Quando Kylie Corbitt, 37, saiu de uma clínica de tratamento de dependência de 30 dias, um problema familiar a esperava do lado de fora. “Toda a minha rede era formada por pessoas que usavam [drogas]”, disse ela. “Eu nem sabia o que significava estar verdadeiramente sóbria.”
Seu uso de metanfetamina se intensificou lentamente durante a pandemia da Covid-19, quando ela perdeu um emprego que mantinha havia uma década. Sofreu com a morte da avó que ajudou a criá-la e enfrentou a depressão.
Sem uma rotina para organizar os dias, cada um deles parecia um “dia da marmota”, relata Corbitt. Ela dizia a si mesma que ficaria chapada uma última vez e depois buscaria ajuda. “Mas isso simplesmente nunca acabava.”
O tratamento interrompeu esse ciclo, mas sua vida não estava preparada para sustentar sua sobriedade. Corbitt, que mora em Milton, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, tentou os Alcoólicos Anônimos, mas teve dificuldade para sentir um senso de irmandade e achava que estava sendo julgada nas reuniões.
Desesperada e sem saber para onde ir, Corbitt decidiu conhecer a Phoenix, academia gratuita e comunidade de recuperação em Boston, onde os membros são orientados a estar sóbrios há 48 horas antes de cada visita. Lá, começou a praticar escalada e, mais tarde, adotou o CrossFit, descobrindo que a sobriedade podia ser construída em torno de rotinas e amizades mais saudáveis.
“Não ficamos sentados falando sobre dependência o dia inteiro”, diz Corbitt. “Falamos sobre ficar saudáveis e melhorar.” Em 6 de julho, Corbitt completou dois anos sem drogas, seu “maior período de sobriedade”.
Durante décadas, o tratamento da dependência nos Estados Unidos foi visto como um problema clínico ou uma luta espiritual. Essas abordagens ajudaram milhões de pessoas, mas têm seus limites. O cuidado médico muitas vezes é oferecido em episódios curtos e com prazo definido, enquanto programas de 12 passos podem parecer uma solução única para todos, com sua ênfase em um poder superior e na abstinência completa.
Mas há um modelo em crescimento: espaços sóbrios construídos em torno de atividades físicas, música, meditação e outras práticas. O conceito não é inteiramente novo, mas houve uma “espécie de renascimento do movimento de recuperação”, afirma John Kelly, diretor do Recovery Research Institute no Mass General Brigham.
A Recovery Café Network, por exemplo, em Seattle, que oferece refeições quentes e café gratuitamente, passou de 21 cafés em 2020 para 92 em 2025; as novas inscrições de membros da Phoenix também aumentaram, de cerca de 20 mil para mais de 433 mil no mesmo período.
Espaços sóbrios não podem substituir o tratamento tradicional, e as pesquisas sobre eles ainda são limitadas. Mas o modelo se apoia em evidências de que a solidão e os gatilhos ambientais podem aumentar a probabilidade de recaída, enquanto conexão e pertencimento podem ajudar a sustentar a sobriedade.
Esses espaços oferecem um lugar para a recuperação acontecer fora de uma clínica de tratamento, consultório médico ou reunião de grupo, diz Brandon Clark, que apoia trabalhos de recuperação da dependência na St. Anthony Foundation, em San Francisco, e está em recuperação do uso de fentanil, um opioide sintético.
“As pessoas precisam de novos lugares para ir, novas pessoas para conhecer, novos rituais e novas formas de se sentirem úteis”, diz.
Substituir os rituais da dependência
Espaços sóbrios não seguem um único modelo. A Phoenix, em Boston, é essencialmente um galpão simples, revestido por paredes de escalada e cheio de equipamentos de treino, como pesos livres, máquinas de remo e cordas navais, além de tatames de jiu-jítsu e argolas de ginástica.
