São Paulo
A inteligência artificial tem mudado o modelo de negócios da internet desde 2022, segundo o ex-diretor de privacidade do Twitter e pesquisador do Oxford Internet Institute, Renato Leite Monteiro, 41. O maior exemplo disso, disse o brasileiro, é a valorização do Reddit, rede social rejeitada por anunciantes apesar de seus milhões de usuários.
A forma de financiamento de empresas como redes sociais, produtoras de conteúdo e plataformas de vídeo e música está migrando da coleta de dados para fins publicitários para modelos de licenciamento, afirmou o pesquisador. “Isso acontece devido ao consumo massivo de dados das IAs generativas”.
Monteiro conversou com a Folha, por videoconferência, de sua casa em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, onde atua como vice-presidente de inovação da principal empresa de telecomunicações do país, a e&.

O ex-diretor de privacidade do Twitter Renato Leite Monteiro, 41, na sede do Reglab, think tank onde ele hoje é diretor de IA
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Divulgação/Reglab
Desde que Elon Musk comprou a rede social, mudou seu nome para X e, coincidentemente, surgiu o ChatGPT, a internet está cada vez menos pública, segundo Monteiro. Por causa de um contrato de confidencialidade, o executivo não pôde dar detalhes da compra do Twitter pelo bilionário.
Para o especialista, os sites reagiram aos robôs dos laboratórios de IA levantando barreiras para proteger sua propriedade intelectual. “A própria compra do Twitter acabou se tornando um exemplo dessa tendência, já que Musk valoriza a plataforma nos seus planos de criar uma IA própria.”
Para ele, o maior caso de sucesso nesse segmento é o Reddit. A plataforma social fechou acordo de licenciamento com a OpenAI de US$ 70 milhões em 2024 e, na sequência, alcançou o valor de mercado de US$ 6,4 bilhões quando estreou na Bolsa de Nova York.
Também no fim de 2024, o CEO do Reddit, Steve Huffman, anunciou um acordo de licenciamento com o Google, avaliado em US$ 60 milhões ao ano. O acordo está em fase de renovação, e o Reddit busca melhores condições, sob o argumento de que perdeu tráfego do buscador nos últimos meses.
Em seu balanço anual, o Reddit informou que faturou US$ 143 milhões no ano passado com acordos do tipo. Hoje, o site que reúne fóruns de discussão sobre temas diversos vale US$ 30 bilhões —quase cinco vezes a avaliação obtida na oferta pública.
Neste ano, porém, as ações da plataforma caíram 34% até esta segunda-feira (21) diante das incertezas dos acordos com as empresas de IA e das mudanças no tráfego da internet.
Até o advento do ChatGPT, as principais plataformas da web angariavam audiência com conteúdos gerados pelos usuários, captavam dados sobre os frequentadores de seus sites e levantavam receita analisando o comportamento dessa audiência —o dado em si não tinha tanto valor sem a análise voltada ao mercado publicitário e à capacidade de exibir anúncios para grandes públicos.
O Reddit, apesar de ter mais de 100 milhões de usuários diários, era um patinho feio no Vale do Silício em razão das suas dificuldades para gerar receitas com anúncios.
Seu valor de mercado por usuário ativo era o menor entre as plataformas mais populares da internet porque o cadastro na rede social não exige dados pessoais, o que dificulta o perfilamento dos usuários e, por consequência, a exibição de publicidade direcionada.
Quando veio a público que os dados disponíveis na internet foram a matéria-prima dos chatbots cujas proprietárias são avaliadas em bilhões de dólares, ficou claro que havia uma nova forma de faturar com o conteúdo gerado nas redes sociais: cobrar das companhias de IA pelo uso de informações.
Para conter a raspagem não remunerada por robôs de IA, plataformas e veículos de imprensa adotaram barreiras técnicas, como a inclusão de grandes empresas de IA em uma lista de robôs bloqueados e o reforço dos vetos para não assinantes, como instrumento de proteção e pressão por acordos financeiros, disse o pesquisador de Oxford.
Musk fez a mesma coisa para frear a concorrência na corrida tecnológica. Uma das primeiras medidas do empresário ao assumir o controle da plataforma foi bloquear o acesso das pessoas sem conta aos tweets e barrar todas as ferramentas de análise de dados antes disponíveis no Twitter.
Esse movimento reduziu o volume de informações públicas disponíveis na web, criando um gargalo estrutural para as próprias empresas de tecnologia, que agora enfrentam a escassez de novos dados abertos para o aprimoramento de seus sistemas, de acordo com Monteiro.
“Em um gráfico, as IAs generativas disponíveis foram subindo, enquanto a quantidade de informações públicas foi diminuindo”, afirmou o pesquisador. Mas as principais plataformas do mercado já haviam sido treinadas.
Monteiro, hoje pesquisando a questão da soberania em IA, disse que outros países procuram as próprias alternativas à polarização entre EUA e China, países que sediam os laboratórios e empresas na liderança do desenvolvimento de IA.
“A Europa, por exemplo, quer se desenvolver e se valer cada vez mais dos seus próprios sistemas de IA, porque sabe que, se depender de modelos de IA dos Estados Unidos, pode ter o destino fadado por uma decisão política.”
A ausência de marcos regulatórios previsíveis para a inteligência artificial tem sujeitado o setor a intervenções governamentais diretas. O exemplo mais recente ocorreu quando o governo norte-americano determinou o bloqueio do modelo Mythos e de sua versão Fable 5, desenvolvidos pela Anthropic, mesmo após o início de sua distribuição comercial.
Para Monteiro, que também ocupa um cargo na diretoria do think tank brasileiro Reglab, a medida demonstrou o risco da falta de parâmetros claros para testes de segurança, biossegurança e cibersegurança.
“Se não houver uma regulação clara e inteligente, ações inesperadas acontecem. A regulação serve justamente para evitar que decisões políticas pontuais paralisem a operação de empresas.”
Hoje na vice-presidência de IA e inovação da e&, empresa de telecomunicações dos Emirados Árabes Unidos, Monteiro acompanha o exemplo de outro país que investe nas próprias tecnologias.
“Nos Emirados Árabes, os sistemas têm que funcionar localmente, como uma estratégia para não ficarem dependentes de organizações ou governos que podem mudar de opinião e interromper os serviços.”
Ele afirmou que o regime emiradense tem uma estratégia clara e ampla de adoção de uma IA soberana. “Um dos objetivos da própria administração é adotar, nos próximos dois anos, inteligência artificial em 50% dos serviços públicos.”
Autor: Folha








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