
O acidente que deixou 23 mortos na BR-373, em Ipiranga, nos Campos Gerais do Paraná, foi o mais letal registrado em rodovias do estado nos últimos cinco anos. Na manhã desta quarta-feira (19), um ônibus da Secretaria Municipal de Saúde de Imbituva seguia para Curitiba com pacientes que buscavam atendimento médico quando colidiu com um caminhão-baú.
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O último acidente com número semelhante de vítimas havia ocorrido em janeiro de 2021, quando 19 pessoas morreram no tombamento de um ônibus na BR-376, em Guaratuba. Na série histórica de acidentes rodoviários no Paraná, os episódios mais letais, porém, ocorreram em 1993.
Em dezembro daquele ano, um acidente na BR-116, no bairro Tatuquara, em Curitiba, deixou 45 mortos. Em outubro, outro acidente envolvendo um ônibus resultou na morte de 43 pessoas na BR-277, na Serra de São Luiz do Purunã.
Apesar do histórico, o Paraná permanece entre os estados com maior letalidade no trânsito. Segundo o Atlas da Violência 2026, em 2025, a taxa de mortalidade no trânsito no estado foi de 23,9 óbitos por 100 mil habitantes, acima da média nacional, de 17,5 mortes por 100 mil habitantes.
Entre 2014 e 2024, a taxa de mortalidade no Paraná caiu 13,7%. No entanto, acompanhando a tendência nacional de aumento após a pandemia, o índice cresceu 13,3% a partir de 2019. Em 2025, somente nas rodovias federais, ocorreram 593 mortes, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF).
No primeiro semestre de 2026, 285 pessoas morreram em acidentes nas rodovias federais que cortam o Paraná. Ao todo, a PRF registrou 3.918 sinistros no período, o que representa uma média de uma morte a cada 13,7 acidentes — ou aproximadamente um óbito a cada 15 horas.
Quais são as rodovias mais letais do Paraná
Segundo o balanço da PRF, a BR-277 liderou o número de acidentes e mortes no Paraná em 2025, com 2.155 acidentes e 152 óbitos. No primeiro semestre de 2026, a rodovia manteve a liderança, com 1.145 acidentes e 79 mortes.
Na comparação com o mesmo período de 2025, o número de mortes caiu nas demais rodovias, com exceção da BR-116, que registrou alta de 110,53% nas ocorrências fatais, somando 40 mortes no primeiro semestre deste ano.
A BR-373, onde ocorreu o acidente desta quarta-feira, havia fechado o primeiro semestre como a rodovia com menor número de mortes entre os principais trechos analisados pela PRF, com 17 óbitos. Com as 23 mortes registradas em Ipiranga, o número de vítimas fatais em uma única ocorrência superou o acumulado dos seis primeiros meses do ano.
Segundo o balanço, a maior parte dos acidentes no estado ocorre em trechos de pista dupla. A letalidade, porém, é maior nas rodovias de pista simples, que concentraram 57,9% das mortes no primeiro semestre (165 óbitos). Para o engenheiro civil Marco Nadal, coordenador da Câmara Técnica de Engenharia de Segurança do Trabalho do Instituto de Engenharia do Paraná (IEP), a configuração da pista contribui para a gravidade das ocorrências.
“O principal aspecto de segurança de uma rodovia de pista simples é que os fluxos em sentidos opostos não estão fisicamente segregados. Assim, uma invasão da faixa contrária, independentemente de sua causa, pode transformar um erro de condução, uma perda de controle ou uma falha operacional em uma colisão frontal de alta severidade”, afirma Nadal.
Condição das rodovias é decisiva
Nas rodovias do Paraná, acidentes envolvendo carros de passeio e motocicletas estão entre os mais frequentes, seguidos pelas ocorrências com caminhões. No primeiro semestre de 2026, os caminhões se envolveram em 1.120 ocorrências (28,6% do total). Entre os fatores associados aos acidentes, estão excesso de carga, fadiga, condições climáticas, uso de celular e negligência.
A infraestrutura também pesa nos acidentes. Segundo a 28ª Pesquisa CNT de Rodovias, 42,5% dos trechos avaliados no Paraná apresentavam condição regular, enquanto 8,3% foram classificados como ruins e 0,6%, péssimos. O levantamento identificou ainda 16 pontos críticos no estado.
A má qualidade do pavimento provocou o consumo adicional de 60,4 milhões de litros de diesel e gerou prejuízo estimado em R$ 347,22 milhões aos transportadores, além de elevar em 24% o custo operacional. Em 2024, os acidentes causaram prejuízo de R$ 1,69 bilhão, enquanto os investimentos públicos em obras de infraestrutura rodoviária somaram R$ 11,97 milhões.
Solução depende de infraestrutura
Entre janeiro de 2019 e abril de 2026, segundo dados da Secretaria de Estado da Fazenda (Sefa), o Paraná investiu R$ 7,3 bilhões em infraestrutura, com parte significativa dos recursos destinada a rodovias, duplicações e pontes para reduzir gargalos. Segundo o engenheiro civil Marco Nadal, porém, as obras não representam, por si só, uma melhora imediata nos índices de segurança.
“Obras estruturantes, especialmente duplicações, exigem planejamento, projetos, licenciamento, execução e entrada em operação. A recomendação, de maneira geral, é que a segurança seja tratada também pela priorização de segmentos segundo o risco, e não somente pela capacidade de tráfego”, explica.
Em pistas simples, por exemplo, é necessário reforçar a separação entre os fluxos opostos e priorizar os trechos considerados de maior risco. “A duplicação permanece como uma solução estrutural importante, mas não deve ser utilizada como justificativa para aguardar todas as demais medidas”, completa.
Para o especialista, esse conjunto de ações ajuda a criar um sistema viário mais seguro, capaz de reduzir a gravidade de um eventual erro humano. “O acidente de hoje deve ser investigado com profundidade. Ao mesmo tempo, a tragédia reforça a necessidade de uma política permanente de gestão de riscos rodoviários, integrando infraestrutura, veículos, condutores, fiscalização, gestão do transporte e resposta às emergências.”
Autor: Gazeta do Povo








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