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Mato Grosso, Iowa – Broadcast


No calor, entre caminhonetes e português nas ruas, Des Moines parece, por alguns dias, uma versão americana de Lucas do Rio Verde

Gabriel Azevedo

Des Moines, Iowa, EUA – Des Moines tem alguma coisa de Lucas do Rio Verde antes mesmo de você saber exatamente o quê. Não é a paisagem. A capital de Iowa tem prédios de vidro, um capitólio com cúpula dourada, um rio cortando o centro e pouco mais de 200 mil habitantes. Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, tem menos da metade disso, cresceu no meio da fronteira agrícola brasileira e não pretende competir em skyline com ninguém. A semelhança está em outra coisa.

Está no modo como o agro parece ocupar a cidade mesmo quando a lavoura não aparece. Nos hotéis cheios de gente de bota e boné. Nas caminhonetes grandes estacionadas em frente aos restaurantes. Nas mesas em que alguém fala de chuva, preço, câmbio, produtividade ou máquina antes mesmo de chegar a carne. Nesta semana, há ainda um detalhe: boa parte dessas conversas parece acontecer em português.

Des Moines não sedia a Farm Progress Show. A feira acontece em Boone, cerca de 70 quilômetros ao norte, num terreno gigantesco cercado por lavouras e ocupado por quase 600 expositores. Mas é em Des Moines que boa parte da feira dorme, janta, bebe e faz compras. Boone é o escritório. Des Moines é o alojamento.

O calor ajuda na confusão geográfica. No primeiro dia da feira, a temperatura na região encostou nos 36 graus. Sol forte, ar seco, asfalto devolvendo calor pelas pernas. Nada particularmente exótico para quem já passou o verão em Sorriso, Nova Mutum ou Lucas do Rio Verde.

As caminhonetes ajudam ainda mais. Há tantas pelas ruas, estacionamentos e hotéis que, por alguns momentos, Des Moines parece ter decretado uma espécie de feriado municipal de concessionária. Faltam apenas os adesivos de revenda em português.

A comparação com Mato Grosso também não é apenas visual. Sorriso tem pouco mais de 120 mil habitantes. Lucas do Rio Verde, menos de 100 mil. Nova Mutum, pouco mais de 60 mil. No mapa demográfico brasileiro, são cidades médias ou pequenas. No mapa da soja e do milho, são outra coisa. São lugares em que o tamanho da economia não cabe direito no número de moradores. Des Moines produz sensação parecida.

A cidade é capital de um Estado que ajudou a construir a agricultura industrial americana. Iowa está entre os grandes produtores de milho e soja dos Estados Unidos, abriga processamento, criação animal, cooperativas, tradings, seguradoras e uma cadeia inteira construída em torno do campo. Talvez por isso um brasileiro do Centro-Oeste reconheça alguma coisa aqui, antes mesmo de entender o que está reconhecendo.

A diferença, agora, é a escala. A presença do País na Farm Progress cresceu a ponto de o português deixar de ser ruído ocasional nos corredores. Há grupos de produtores, empresários, vendedores, técnicos e executivos por toda parte – no hotel, no restaurante, no shopping, nos aplicativos de transporte. Em alguns trechos do dia, o inglês é que soa como língua visitante.

Foi longe dos tratores, porém, que a invasão ficou mais evidente.

Na Apple Store de Des Moines – a única loja oficial da marca em todo o Estado de Iowa, contra sete em Nova York e cinco em Miami, dois destinos tradicionais do turismo brasileiro -, uma atendente explicava nesta quarta-feira por que alguns modelos de relógio e celular já não estavam disponíveis. “Os brasileiros limparam o estoque ainda na segunda”, disse, rindo. É difícil encontrar um indicador econômico melhor.

O sujeito atravessa o continente para ver plantadeiras, colheitadeiras, genética, inteligência artificial e máquinas que custam centenas de milhares de dólares. Entre uma visita técnica e outra, compra um iPhone. Ou tenta.

A cena talvez diga mais sobre o tamanho que o agro brasileiro ganhou nas últimas décadas do que qualquer relatório de balança comercial.

Durante muito tempo, viajar ao Corn Belt americano foi quase uma peregrinação profissional. O produtor vinha aos Estados Unidos para descobrir como seria o futuro. Iowa tinha as máquinas, as universidades, a genética, a produtividade e um modelo de agricultura que o Brasil observava com respeito e alguma distância. Continua observando. Mas a distância diminuiu.

Hoje, o brasileiro chega aqui e vira também alvo das perguntas que os americanos querem fazer. Como plantar soja, milho, trigo e algodão na mesma área dentro do mesmo ano? Até onde pode crescer o etanol de milho? Qual o tamanho das fazendas em Mato Grosso? Quanto custa abrir uma área? Como funciona uma agricultura capaz de colher uma safra enquanto praticamente já prepara a próxima? O fluxo de curiosidade passou a ter duas mãos.

Talvez seja isso, mais do que caminhonetes e calor, que faça Des Moines parecer tão familiar. Iowa é um dos velhos centros do poder agrícola mundial. Sorriso, Lucas do Rio Verde e Nova Mutum são filhas de uma agricultura muito mais jovem, construída em velocidade quase indecente no coração do Brasil. Um lado tem mais de um século de história. O outro precisou de poucas décadas para aparecer no mesmo espelho.

Nesta semana, os dois mundos se encontram no mesmo restaurante, no mesmo hotel, no mesmo estacionamento e, aparentemente, na mesma fila para comprar Apple Watch.

No mapa, Des Moines continua a milhares de quilômetros de Mato Grosso. Na rua, nem tanto.

Por alguns dias, é Mato Grosso, Iowa.

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