As redes sociais fazem mal às crianças. Esse foi o veredicto categórico em uma recente série de processos judiciais envolvendo empresas de tecnologia nos estados da Califórnia, do Kentucky e do Novo México, nos EUA.
Em um momento em que o Vale do Silício nunca foi tão dominante ou ambicioso, um de seus produtos emblemáticos reúne todo o poder de atração —e os processos judiciais— assim como ocorreu com o cigarros nos anos 1990.
Na terça-feira, começou em Oakland, na Califórnia, o mais recente julgamento envolvendo as redes sociais. A Califórnia e outros estados moveram uma ação contra a Meta, proprietária do Facebook e do Instagram, afirmando que a empresa “se valeu de tecnologias poderosas e sem precedentes para atrair, envolver e, por fim, aprisionar jovens e adolescentes”.
A Meta nega as acusações. Mas sabe quem mais tem ressalvas quanto às redes sociais, ao tempo de tela e à natureza viciante dos dispositivos? Um bom número de executivos de tecnologia do Vale do Silício —pelo menos quando se trata de suas próprias famílias.
“De modo geral, não quero que meus filhos fiquem sentados diante de uma televisão ou de um computador por muito tempo”, afirmou Mark Zuckerberg, CEO da Meta, no passado. Em sua avaliação, interagir com pessoas é algo positivo, mas consumir conteúdo passivamente —”apenas passando de um vídeo para outro”— não estava associado “aos mesmos benefícios positivos”.
Quando a segunda filha de Zuckerberg nasceu, em 2017, ele e a mulher, Priscilla Chan, escreveram em uma carta aberta dirigida a ela que “é importante reservar tempo para sair e brincar”. Cheirar flores ganhou destaque. Recolher folhas também. Do mundo digital, nada foi mencionado.
Executivos de tecnologia como Zuckerberg não costumam falar sobre suas próprias famílias. Quando falam, porém, geralmente deixam clara sua desconfiança em relação à tecnologia. Para os filhos deles, a tecnologia não desempenha o mesmo papel que exerce para o restante da sociedade: professora, babá, distração para todos os fins e, cada vez mais, companhia constante. Na verdade, ela parece quase não estar presente.
Os comentários dos executivos costumam ser improvisados e retratam um momento específico. Zuckerberg, por exemplo, falou sobre os filhos há sete anos e disse pouco desde então. Um representante da Meta não quis fazer comentários adicionais.
Peter Thiel, que foi o primeiro investidor externo do Facebook e integrante de longa data do conselho de administração, disse que limitava o tempo de tela dos filhos —então com 3 anos e meio e 5 anos— a “uma hora e meia por semana”. Quando mencionou isso no Aspen Ideas Festival, em 2024, a plateia ficou boquiaberta. Muitas crianças dessa idade passam esse tempo diante de telas em um único dia, ou até mesmo em uma manhã.
Mas Thiel afirmou ser um pai típico do Vale do Silício.
“Provavelmente há muitas pessoas no setor de tecnologia que fazem algo bastante parecido em suas próprias famílias”, disse ele, acrescentando de forma incisiva: “Isso pode levar vocês a fazer algumas perguntas”. Thiel não respondeu às perguntas enviadas por email.
Mesmo enquanto o novo processo contra a Meta se encaminhava para julgamento, pesquisadores britânicos fizeram novos alertas sobre a tecnologia e as crianças pequenas.
“O benefício da exposição de bebês a telas digitais é insignificante, enquanto os possíveis riscos do uso para o desenvolvimento físico, cognitivo, social e emocional são consideráveis”, afirmou a equipe interdisciplinar Action on Digital Device Immersive Conditions, um grupo de acadêmicos de diversas universidades, em relatório publicado em maio.
As pessoas do setor de tecnologia pareciam saber disso desde o início, segundo Mara Fath, artista e dona de livraria que se lembra da chegada em massa de programadores ao bairro de Upper Haight, em San Francisco, há 20 anos.
Todos os nossos vizinhos trabalhavam para essas empresas: Facebook, Google e Apple. Nenhum deles deixava os filhos interagirem com qualquer tipo de tela. Todos sabiam como elas eram viciantes e como proteger os próprios filhos
Advertências e ressalvas de líderes do setor de tecnologia foram se acumulando ao longo dos anos. “Não demos celulares aos nossos filhos até eles completarem 14 anos”, comentou Bill Gates, cofundador da Microsoft. Quando o filho de Sundar Pichai tinha 11 anos, o chefe do Google observou que ele “ainda não tinha telefone”, acrescentando que “nossa televisão não fica facilmente acessível”. Tim Cook, da Apple, afirmou que não permitiria que o sobrinho usasse uma rede social.
