Pergunta: Meu filho, de algum modo —provavelmente por passar tempo demais nos sites errados—, tornou-se racista. Somos brancos, e esses não são, de forma alguma, os valores que transmiti aos meus filhos.
Minha filha é casada com um homem negro, e os dois tiveram um filho recentemente. Depois que meu filho fez comentários racistas desprezíveis sobre pessoas negras, minha filha rompeu todos os laços com ele. Embora não tenha me dado um ultimato, ela disse que, se houver uma reunião de família, devo avisá-la caso ele seja convidado, para que ela e sua família façam outros planos.
As opiniões odiosas do meu filho dividiram nossa família em duas. Já não podemos comemorar o Natal nem participar de reuniões familiares todos juntos, e isso está afetando a todos —dos avós aos primos. Minha filha considera que, se alguém discorda das opiniões do irmão, mas continua “andando com ele”, está sendo conivente com seu comportamento.
Não concordo com as opiniões do meu filho, mas não tive coragem de excluí-lo por completo da minha vida. Como devo lidar com essa situação dilacerante?
Resposta da terapeuta: Você descreve uma posição angustiante para qualquer mãe ou pai: como manter um relacionamento com um de seus filhos e, ao mesmo tempo, proteger outro do mal que ele causou? É possível continuar amando um filho sem endossar comportamentos que lhe causam horror?
O racismo de seu filho causou danos reais à sua filha, ao marido dela e à criança dos dois. Mas você não precisa escolher entre amar seu filho e proteger sua filha. Precisa, porém, garantir que não esteja magoando sua filha ao deixar seu filho escapar das consequências apenas para preservar o vínculo com ele.
Essa é uma distinção importante e um bom motivo para conversar com sua filha sobre o que significa, para você, manter uma relação com o irmão dela e, ao mesmo tempo, fazer todo o possível para apoiá-la e proteger sua família.
Você pode começar certificando-se de que ela saiba que você entende por que ela não quer comparecer a encontros em que o irmão esteja presente, que jamais a pressionará a reconsiderar e que não vê a decisão dela como a causa da divisão familiar. Também pode tranquilizá-la, dizendo que ela não terá de deixar de participar das ocasiões familiares organizadas por você, como sugeriu. Em vez disso, você simplesmente não convidará o irmão para esses encontros até que ele tenha reparado diretamente os danos causados a ela e à família dela.
É verdade que impor esse limite pode ser difícil para você, sobretudo porque talvez seu filho nunca repare o dano, mas isso cumpre dois objetivos. Primeiro, estabelece uma posição clara de proteção: quem sofreu o dano não deve ser privado da alegria dos encontros familiares; quem causou o dano não deve estar presente nessas ocasiões. Segundo, abre espaço para que você continue vendo seu filho separadamente —mas não de maneira neutra.
Vamos considerar como lidar com a opinião de sua filha de que manter contato com seu filho significa “ser conivente com o comportamento dele”. Sua filha tem dificuldade para compreender que o vínculo parental pode coexistir com a repulsa moral, ou seja, que o amor de uma mãe ou de um pai geralmente não desaparece quando um filho se torna cruel, destrutivo ou irreconhecível.
Para ajudá-la a entender essa aparente contradição, você poderia dizer algo como: “Sinto-me profundamente perturbada com aquilo em que seu irmão acredita e estou de luto pela pessoa que pensei ter criado. Ao mesmo tempo, ainda o amo, preocupo-me com ele e quero que faça parte da minha vida. Sei que isso parece confuso para você. Mas quero que saiba que não estou fazendo vista grossa ao que ele fez, que não ignorarei isso quando estiver com ele e que ainda espero que ele venha a reconhecer o quanto suas crenças são desumanizadoras”.
Há uma diferença entre manter contato com seu filho enquanto confronta o racismo dele e transmitir a ideia de que esse racismo não tem consequências. Por exemplo, se ele destilar uma linguagem ou ideologia odiosa que rebaixe as pessoas que você ama, e você não disser nada para manter a paz ou evitar um confronto, então sua filha terá razão: você estará sendo conivente com o comportamento dele.
Em vez disso, você pode abordar o racismo dele a partir do desejo de compreender a mudança que percebeu. Você diz que seu filho “se tornou” racista e suspeita que ele esteja frequentando comunidades racistas na internet. Em vez de lhe dar um sermão ou dizer o quanto ele está errado —porque isso apenas levará a uma discussão que o deixará ainda mais entrincheirado em sua posição—, você pode tentar descobrir melhor o que o levou por esse caminho. Já que essa mudança a deixa perplexa, use isso para abordá-lo com abertura, não com julgamentos.
Você poderia dizer algo como: “Ultimamente, ouvi você dizer coisas muito diferentes das crenças que eu achava que tinha, e quero entender o que mudou. Estou perguntando porque quero ouvir você, não discutir, e porque me importo profundamente com você. É claro que não compartilho dessas crenças, mas deve haver um motivo para você acreditar nelas”. Você pode perguntar como ele passou a pensar dessa forma, que experiências ou pessoas o influenciaram, o que estava acontecendo na vida dele quando começou a se interessar mais por essas ideias e o que acredita que elas explicam para ele.
Mas espere, talvez sua filha pense. Por que não confrontá-lo de maneira direta e incisiva por seu racismo? Porque, em todos os meus anos como terapeuta, nunca vi uma pessoa dizer a outra: “Suas opiniões são repugnantes!”, e receber como resposta: “Nossa, você tem toda a razão! Obrigado por me dizer. Já não penso assim”.
Mas já vi pessoas —em um número surpreendente de casos— começarem, com o tempo, a mudar quando se sentem amadas, e não atacadas. Seu filho pode estar sofrendo de maneiras que você desconhece, e seu interesse pela experiência dele pode ser algo que ele não encontra em nenhum outro lugar. Ideologias de ódio muitas vezes preenchem um vazio —isolamento, humilhação, necessidade de pertencimento ou de se sentir poderoso—, e compreender esse vazio não é o mesmo que perdoar aquilo que o preencheu.
Você tem razão ao dizer que isso é dilacerante, porque nenhuma escolha parecerá inteiramente certa. Se romper os laços com seu filho, talvez sinta que o abandonou quando ele precisava de você. Se permanecer na vida dele, sua filha poderá se sentir traída.
Você também precisará viver o luto —não apenas pelo filho que pensava ter criado, mas pela vida familiar que imaginou: feriados celebrados juntos, primos crescendo lado a lado, irmãos permanecendo próximos, todos reunidos à mesma mesa. Mas as famílias são moldadas não só pelo dano que ocorre dentro delas, como também pelo que as pessoas fazem depois. Você não pode reparar essa ruptura, mas pode reagir de uma maneira que abra espaço para a responsabilização, a proteção, o vínculo e, talvez, um dia, a mudança.
Autor: Folha








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