The New York Times
Na semana passada, atendi a uma ligação de um número desconhecido. “Você ligou para a Anthem Dental e estou prestes a transferi-lo”, anunciou uma voz.
A ligação era de um “agente” de inteligência artificial criado pela Meta, dona do Facebook e do Instagram. Dez minutos antes, o agente havia ligado para minha seguradora odontológica, informado meu número de associado, respondido a uma pergunta de segurança e aguardado na linha até me transferir para um atendente —exatamente como eu havia pedido.
Fiquei surpreso com o quanto o agente havia facilitado minha relação com a seguradora. Essa foi uma das muitas tarefas que realizei com o Muse, aplicativo de agente de IA que a Meta apresentou neste mês.
O Muse é o primeiro agente de IA voltado ao consumidor de uma grande empresa de tecnologia a ser disponibilizado publicamente. O setor de tecnologia vê os agentes como a próxima fronteira, muito mais capazes do que os chatbots. Eles podem navegar pela internet, entrar em sites, preencher planilhas e fazer ligações telefônicas em nome das pessoas —e isso é apenas o começo.
Para testar o Muse, passei duas semanas experimentando o aplicativo sem parar e entregando a ele vários aspectos da minha vida. Precisei confiar ao Muse alguns dos meus dados mais pessoais, incluindo o acesso às minhas contas bancárias e ao meu e-mail. Depois, pedi que realizasse dezenas de tarefas cotidianas, como fazer minhas compras de supermercado, agendar reuniões e definir minhas escalações no jogo fantasy football.
Depois de duas semanas, considerei o Muse o aplicativo de IA mais útil que já havia usado. Um momento revelador ocorreu depois que conectei meus cartões de crédito ao Muse e pedi que acompanhasse meus gastos em uma planilha do Google Sheets. Observei enquanto ele abria abas com centenas de linhas de dados em poucos minutos e, em seguida, identificava duas assinaturas duplicadas, que cancelou para mim. Depois, o Muse usou meu e-mail para solicitar o reembolso de um período de teste gratuito de um jornal que havia expirado, economizando US$ 44,99 (R$ 231).
Ainda não sei se o Muse e outros agentes de IA terão ampla adesão. Os agentes exigem um nível de confiança que pode deixar muitas pessoas desconfortáveis, especialmente quando se trata de uma empresa como a Meta, que já enfrentou problemas relacionados à privacidade. Alguns sites também restringem o acesso de agentes em seus termos de serviço. A Amazon, por exemplo, bloqueou o acesso do Muse no domingo.
Minhas duas semanas com o Muse começaram com o download do aplicativo gratuito e o login usando minhas contas do Instagram e do Facebook. Há limites para o uso gratuito, porém, e quem quiser mais recursos pode pagar US$ 20 (R$ 103) ou US$ 100 (R$ 516,89) por mês.
Enquanto eu conversava com o agente como se fosse um chatbot, ele sugeriu que eu o chamasse de Wren, representado pelo avatar de um simpático pássaro marrom. Nossa conversa continuou assim:
Eli: Olá, Wren! Você é meu novo assistente.
Wren: Oi! Que bom ver você. O que posso fazer por você hoje?
Rapidamente, dei ao Wren acesso às minhas contas bancárias e a aplicativos como Google Docs, Gmail, Ticketmaster, OpenTable e Google Sheets, que firmaram parcerias com o Muse. A partir daí, começaram os testes.
Eu tinha alguns objetivos em mente. Queria descobrir se o Muse poderia me proporcionar o “empoderamento pessoal” sobre o qual Mark Zuckerberg, CEO da Meta, costuma falar. Também queria testar os limites do Muse e entender até onde os agentes de IA poderiam chegar —e onde poderiam falhar. E, diante dos temores recentes relacionados a sistemas de IA poderosos, queria saber se meu agente poderia sair do controle e escapar de sua contenção para conversar com outros agentes, colocando em risco a privacidade dos meus dados.
