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Nvidia aposta US$ 1 tri no avanço da IA – 04/09/2026 – Tec

A Nvidia recebeu seu nome em 1993, em referência à palavra latina para inveja. E, de fato, o gigante americano desperta bastante desse sentimento. A demanda global insaciável por suas unidades de processamento gráfico (GPUs), os chips que alimentam a inteligência artificial, transformou a Nvidia na empresa mais valiosa do mundo, avaliada em US$ 5,4 trilhões (R$ 27,5 trilhões).

No próximo ano, ela também poderá se tornar a empresa mais lucrativa, com lucro líquido de US$ 370 bilhões (R$ 1,9 trilhão). Até 2029, suas receitas podem chegar a US$ 1 trilhão (R$ 5,1 trilhões).

Jensen Huang, presidente-executivo da Nvidia, é de fato o mágico no centro do boom da inteligência artificial. O preço das ações de sua empresa é 14 vezes maior do que era quando o ChatGPT foi lançado, no fim de 2022.

As dez maiores empresas de capital aberto que apostam na IA representam 40% do valor do índice S&P 500. A Nvidia sozinha responde por 8% e, ao contrário, por exemplo, de Apple ou Tesla, que fabricam smartphones e carros, é quase exclusivamente uma aposta na IA.

A empresa respondeu por cerca de 15 centavos de cada dólar de retorno do mercado acionário americano desde 2023 —ganhos que ajudaram a manter o consumo mesmo diante da alta dos juros, das tarifas e de uma guerra com o Irã.

Mas muitos também veem Huang como um mágico em um sentido mais preocupante, temendo que ele seja um ilusionista inflando uma bolha perigosa. Por meio de US$ 1 trilhão (R$ 5,1 trilhões) em negócios, a Nvidia fornece dinheiro ou garantias a proprietários de data centers e laboratórios de IA para que possam comprar suas GPUs. Alguns a chamam de “banco da IA”.

No mínimo, dizem os críticos da Nvidia, sua engenharia financeira lembra o “financiamento de fornecedores” que impulsionou as receitas de fabricantes de equipamentos de rede, como a Cisco, durante a euforia das empresas pontocom no início do século, cujo colapso provocou uma recessão.

Mas, olhando mais de perto, as preocupações são em grande parte injustificadas. Se as apostas da Nvidia na IA derem certo, elas poderão acelerar a adoção da tecnologia, aumentando a produtividade e o padrão de vida.

Se derem errado, o custo recairá principalmente sobre os acionistas da Nvidia. É assim que o capitalismo deveria funcionar.

É verdade que os booms das empresas pontocom e da IA têm semelhanças inquietantes: uma nova tecnologia empolgante, uma alta vertiginosa das ações e executivos de tecnologia tomados pela arrogância.

A ascensão da Nvidia, de vendedora de chips para jogadores de videogame e mineradores de criptomoedas a peça central da economia, foi tão rápida que muita gente ainda não aprendeu a pronunciar seu nome.

Isso lembra a ascensão da Cisco, que em 2000 também se tornou, por um breve período, a empresa mais valiosa do mundo. Assim como as vendas de roteadores e switches da Cisco pressupunham um crescimento exponencial do tráfego na internet, as receitas da Nvidia com GPUs pressupõem uma demanda interminável por tokens de IA.

A Cisco estava certa sobre a demanda futura, mas errou no momento em que ela chegaria —daí o estouro da bolha pontocom. Hoje, é o ritmo de adoção da IA que é difícil de prever. Deixando de lado os engenheiros de software obcecados pelo Claude, o uso da tecnologia ainda é incipiente.

Se não disparar em breve, os clientes da Nvidia poderão acionar as garantias justamente quando as vendas da fabricante de chips estiverem despencando. Como ninguém sabe ao certo com que rapidez as GPUs perdem valor, quaisquer chips usados que a Nvidia retome podem não valer nada.

A engenharia financeira da Nvidia é, em parte, defensiva. Suas GPUs mais recentes já não dominam o mercado sozinhas. Cerca de metade da receita da Nvidia vem dos chamados “hiperescaladores” americanos de computação em nuvem, principalmente Amazon, Google, Meta e Microsoft, que estão desenvolvendo seus próprios chips.

