiculturismo pela primeira vez.

“Mesmo depois de perder a visão, continuei treinando. Sempre fui me adaptando e surgiu a curiosidade de passar por uma preparação de fisiculturismo para ver até onde eu conseguiria chegar. (…) Pensei que, se eu conseguisse fazer isso, talvez pudesse abrir caminho para outras pessoas se inspirarem e entrarem no esporte também. Foi muito mais um desafio pessoal”, conta.

Ele diz que é apaixonado “pelo processo” e pela “mudança de mentalidade” que o esporte proporciona: “Treinar, fazer dieta e sentir as mudanças no corpo. O desafio diário, a superação. Você está cansado, com fome e, mesmo assim, faz a dieta, cumpre o treino e continua firme”.

Particularidades da preparação

Além das particularidades inerentes à deficiência visual e à diabetes, que incluem dificuldades pontuais na sala de musculação e um controle rigoroso tanto da ingestão de carboidratos quanto da glicemia no sangue, o atleta teve que alterar diversos fatores em sua preparação após descobrir o problema que afeta seus rins.

“A bexiga neurogênica provoca refluxo urinário, ou seja, parte da urina volta para os rins, e isso acaba prejudicando a função renal (…) A principal mudança (que tive que fazer ao descobrir a disfunção) foi reduzir a quantidade de proteína da minha dieta. Antes, eu comia cerca de 120 gramas de frango ou quatro ovos inteiros por porção e, no total, fazia cinco refeições diárias. Tive que passar a comer quatro vezes, com dois ovos ou 40 gramas de frango por refeição. No fim do dia, minha ingestão de proteína fica próxima a 50 gramas”, explica.

Durante a conversa, o fisiculturista paulista também revela o que faz para controlar a fome durante a preparação: “Quando o carboidrato vai diminuindo e a fome aumenta, normalmente se eleva um pouco a proteína para melhorar a saciedade e facilitar a adesão à dieta. No meu caso, isso não era possível. Então pensei: ‘Se eu não posso aumentar a proteína, preciso aumentar o volume da comida’. Passei a consumir muitos vegetais, porque eles têm bastante água e dão uma sensação maior de saciedade. Então diversas das minhas refeições consistiram em apenas 40 gramas de frango e aproximadamente 300 gramas de chuchu”.

Questionado sobre não poder ver as mudanças pelas quais seu corpo passa durante a preparação, Evangelista alega que não as enxerga, mas as sente. “Quando sobe na balança e percebe que o peso mudou, você entende que o processo está funcionando. Além disso, eu uso muito o tato. Passo a mão no abdômen e percebo as veias aparecendo, a pele ficando mais fina e mais próxima da musculatura”, afirma

“Vou sentindo as divisões musculares surgindo. Tudo isso foi fazendo com que eu me apaixonasse cada vez mais pelo esporte. Mas, acima de tudo, eu me apaixonei pelo processo. Gostar de treinar. Gostar da dieta. Gostar de se superar todos os dias (…) Quando entro em preparação, as roupas começam a ficar largas. A calça folga. A camiseta fica mais solta. Essa já é uma percepção muito clara. Também sinto o rosto afinando”, continua.

Subdivisões da categoria especial

A categoria especial não especifica a deficiência que cada competidor deve ter para poder participar do campeonato. A única divisão na IFBB Pro League é dos fisiculturistas que utilizam cadeiras de rodas, que competem na Wheelchair.

Perguntado sobre possíveis subdivisões dentro dessa categoria, o atleta aponta que é preciso um maior número de participantes. “Hoje, nós temos atletas com deficiências muito diferentes competindo juntos. Tem atleta cego. Tem cadeirante. Tem atleta amputado. Tem pessoas com limitações completamente distintas disputando a mesma categoria. Isso acaba tornando a avaliação muito difícil (…) Eu não saberia dizer qual seria a solução ideal. É um assunto complexo. Talvez, no futuro, com um número maior de atletas, seja possível dividir as categorias de alguma forma. Mas, hoje, acredito que o mais importante é existir esse espaço para que todos possam competir. O fato de já termos uma categoria especial é algo muito positivo. Antes, nem isso existia. Então prefiro enxergar como um primeiro passo. Com o crescimento da categoria, acredito que as adaptações vão acontecendo naturalmente”, opina.

“Tem amputado. Tem pessoas com diferentes limitações físicas. E, no fim, todos acabam sendo julgados na mesma categoria. Já ouvi muita gente dizendo que isso não é o ideal e eu concordo. O nosso sonho, pensando a médio e longo prazo, é que aconteça o mesmo que existe nas Paralimpíadas. Ter uma categoria para atletas com deficiência visual assim como há uma divisão específica para quem usa cadeira de rodas. Outra para amputados. Outra para atletas com deficiência intelectual. Ou seja, categorias específicas para cada realidade. Esse é o nosso objetivo. Mas, para isso, primeiro precisamos colocar as pessoas no palco. Precisamos mostrar que elas existem”, conclui.

Por fim, ele chama seus adversários de “irmãos de superação” e garante: “Lá atrás, quando perdi a visão, muita gente não entendia por que eu continuava tão motivado. Nem a minha família conseguia compreender de onde eu tirava tanta força. Hoje eu entendo. Se eu tivesse desistido naquele momento, talvez alguma pessoa que hoje se inspira em mim ainda estivesse vivendo uma depressão, sem perspectiva de vida. Talvez ela nunca tivesse encontrado alguém para mostrar que era possível. Por isso acredito que as nossas decisões podem transformar não apenas a nossa vida, mas também a vida de muitas outras pessoas”.


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Autor: Folha

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