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Força que vem do Oriente – Broadcast


Apetite da China por tecnologia pode garantir um respiro para a economia brasileira sem muito esforço, na avaliação da equipe de economistas do PicPay

Por Francisco Carlos de Assis e Gabriela Jucá

A virada de chave no apetite econômico da Ásia vem sendo um verdadeiro respiro para as projeções brasileiras. Em vez de depender do tradicional setor imobiliário chinês, a leitura do mercado agora se volta para o avanço tecnológico do país asiático, que segue acelerado e impulsionando a demanda por produtos brasileiros. Somado a isso, o Brasil encontrou caminhos alternativos para redistribuir suas exportações em novos mercados pela região, mitigando os impactos de tarifas impostas principalmente pelos Estados Unidos. Na prática, esse movimento cria uma espécie de piso de crescimento confortável para a nossa economia em 2027.

Em entrevista à Broadcast Weekend, a economista-chefe da instituição, Ariane Benedito, disse que, sem fazer muito esforço, o Brasil deverá crescer, no mínimo, 1% no ano que vem, porque a economia chinesa deverá avançar neste ano algo entre 4,5% e 5%. A projeção dela e de seu colega Matheus Pizzani sobe para 1,5% quando o cálculo incorpora os novos mercados abertos na Ásia para as exportações brasileiras.

Eles também acreditam que a manutenção da oferta de crédito ao consumidor endividado impede uma piora ainda maior dos indicadores de inadimplência no País. Segundo Ariane, o comportamento típico do devedor brasileiro hoje é pagar um cartão de crédito com outro e tomar crédito aqui para pagar a dívida dali, num arranjo que preserva a adimplência no curto prazo, mas mantém elevadas as métricas de endividamento e de comprometimento de renda. Para a economista, a dinâmica é estrutural e não se resolve rapidamente. Além disso, não há evidência clara de que a inadimplência já atingiu o pico.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Broadcast: No curto prazo, qual é a previsão para o crescimento da economia brasileira?

Ariane Benedito: Olhando para a pauta exportadora e para a capacidade produtiva do Brasil, tenho algo como 1,5% contratado. Quando fazemos exercícios mais conservadores, considerando incertezas de safra, limitações, cotas e o efeito de uma política monetária altamente restritiva, o PIB pode ficar mais fraco, mas ainda assim acima de 1%, só considerando esse bloco externo. Explico melhor. A leitura sobre China mudou. China não é mais imobiliário, China é tecnologia. Ela está realocando produção, mão de obra e estrutura do país para isso. Então, não funciona mais o jeito antigo de avaliar China, que era pensando se o imobiliário vier bom, a China está boa, se não vier, China está ruim. Temos que olhar PMI de serviços e PMI industrial, porque a tecnologia vai pesar muito.

Broadcast: E agora há o plano anunciado de a China ser autossustentável em alimentação. O Brasil vai sofrer com isso?

Benedito: Vai, mas lá na frente, não agora. A China tem crescido, em média, 4,5% nos últimos anos. Acreditamos que continuará crescendo nessa faixa. Se eu tenho 4,5% de China contratado, com o mesmo nível de exportação, eu tenho PIB do Brasil acima de 1%. Para ter PIB abaixo de 1%, eu preciso desacelerar o doméstico. Ou seja: você não precisa fazer nada. Nem precisa ter uma safra excepcional aqui. Já tem 1% de crescimento, desde que não haja quebra grande.

Além disso, nem falamos mais China isoladamente na balança. Já agregamos Ásia. Tivemos uma redistribuição de destinos na Ásia este ano acima da série histórica. Países que nós nem contávamos entraram na jogada: Argentina comprando, Cingapura entrando, Índia, Vietnã, etc.

Broadcast: Podemos dizer então que, para cada 4,5% a 5% de crescimento do PIB na China, temos no Brasil 1% ?