Rapidamente, descobri que o Wren conseguia preencher formulários on-line com eficiência, uma das partes mais tediosas do uso da internet. Eu podia tirar uma foto de uma multa de estacionamento, e Wren faria o pagamento por mim, pedindo autorização antes de concluir a operação. Enquanto o agente trabalhava, eu acompanhava seus movimentos em uma pequena janela do navegador, na qual ele navegava pelos sites como uma pessoa, usando mouse e cursor.
Wren também conseguia fazer ligações telefônicas usando diferentes personalidades, com uma voz masculina chamada Brett e uma feminina chamada Hailey. Por enquanto, um número limitado de usuários do Muse tem acesso ao recurso de chamadas, mas achei a função útil para lidar com serviços de atendimento ao cliente —como no caso da minha seguradora odontológica.
Wren teve dificuldades com algumas tarefas, principalmente para entrar em sites de terceiros. Não conseguiu comprar ingressos para o jogo de futebol americano do San Francisco Giants sem minha ajuda e teve problemas para acessar minha conta do programa de recompensas da AMC.
Para uma última tarefa, pedi a Wren uma boa maneira de gastar os US$ 44,99 (R$ 231) que ele havia me ajudado a economizar. A essa altura, ele conhecia minha vida muito bem. Imaginei que poderia sugerir algo altruísta, como doar o dinheiro para uma instituição de caridade ou comprar flores para minha namorada, que se recuperava de uma cirurgia.
Em vez disso, sugeriu algo ainda melhor: comprar tigelas da Heath Ceramics, uma fabricante local de cerâmica com uma legião de seguidores, no Facebook Marketplace, um dos meus passatempos favoritos.
Wren disse que poderia enviar mensagens aos vendedores e negociar em meu nome, já que estava conectado à minha conta do Facebook. Dei ao agente alguns parâmetros: comprar apenas itens que custassem metade do preço de varejo e pechinchar o máximo possível.
Wren vasculhou o Marketplace e começou a enviar mensagens aos vendedores sobre seus anúncios, sempre iniciando as conversas com uma oferta baixa, US$ 20 (R$ 103) abaixo do preço anunciado. Depois de receber uma contraproposta, voltava a mim para traçar uma estratégia.
Os colecionadores de Heath na região da baía de San Francisco estão entre os negociadores mais difíceis com quem já lidei, mas Wren se saiu bem, preferindo uma abordagem mais delicada nas conversas. Em determinado momento, ele me convenceu a não enviar uma contraproposta menor por um conjunto de tigelas brilhantes, porque percebeu a irritação no tom do vendedor.

O jornalista do New York Times Eli Tan recebe prato de cerâmica comprado no Facebook Marketplace com ajuda do agente de IA Muse
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Poppy Lynch/New York Times
Depois de dias de idas e vindas, chegou uma mensagem promissora de um vendedor chamado Ashley, que se recusou a informar o sobrenome. Quando fui enviar uma mensagem para Wren sobre a oferta, porém, cometi um erro e a encaminhei por engano para Ashley.
Eli: Vamos fechar os pratos de jantar, veja se conseguimos um preço menor.
Eli: Ops! Desculpe, queria mandar isso para meu agente de IA. Aceito o prato por US$ 40 (R$ 206), se ainda estiver disponível!
Ashley: Sem problema. Estou disponível até as 22h de sexta-feira. Espero que você tenha mais sorte com seus agentes.
O que veio depois foi uma conversa humana revigorante com Ashley, algo que nem Wren nem qualquer outra IA poderiam proporcionar. Suspeitei que esse pudesse ser outro motivo pelo qual o Muse não conquistaria adesão imediata: às vezes, as pessoas simplesmente não querem ter suas vidas pessoais automatizadas, mesmo que a tecnologia seja suficientemente boa para isso.
Fui buscar o prato preto fosco de Ashley, que acabei comprando por US$ 40 (R$ 206) , pouco mais da metade do preço de varejo, e perguntei se ele algum dia consideraria experimentar um produto como o Muse.
“Acho que a IA pode ser realmente útil para muita gente”, disse Ashley. “Para mim, simplesmente não consigo superar essa questão da privacidade.”
Autor: Folha









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