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Rosa Montero: Menopausa foi das melhores coisas da vida – 20/09/2026 – Ilustrada

Envelhecer não significa abrir mão do desejo, tornar-se invisível ou viver entre o luto pelo passado e o temor do futuro cada vez mais pressionado. Aos 74 anos, a escritora espanhola Rosa Montero diz que a passagem do tempo intensifica a experiência de estar viva.

“Cada momento fica pintado de purpurina, de cores, de faíscas, de luzes. A vida fica mais intensa”, afirma ela, que diz ter começado um livro sobre o tema enquanto lança no Brasil o seu “A Carne” (Todavia).

Publicado na Espanha há 10 anos, o romance acompanha Soledad, uma mulher de 60 anos que contrata um gigolô para fazer ciúmes no amante que a abandonou, e que teme morrer sem nunca ter sido amada como gostaria.

Naquela ocasião, Montero foi celebrada pela “coragem de escrever sobre o desejo de uma mulher de 60 anos”. “Aquilo me deixou estupefata porque, para mim, era a coisa mais normal do mundo!”

A escritora, que é autora de um curso sobre escrita na Casa Folha, acredita que muitas das narrativas que cercam a maturidade feminina funcionam como prisões para as mulheres e ainda refletem uma visão patriarcal segundo a qual perder a capacidade de gestar é torna-se menos mulher, o que faz com que a menopausa seja “demonizada”.

“É um discurso machista e falso porque, ao contrário, você se sente uma maravilha. Liberada de um monte de coisas”, afirma sobre o fim das cólicas, das enxaquecas e do receio de engravidar. “A menopausa foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida.”

Autora de uma obra marcada por reflexões sobre a morte, a identidade e o tempo, Montero vê conexões entre o avanço na desconstrução do sexismo e o crescimento de forças reacionárias. “Nessas voltas para trás, as mulheres costumam ser as primeiras vítimas.”

Para ela, a batalha atual extrapola o âmbito dos costumes para opor democracia a novas formas de tirania. “Não é algo só contra as mulheres. É tremenda a força neofascista que está atravessando o mundo.”

Testemunha da ditadura franquista até seus 24 anos, a escritora alerta para o avanço de movimentos que pretendem restringir direitos conquistados ao longo de séculos. “A pior democracia é mil vezes melhor do que a melhor ditadura.”

A protagonista de A Carne, Soledad, é uma mulher de 60 anos que deseja uma relação e tem medo de não ser amada. Houve alguma mudança na percepção pública do desejo de uma mulher de 60 anos nesses dez anos entre a publicação de A Carne e sua chegada ao Brasil? Não sei. Quando o livro saiu, há dez anos, me surpreenderam algumas perguntas que me fizeram, casualmente entrevistadores homens. Um deles, por exemplo, ao vivo numa televisão, me disse: “Gostamos muito do livro porque ele é muito corajoso. Você se atreve a falar do desejo de uma mulher de 60 anos”.

Aquilo me deixou estupefata! Primeiro porque não era a minha intenção, e esse não era o tema do livro. Depois porque não me parecia corajoso falar do desejo de uma mulher de 60 anos, me parecia a coisa mais normal do mundo.

Eu disse: “Olha, eu tenho um monte de amigas dessa idade e todas temos namorados e amantes. Nunca paramos. É a coisa mais natural. Você diria isso a [o vocalista dos Rolling Stones] Mick Jagger, por exemplo? Acharia estranho o Mick Jagger, com mais de 80 anos, ter namoradas? Não”.

Então, não sei se melhoramos nisso ou não. Dez anos também não é muito tempo para mudar preconceitos profundos.

E qual é o tema do seu livro? O que eu queria fazer com esse livro era me perguntar o que acontece com uma pessoa que começa a envelhecer pensa que nunca conheceu o amor e que pode morrer sem conhecê-lo.

E, quando terminei o livro percebi que há muitíssimas mulheres e homens que tiveram amores —casamentos de 20, 30 anos, sete filhos, vidas aparentemente estáveis— e que, no entanto, sentem que nunca foram amados da maneira como queriam ser amados.

Nesse sentido, lembro de uma frase tremenda do Oscar Wilde: “Para a maioria de nós, a verdadeira vida é a que não vivemos”. Há pessoas que têm marido, esposa, uma relação de décadas e mesmo assim sentem que nunca foram amadas de verdade.



E quando você começa a ficar bem mais velha, como começa a acontecer comigo, existe uma sensação tão vertiginosa de que o tempo está acabando que a vida começa a ficar ainda mais intensa. É bonito.

Você já citou outra frase do Oscar Wilde sobre o fato de a pessoa envelhecer por fora, mas não por dentro. Como a tensão entre o desejo e um corpo que envelhece aparece em “A Carne”? Neste, como em absolutamente todos os meus romances, se fala da morte. Sou uma escritora muito obcecada pela morte, pelo sentido da vida diante da morte, pelo passar do tempo e pelo que o tempo faz conosco. Porque viver é desfazer-se no tempo.

Para mim, envelhecemos desde o berço. Você começa a precipitar-se rumo à morte e a perder coisas. O tempo vai tirando possibilidades, tirando futuro. E o que isso nos dá? Poucas coisas, mas algumas.

Se você estudar e refletir, você pode se tornar mais sábio. Não é que a sabedoria venha automaticamente com a velhice. Conheço muitos velhos completamente imbecis.

E quando você começa a ficar bem mais velha, como começa a acontecer comigo, existe uma sensação tão vertiginosa de que o tempo está acabando que a vida começa a ficar ainda mais intensa. É bonito. Há uma sensação de que cada momento está pintado de purpurina, de cores, de faíscas, de luzes. Porque cada momento importa, é bonito e vale a pena.