Benedito: A Ásia, como um todo, pode fazer o Brasil crescer mais do que 1%. Se a China cresce 4,5% a 5%, nós crescemos 1% aqui. A Ásia, como um todo, poderia adicionar mais 0,5 ponto porcentual a isso. A pauta de exportação está indo muito bem. Além do efeito direto, você melhora outras variáveis: taxa de financiamento, confiança no país, câmbio. E câmbio é inflação na veia. Se você tem exportação e entra dólar, isso ajuda.

Broadcast: Neste ano temos eleições. Os governos tendem a colocar dinheiro na economia. Isso não ajuda a estimular o crescimento?

Benedito: Ajuda a atividade. Por isso, também, não apostamos em inflação baixa, inflação na meta e, consequentemente, o Banco Central não vai conseguir cortar tanto a Selic. Por isso, inclusive, revisamos a projeção de juros para 2027. Era 10,5%, subimos para 11,5%. E colocamos 10,5% para 2028. No nosso cenário, a política fiscal é estimulativa, tem carrego para a frente e, com isso, não dá para derrubar muito a inflação. Boa parte da inflação vem de atividade econômica e o Banco Central não vai conseguir reduzir essa taxa de juros altamente restritiva por, pelo menos, mais uns dois anos.

O orçamento está cada vez mais travado. Cada movimento e cada aprovação recente, de pauta-bomba e tudo o mais, reduziu a capacidade de investimento. As despesas discricionárias ficaram muito pequenas. Estão travando o orçamento de um jeito muito forte. Por isso, pode haver alguma mudança em 2027. Quando você vê o ministro da Fazenda [Dario Durigan] dizendo que vai ter que reduzir gasto obrigatório, é porque a situação está ficando clara: se não fizer, não tem espaço. O restante está, em grande medida, na mão do Congresso.

Broadcast: Vocês estão vendo aumento de inadimplência?

Benedito: Ela está seguindo o ciclo que projetamos. O exercício que eu faço mostra um desenho bem arredondado: ela sobe, depois para e fica estável por um tempo. Para cair lá na frente, precisamos ver as condições financeiras e econômicas se ajustando. E essa queda não é aquela que cai, cai, cai. É uma queda que, na nossa leitura, só aparece mais adiante, depois de 2028. Devemos conviver com inadimplência em níveis historicamente altos por muito tempo.

Não houve melhora de cenário. São números significativamente altos, mas isso é uma característica estrutural do Brasil. Precisamos de anos para mudar esse quadro. E não é parar de dar crédito agora. Muito pelo contrário. Hoje, uma característica da população brasileira é pagar um cartão de crédito com outro, tomar crédito aqui para pagar a dívida dali. Se tiramos o crédito, o problema explode. Só não se vê uma explosão porque o crédito ainda permite que a pessoa pegue em um lugar, pague em outro e assim sucessivamente. Por isso, você tem endividamento e comprometimento de renda, mas isso não se traduz automaticamente em inadimplência. E há críticas sobre como esses indicadores são calculados.

Broadcast: Em que sentido?

Benedito: O endividamento é quanto a pessoa tomou; comprometimento de renda é um cálculo da dívida em relação à renda média. Mas isso reflete a realidade de todo mundo? Qual renda você usa? E quando há migração entre formalidade e informalidade, essa renda muda. Quando eu faço a correlação, endividamento aparece ter relação mais direta com a inadimplência. Já o comprometimento de renda, no mesmo exercício, não apresenta o mesmo efeito. Qual variável explica mais a inadimplência? Mercado de trabalho. Se você roda uma matriz de correlação, ou uma regressão simples, para ficar no básico, os dados da PNAD têm a maior correlação com inadimplência. Hoje eu dou o seguinte recado para o banco: “não olhem apenas para a inadimplência. O nível em si não é o principal alerta. Olhem para o mercado de trabalho.” Se começarmos a perder o nível de emprego, aí sim teremos um problema sério.

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