Ninguém vai aos Alcoólicos Anônimos a passeio. Ou está com sérios problemas com a bebida, ou quer tentar ajudar alguém que enfrenta questões relacionadas ao álcool.
A primeira vez que fui, um médico me indicou. Isso aconteceu uns sete anos antes de eu entrar no buraco. Nesse primeiro contato com o programa, eu dizia que estava ali por causa do meu pai. O que, de certa forma, não era mentira.
Os depoimentos foram trazendo uma identificação grande com as questões do meu pai e com as minhas. Mas eu ainda não tinha chegado ao fundo do poço. Tinha certeza de que o programa não era para mim. O tempo foi passando e eu fui piorando. O médico que tinha me indicado já não fazia mais consultas comigo. Mesmo assim, não fui lá bater na porta sozinha. Tive que ser internada e receber membros do programa, já em recuperação, que me convidaram a participar.
Não via mais luz no fim do túnel, então fui. No começo, o medo era grande, mas aos poucos os colegas foram me ajudando a acalmar. Hoje, sinto que nunca mais quero colocar um gole de bebida na boca. Os mais velhos no programa vão me ajudando a acreditar que tudo vai melhorar. E é verdade. Fica tudo muito mais claro.
Como disse aqui, em uma coluna recente, sofri um pouco por amor. É nessas horas que o bicho pega. Dá uma estremecida. Parece que o chão se abre. Mas aguentei firme porque consegui. Um grande amigo meu, porém, não conseguiu, e isso não tem nada a ver com o AA, mas com as artimanhas da doença.
Prezo muito a instituição dos Alcoólicos Anônimos e, por isso mesmo, me escondo aqui na coluna com um pseudônimo. Vai que eu recaio? As pessoas vão achar que o AA não é bom.
É uma caminhada. Li recentemente que o Brad Pitt, declarado alcoólatra e frequentador do AA, decidiu voltar a beber. Esse é um problema dele. Talvez ache que já controla o uso, talvez esteja cansado de lutar em festas e eventos com um copo de água ou suco na mão. Li que os companheiros de programa estão preocupados.
O que aprendi é que, quando voltamos a beber após um tempo de abstinência, voltamos para o mesmo lugar de onde saímos, e a chegada ao fundo do poço é muito mais rápida e traiçoeira. Não rogo praga ao ator, apenas sugiro uma reflexão para quem pensa em experimentar a volta ao uso da bebida.
Não generalizo, mas usei este exemplo para mostrar a confiança que deposito no programa de AA. É por isso que recorro a um pseudônimo. Eu posso recair, mas a responsabilidade é minha. Assim como as frustrações e a expectativa que coloco nas outras pessoas.
Sorte ao Brad Pitt. Espero que ele consiga manter uma vida normal. Nós, alcoólatras, torcemos muito uns pelos outros, e essa força nos mantém em pé.
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Autor: Folha




