Os chips de IA que não são da Nvidia representam 38% do mercado, ante 26% em 2023. Para se manter à frente, a Nvidia costumava gastar mais de um quinto de suas vendas em pesquisa e desenvolvimento. Agora, gasta menos de um décimo.

Por fim, a dimensão dos compromissos financeiros da Nvidia pode parecer assustadora. O Morgan Stanley estima sua exposição total ao crédito —isto é, seus empréstimos relativamente modestos mais o apoio a clientes— em US$ 200 bilhões (R$ 1 trilhão) no início de 2029.

Com o tempo, a chamada dívida indireta da Nvidia poderá chegar a US$ 300 bilhões (R$ 1,5 trilhão) ou mais. É uma quantia gigantesca: hoje, apenas os seis maiores bancos americanos carregam mais dívida.

Mas as diferenças em relação ao boom das empresas pontocom são mais importantes do que as semelhanças. O balanço da Nvidia é extraordinariamente robusto. A empresa tem US$ 99 bilhões (R$ 505 bilhões) em caixa e continua gerando mais.

Em cada um dos últimos três anos, suas vendas anuais praticamente dobraram. As margens brutas aumentaram de menos de 60% para 75%.

O status de Huang como CEO cultuado agora rivaliza com o de Elon Musk. Mas, enquanto as empresas de Musk geram pouco caixa, no caso da Tesla, ou consomem muito, no caso da SpaceX, a Nvidia deverá gerar cerca de US$ 200 bilhões (R$ 1 trilhão) em caixa neste ano.

Isso significa que, enquanto a Cisco recorria à dívida, a Nvidia pode usar seu próprio caixa para dar respaldo aos negócios com compradores de suas GPUs. Mesmo que seus compromissos vencessem e seus fluxos de caixa se estabilizassem a partir do próximo ano, em 2028 a empresa ainda teria menos alavancagem do que todas, exceto 39 empresas não financeiras do S&P 500 têm hoje.

Os lucros teriam de cair 60% em relação a esse patamar para que a Nvidia perdesse sua classificação de crédito de grau de investimento.

E a demanda por IA não é ilusória, como era no caso da Pets.com e de outras queridinhas das empresas pontocom que não tinham receita. As vendas da Anthropic, um dos principais laboratórios de IA, saltaram de US$ 5 bilhões (R$ 25,5 bilhões) no primeiro trimestre para US$ 11,5 bilhões (R$ 58,7 bilhões) no segundo.

A OpenAI, sua principal rival, provavelmente não está muito atrás. Os hiperescaladores também estão registrando receitas com IA. No total, a IA pode estar gerando cerca de US$ 150 bilhões (R$ 765 bilhões) por ano para as empresas americanas de tecnologia, partindo de praticamente zero há poucos anos.

Ainda está longe dos US$ 2,5 trilhões (R$ 12,75 trilhões) necessários para cobrir os investimentos de capital em IA, mas o crescimento é rápido.

Huang acredita que o maior obstáculo à revolução da IA não é a falta de demanda pela tecnologia, mas a infraestrutura insuficiente. Os mercados não fornecerão capital na escala necessária, e por isso a Nvidia está oferecendo financiamento por conta própria.

A empresa tem uma vantagem por compreender o equilíbrio entre riscos e recompensas. Embora essa aposta seja grande o suficiente para afetar a economia, trata-se de uma iniciativa empresarial.

Toda empresa que reinveste seu caixa em vez de devolvê-lo aos acionistas também aposta que conseguirá superar o mercado. As empresas existem para fazer apostas concentradas desse tipo. Se os investidores quiserem diversificar, podem fazer isso por conta própria.

E Huang está longe de estar sozinho. Os hiperescaladores, que eram as empresas mais bem-sucedidas do mundo antes da ascensão da Nvidia, estão fazendo a mesma aposta. O mesmo ocorre com alguns dos grandes nomes de Wall Street.

No mês passado, Goldman Sachs, BlackRock, Blackstone e outras empresas se juntaram à Nvidia em uma iniciativa de US$ 500 bilhões (R$ 2,6 trilhões) para data centers. E os acionistas de Huang também estão fazendo essa aposta, sem ainda correr para a saída.

Se todos estiverem errados, é o dinheiro deles que estará em jogo. Se estiverem certos, a era da inteligência artificial poderá chegar um pouco mais cedo

Autor: Folha

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