Enquanto isso, o primeiro Recovery Café, em Seattle, é uma mistura de refeitório e cafeteria de bairro, com bufê gratuito e bar de café com leite, luminárias pendentes sobre o balcão e palavras como “amor”, “perdão” e “crescer” escritas nas paredes.
Assim como os programas de 12 passos, os espaços sóbrios tendem a ser gratuitos e de fácil acesso, pedindo aos participantes algum tempo de sobriedade, mas na base da confiança, e não com a imposição de um teste de drogas.
Esses espaços, porém, costumam ser mais flexíveis do que outros programas.
“Não somos necessariamente baseados na abstinência”, explica Ruby Takushi, uma das fundadoras da Recovery Café Network, ao afirmar que pede sobriedade aos membros apenas no dia em que eles vão ao café. “Estamos interessados em saber qual é a escolha mais saudável para você hoje.”
Ainda assim, ter esse espaço sóbrio importa porque muitas pessoas tentam parar de usar drogas enquanto estão em ambientes que continuam puxando-as de volta, diz Keith Humphreys, psicólogo e codiretor da Stanford Network on Addiction Policy.
Ryan Forrester, por exemplo, parou de usar drogas em 2018 e cumpria prisão domiciliar enquanto morava com um parente que fumava maconha. Por um tempo, Forrester ficou longe da maconha, recolhendo-se ao quarto para tentar evitar o cheiro.
“Então, um dia, eu cedi”, conta. Fumar virou beber, e uma bebida se transformou em algumas, e logo ele estava enchendo a cara.
Forrester saiu da prisão domiciliar em abril de 2019, mas só parou de beber novamente em novembro de 2024, quando começou a frequentar a Phoenix. O lugar oferecia alguma distância de seus velhos hábitos, relata, e a mesma energia de tudo ou nada que havia alimentado sua dependência podia ser canalizada para uma válvula de escape mais saudável.
“Você entra aqui e começa a fazer amigos”, diz. “Então, levanta pesos que nunca imaginou que conseguiria levantar e participa de corridas, de meia maratona. Você pensa: não acredito que acabei de fazer isso.”
O que os espaços sóbrios podem e não podem fazer
Pesquisadores sabem há muito tempo que a conexão social é uma parte importante da recuperação, ajudando as pessoas a se afastarem de relações organizadas em torno do uso de drogas e a se aproximarem de relações que apoiam a sobriedade.
“Você precisa ter pessoas que conheçam o caminho —como viver em recuperação, o que fazer, o que não fazer, como construir uma vida que valha a pena ser vivida”, afirma Kelly.
A Phoenix relata que 83% de seus novos membros permanecem sóbrios após três meses.
Kelly também acompanhou membros da Phoenix por seis meses e os comparou com não membros, também em recuperação da dependência. Embora não tenha havido diferença nos dias de consumo de álcool ou nos dias de consumo pesado, Kelly diz que os frequentadores da Phoenix relataram menos danos decorrentes do uso de álcool ou drogas em geral, como problemas financeiros, magoar familiares, prejudicar uma amizade ou assumir riscos tolos.
Esses resultados, no entanto, são preliminares. De modo geral, as evidências sobre espaços sociais sóbrios específicos são bastante limitadas.
Há também limites práticos: espaços sóbrios não são equipados para ajudar alguém a passar por uma desintoxicação, tratar abstinência grave ou lidar com uma crise aguda e, como não há determinações judiciais nem presença obrigatória, eles dependem da motivação interna da pessoa para aderir e continuar.
Por isso, diz Humphreys, as pessoas que procuram essas comunidades geralmente “não estão no ponto em que cada dia é uma luta no front contra as substâncias”.
É por isso que esses espaços podem funcionar melhor como complementos aos programas de 12 passos ou ao cuidado médico, não como substitutos. Sua promessa não está em curar a dependência, mas em enfrentar a solidão, o tédio e a desconexão que podem tornar a recuperação mais difícil.
Autor: Folha








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