Acho que você começa a viver como nos primeiros cinco anos de vida, quando estava descobrindo o mundo. E agora, quando chega a uma certa idade, é como se estivesse quase se despedindo do mundo de alguma maneira. E isso dá a mesma intensidade.

Quando você escreveu o livro, menopausa e perimenopausa eram temas pouco discutidos. O que mais surpreende você neste debate atual? Essa obsessão com a menopausa, por um lado, é positiva, porque estamos adquirindo voz pública e falando de coisas importantes para nós. Acho que ainda circulam muitíssimos preconceitos sobre a menopausa, dos quais nós mulheres somos prisioneiras, porque também somos educadas no machismo e na ideologia sexista.

A menopausa está sendo demonizada, transformada publicamente numa doença. Claro que pode haver mulheres que sofram muito, não duvido disso. Mas é um percentual mínimo. Claro que há incômodos: suores, insônia, calorões. Mas os homens também têm andropausa. A diferença é que nós passamos por isso em três ou quatro anos, e eles, em dez. Só que ninguém fala disso.

Para mim, por exemplo, a menopausa foi maravilhosa, uma das melhores coisas que me aconteceram na vida. Tive enxaquecas horríveis ligadas a hormônios desde os 13 anos. Passei a vida me drogando para suportar dores espantosas. Tive menstruações dolorosas a vida toda. E, de repente, tudo isso desaparece. Não tenho mais dores de cabeça, não tenho mais aquelas regras horríveis. E você não engravida mais. Que libertação maravilhosa! Conheço muitas mulheres que se sentiram exatamente assim.

Qual é a importância da história que contamos a nós mesmas sobre essa fase da vida? Tremenda. É muito bom que coloquemos as nossas coisas em primeiro plano. O discurso sobre a menopausa está preso ao discurso patriarcal. A ideia de que a menopausa é uma doença, de que você perde o “ser mulher” porque perde a capacidade de gestar, como se esse fosse o único propósito da mulher.

Ao contrário: você se sente maravilhosa. Libertada de um monte de coisas. Pode fazer amor sem medo de engravidar. É maravilhoso. Insisto: uma das melhores coisas que me aconteceram na vida.

Você já disse algumas vezes que as pessoas vão se desfazendo no tempo. Neste processo, uma mulher pode desaparecer socialmente? Esse é outro clichê terrível. É um tópico absurdo.

Mulheres de 40 anos me disseram: “Você fica invisível”. E eu olho hoje para os meus 40 anos e me vejo quase adolescente. Eu digo para essas mulheres: “Vocês acham que são invisíveis? Olhem para os homens mais jovens e verão como eles olham para vocês”.

Antes nós não tínhamos visibilidade social porque ocupávamos apenas os calendários de mulheres de maiô. Mas agora ocupamos todos os tipos de cargos, somos presidentes de países, cientistas, escritoras. Ainda não é totalmente igualitário, mas mudou muitíssimo.

Nesses dez anos houve um avanço na desconstrução do sexismo, mas também vimos crescer no mundo inteiro uma força reacionária muito grande, que quer nos levar de volta a situações obsoletas e terríveis.

Então existe uma parte da sociedade muito mais adaptada às múltiplas realidades da vida e outra força retrógrada que se escandaliza com essas coisas.

Por que o avanço dos direitos das mulheres provoca tanta reação? Não é só esse conflito. Estamos numa verdadeira batalha entre democracia e novas formas de tirania. E quando há uma força retrógrada, as primeiras que querem colocar dentro de casa somos nós, mulheres. Mas não é algo só contra as mulheres. É tremenda a força neofascista que está atravessando o mundo.

Precisamos ficar muito atentos para manter conquistas sociais obtidas com muito sangue, suor e lágrimas nos últimos dois séculos porque podemos perdê-las.E precisamos refundar a democracia, porque a democracia que temos é uma democracia falida, que deu origem a esses problemas. Grande parte da população mundial não se sente defendida pela democracia —e tem razão.

Mas eu, que nasci e vivi até os 24 anos numa ditadura, posso garantir que a pior democracia é mil vezes melhor do que a melhor ditadura. Hoje existem pessoas muito poderosas, como o bilionário do Vale do Silício, Peter Thiel, dizendo abertamente que a democracia precisa acabar. Então precisamos estar muito atentos. Nessa volta para trás, as mulheres sempre somos as primeiras vítimas.

Você já disse que escreve para lutar contra o tempo e a morte. Como isso se relaciona com a tatuagem que fez do verso “Nem pena nem medo”? É um verso maravilhoso do poeta chileno Raúl Zurita que foi escavado no deserto do Atacama. Caminhei sobre essas letras ciclópicas de 1,4 quilômetro com 100 metros de altura cada letra. Achei muito bonito, sobretudo para esta etapa da vida, para envelhecer. Porque, à medida que você envelhece, sente mais pena pelo tempo passado e mais medo do que pode vir. E acho que precisamos tentar viver sem pena e sem medo.

RAIO-X

Rosa
Montero, 75

Nasceu em Madri em 1951. Entrou no jornal El País em 1977, onde é colunista até hoje, e estreou na ficção em 1979. Publicou mais de 30 livros, entre coletâneas jornalísticas, romances e literatura infantojuvenil. No Brasil, foram publicadas obras como “Lágrimas na Chuva” (Nova Fronteira), “A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver”, “A Boa Sorte”, “O Perigo de Estar Lúcida” (os três da Todavia) e “A Louca da Casa” (editado pela Rocco, HarperCollins e agora reeditado na Todavia).

Autor: Folha

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