A essa altura, isso já virou um clichê cultural. Na série “The Audacity”, da AMC, uma garota em uma festa no Vale do Silício fica surpresa ao ver que um garoto tem um smartphone. “Traficantes de armas não dão minas terrestres aos filhos”, comentava ela.
Os celulares são proibidos na Waldorf School of the Peninsula, a 3,2 quilômetros da sede do Google. “Sem celulares significa sem distrações, sem a ansiedade das redes sociais e sem comparações constantes. Apenas uma infância de verdade”, justifica a escola em seu site. O preço cobrado pela Waldorf por uma infância de verdade: até US$ 47,5 mil por ano.
Vários integrantes do conselho da Waldorf trabalham em startups de inteligência artificial, mas o aprendizado de máquina é reduzido ao mínimo na escola em favor do “aprendizado humano”. O objetivo é capacitar a futura elite a pensar com clareza.
“Enquanto as máquinas otimizam tarefas e automatizam decisões, nossos formandos desenvolvem as capacidades exclusivamente humanas que definirão a liderança em 2030 e nos anos seguintes”, afirma a escola.
Evan Spiegel, CEO da Snap, atribuiu seu sucesso à frente de uma empresa de alta tecnologia ao ambiente doméstico com pouca tecnologia. Durante sua infância, nos anos 1990, Spiegel não teve permissão para assistir à televisão até estar “quase na adolescência”. Com o tempo, percebeu que isso havia sido algo positivo. “Passei muito tempo construindo coisas e lendo”, recorda.
Spiegel pretendia dar continuidade a essa tradição: apenas 90 minutos de tempo de tela por semana para seu filho de 7 anos, segundo afirmou em uma entrevista de 2018. Hoje, ele tem quatro filhos com a esposa, a atriz Miranda Kerr.
“Para o de 2 anos, o tempo de tela é praticamente zero”, disse ele em um podcast em abril. “Na verdade, queremos basicamente ler com ele, brincar, explorar o mundo lá fora e fazer esse tipo de coisa.” Os filhos de 6 e 7 anos “raramente assistem a filmes, mas, fora isso, mais uma vez, não damos celulares nem nada do tipo a eles”. O de 15 anos, porém, “está totalmente imerso na tecnologia”.
Steve Chen, cofundador do YouTube que vendeu a empresa de vídeos ao Google em 2006, disse a estudantes da Universidade Stanford no ano passado que temia que seus filhos acabassem incapazes de assistir a qualquer coisa com mais de 15 minutos de duração.
“O ambiente digital moderno treina as crianças para esperar que tudo seja resumido em um tuíte de 280 caracteres ou em um breve vídeo”, afirmou Chen em uma mensagem. Seu objetivo era garantir que os filhos “soubessem fazer as coisas do jeito lento e difícil”.
Na semana passada, Zuckerberg escreveu em um ensaio que “minha filha de 8 anos já consegue programar suas ideias e produzir vídeos”. Quando cozinham juntos, segundo ele, a IA “encomenda os ingredientes e depois oferece sugestões”.
Outros demonstram com a IA a mesma cautela que tiveram com as redes sociais. “Perguntei ao meu filho de 16 anos o que deveria dizer a vocês”, escreveu Chen, do YouTube. “Ele respondeu: ‘Por favor, diga a eles que leio livros, assisto a filmes e não gosto de IA’.”
Sam Altman, CEO da OpenAI, tem seu próprio “caso de uso interessante” para a IA e as crianças. Recentemente, ele sugeriu em post no X (antigo Twitter) conectar os calendários da família ao ChatGPT. No caminho para a escola, o ChatGPT poderia “criar um podcast que fale sobre o jogo de futebol de um dos filhos naquela tarde, o aniversário próximo de outro, algumas notícias etc.”, escreveu ele.
Usar a IA para conversar com a própria família, porém, é algo que Altman deixa para os outros adotarem. Como pai de primeira viagem, ele percebe que sua postura em relação à tecnologia está se tornando mais resistente.
“Algo que mudou enormemente foi o que sinto em relação aos feeds algorítmicos e aos iPads nas mãos de crianças pequenas”, declarou ele em participação no podcast “Mostly Human With Laurie Segall”, em abril. Quanto à IA e ao filho, afirmou: “Não sei quando permitiria que ele conversasse com uma IA, mas preferiria estar entre os últimos dentro do que seria razoável, e não entre os primeiros”.
Autor: Folha








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