Os povos antigos não estavam para brincadeira, “nem bebiam água direito, bebiam vinho mesmo”, me disse o poeta Fabrício Corsaletti, um leitor antigo de “A Odisseia“. Corsaletti costuma dar aulas sobre os poemas de Homero e notou que, entre as muitas licenças poéticas da adaptação do clássico grego para o cinema pelo britânico Christopher Nolan, estava certo enxugamento do vinho.
“O vinho é presente em toda ‘A Odisseia‘, nos 24 cantos”, disse. Os gregos (ou aqueus) sorviam a bebida desde a manhã. A interpretação de Corsaletti é que, quando estavam em terra, tinham que aproveitar, pois, ao ir ao mar, não sabiam quanto tempo a viagem duraria nem quais perigos encontrariam.
O vinho também faz parte do ritual de chegada dos homens após uma temporada no mar. Para quem os recebe, é um jeito de mostrar hospitalidade, algo caro aos gregos.
A crítica e professora de literatura da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) Lígia Gonçalves Diniz lembra que, nos poemas, até o mar é “cor de vinho”, um refrão que se repete do começo ao fim dos cantos. A bebida é um elemento tão importante na história que explica, inclusive, a demora de décadas para Odisseu voltar para casa.
O protagonista oferece o líquido puro (e não diluído em água, como era o costume então) ao ciclope Polifemo, que se encanta com a bebida forte, pura e doce, e se embriaga. É assim que consegue vencê-lo ao lhe golpear o único olho.
Mas é daí também que vem o castigo de Poseidon, pai de Polifemo, que faz com que Odisseu demore anos a percorrer uma distância de 2.000 km entre Troia, onde lutou, e Ítaca, seu lar (isso naquela época, hoje seria mais perto ainda).
No filme, o vinho aparece mesmo é na mão dos pretendentes, homens que flertam com sua mulher, Penélope, e seus domínios em Ítaca. Ou seja, apenas os maiores malas aproveitam um vinhozinho.
Bolada com o sumiço dos vinhos de “A Odisseia” de Nolan, resolvi reunir alguns dos rótulos mais interessantes que encontrei no mercado brasileiro.
Contei com a ajuda de um painel de mulheres (também meio em baixa no filme) que inclui a comunicadora gastronômica com formação em vinhos Lena Mattar, a produtora de café Lia Assumpção, do Café Azul Jacutinga, e Diniz. À medida que provávamos o vinho, falávamos também dos poemas.
A melhor notícia é que os rótulos gregos que encontramos no país são muito mais deliciosos do que era esperado —já que não são tão festejados como outros europeus.
O primeiro que provamos foi o Gaía Notios White 2023 (R$ 262 na Mistral), feito no Peloponeso com as uvas autóctones moschofilero (conhecida por ser picante e refrescante, e por ter aromas florais), roditis (a mais plantada na Grécia, com aromas cítricos) e assyrtiko (a embaixadora do país no exterior, mineral e elegante). É muito fresco, equilibrado e tem um final salino persistente que lembra água de azeitona. Já me imaginei à beira-mar em alguma ilha, com uma salada cheia de feta e peixinhos fritos. Tem só 12% de álcool, ótimo para os dias mais quentes.
O Ambelos Phos 2024 (R$ 109 na GRK), um corte de moschofilero e roditis também do Peloponeso, é uma versão com menos frescor e mais corpo que o primeiro. É divertido e diferente e tem a vantagem de ser menos da metade do preço do anterior. Traz um pouco mais de álcool, mas harmoniza ainda com a mesma ideia de ilha grega.
Já o Dionysos Malagouzia 2024 (R$ 155 no Empório Grego, que tem um verdadeiro arsenal de produtos do país), também da região do Peloponeso, é o vinho mais diferentão do painel. No nariz, é muito misterioso. Levamos mais de 24h para que a ficha caísse: a nota dominante lembrava um doce de fruta em calda que só no dia seguinte percebemos que era cupuaçu. Na boca tem um bom corpo, untuosidade, além de notas de ervas. Um vinho para quem quer fugir do óbvio, meio doidão, complexo e divertido.
Para os amantes de vinhos minerais, a dica é o Atlantis White 2022 (R$ 341 na Premium). Feito em Santorini, com a assyrtiko dominante (90%), athiri (5%) e aidani (5%), tem toques de pedra, giz, algo para o lado dos rieslings mais secos. Com acidez nas alturas, faz salivar forte e lembra os melhores Alvarinhos e, por que não, até um bom Chablis.
Uma boa alternativa a brancos da Borgonha de outras regiões é o Château Julia Assyrtiko 2024 (R$ 199 na GRK), feito pelo Domaine Costa Lazaridi na região de Drama. É amanteigado, muito refinado e nada dramático. Bem equilibrado, traz fruta e flor branca à boca, boa acidez e um corpo médio —efeito da passagem por madeira. Impressiona e satisfaz.
Embora o painel fosse de vinhos brancos, provamos ainda um tinto digno de nota. O Domaine Costa Lazaridi Amethystos Single Vineyard Cabernet Franc (R$ 599 na GRK), também de Drama, é o que chamamos de vinho superlativo: uma explosão de fruta e opulência, com 15% de álcool e passagem por 18 meses em carvalho. Pede uma comida mais intensa, mas também grega, como cordeiro com alecrim. Vale para um evento importante, como, quem sabe, o retorno ao lar após muitos anos.
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Autor: Folha








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