Não há nada de errado em querer ultrapassar limites pessoais ou buscar uma evolução constante. Conquistar algo que desejamos reforça a autoestima e aumenta o nosso entusiasmo pela vida. No entanto, a necessidade de ser o melhor em tudo, a todo momento, pode trazer o oposto: frustração, vazio, medo de começar algo novo e até transtornos como burnout, ansiedade e depressão. Afinal de contas, ninguém consegue estar sempre no topo do pódio.
Professor de psicologia e ciências do comportamento da London School of Economics, Thomas Curran, estuda o perfeccionismo entre estudantes universitários. Em sua palestra no TED, ele afirma que os jovens de hoje estão ainda mais preocupados em atingir a perfeição do que os dos anos 1980. Por quê? E como sair dessa armadilha?
De fora para dentro
Vivemos em uma sociedade que nos ensina, nos estimula e, muitas vezes, nos obriga a competir com outras pessoas. Logo na infância, é possível perceber que quem tira as melhores notas, ganha reconhecimento. Mais tarde, é preciso ter um ótimo desempenho no vestibular para cursar uma universidade “boa”. Na vida adulta, a saga se intensifica: se destacar para conseguir entrar em um mercado de trabalho saturado, mostrar excelência para crescer dentro da empresa, etc.
Principalmente por conta da escassez de oportunidades, quem vem da periferia costuma ter que se esforçar ainda mais para conquistar o que deseja. Muitas mulheres, pessoas pretas, LGBTQIAP+, com alguma deficiência ou de outros grupos sociais considerados vulneráveis também sentem que precisam atingir um patamar próximo à perfeição para provar seu potencial —tanto para si mesmas, quanto para os outros.
Sem que percebamos, essa mentalidade competitiva também pode se manifestar em outras áreas da vida nas quais, em teoria, a competitividade não deveria estar presente, a exemplo dos hobbies e dos relacionamentos. Quem nunca teve aquele amigo ou familiar que adora dizer que está um degrau acima de você? Ou já se pegou fazendo isso?
A visão do Arcadismo
Em “Viver É Melhor Sem Ter Que Ser O Melhor”, da Editora Sextante, Daniel Barros, professor colaborador da USP e médico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, lança mão dos princípios do Arcadismo para explicar que é possível ser feliz deixando de lado a eterna busca pela excelência, desacelerando e optando pela moderação.
O Arcadismo foi a expressão literária do Neoclassicismo, movimento artístico e cultural que se propunha resgatar os ideais greco-romanos —comedimento, simplicidade, moderação e reflexão—, como reação aos excessos do Barroco. Entre seus preceitos, estão as ideias de que o que não nos acrescenta nada acaba nos roubando tempo e energia, e que o excesso transforma até o que seria útil em inútil. Também afirma que precisamos de moderação para distinguir o que realmente importa e absorver as experiências de forma adequada.
Tirania da vitória
A busca pela excelência, tão presente em nosso imaginário, fez com que, hoje, a mediocridade seja considerada um defeito. No entanto, em muitos momentos, abrir mão da perfeição e aceitar estar na média pode fazer com que a gente experimente a vida de forma mais leve.
Por exemplo: aqueles que lidam melhor com a ideia de serem medianos costumam ter mais facilidade para testar coisas novas e seguir praticando, diferente de alguém que espera ser bom logo no início e desiste ao se frustrar. “Não dá para sustentar mais a conversa de que só tem valor quem está fora da média, se estamos todos juntos aqui nesse bolo, mais ou menos no meio”, diz Daniel Barros.
O copo meio cheio
Ao ganhar uma competição ou atingir o cargo mais alto de uma empresa, é comum pensar apenas na parte positiva de ser o melhor. No entanto, Daniel nos lembra que, quando focamos apenas nas conquistas e ignoramos o que tivemos que abrir mão por elas, empobrecemos nosso olhar. Primeiro, porque esquecemos de valorizar tudo o que preservamos e, segundo, porque minimizamos o preço pago pelos “vencedores” —vide milionários infelizes, campeões deprimidos e assim por diante. “O sucesso deveria ser medido não apenas pelo que conquistamos, mas também pelas coisas de que não abrimos mão para alcançar tais conquistas.”
Sair dessa dinâmica de comparação e competição passa por se propor um questionamento. Vale a pena virar a noite para atingir a “perfeição” nessa tarefa do trabalho? Será que não faz mais sentido parar para fazer exercícios físicos, preparar um jantar gostoso e aproveitar um momento de relaxamento? Para que alguma mudança aconteça, também é preciso desacelerar. Isso porque, em meio a uma rotina extremamente exaustiva, é difícil sobrar tempo para avaliar o que realmente importa.
Autor: Folha




















