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Homens gays afeminados expõem rejeição em aplicativos – 26/09/2026 – Equilíbrio

Um usuário do Grindr, aplicativo de namoro gay, pede que Matheus Daipre, 28, envie um áudio. Após ouvir sua voz, ele o bloqueia.

A situação se repete com frequência. Matheus, de Mairiporã (SP), se define como um homem gay afeminado e diz que o seu jeito de falar costuma ser interpretado como um dos sinais que o enquadram dessa forma.

Antes de contar à família que era gay, aos 19 anos, ele controlava os gestos e a forma de dançar para parecer mais masculino. Mesmo depois de se assumir, ainda sentia que precisava se adequar, dessa vez para se relacionar com outros homens.

“Já tentei fingir uma masculinidade para ver se a pessoa se atrai um pouco mais por mim”, declara.

Pesquisas acadêmicas estudam a valorização da masculinidade nas relações entre homens gays. Em 2020, o linguista João Carvalho de Souza Junior analisou a própria experiência no Grindr em uma dissertação de mestrado apresentada à UFS (Universidade Federal de Sergipe).

Ele relata que, embora insatisfeito, aparecia sem camisa e com o rosto cortado da foto para criar um perfil que considerava mais atraente. Para Souza Junior, os usuários chegam ao aplicativo cercados por ideias sociais sobre o que é desejável —um homem visto como másculo pela sociedade. Assim, até quem quer romper com esse padrão pode acabar cedendo a ele para ser aceito.

Para o psiquiatra Adilon Harley Machado, especialista em psicologia analítica e corporal, essa lógica começa cedo. Segundo ele, meninos aprendem a ser masculinos pela negação do que é associado ao feminino. “Vai desde os brinquedos, a expressão da sensibilidade à maneira como se porta, os aspectos de higiene”, diz. “Isso tudo não tem necessariamente a ver com uma formação do homem, mas sim muito mais com uma resistência e contraposição àquilo que se espera de uma mulher.”



Isso tudo não tem necessariamente a ver com uma formação do homem, mas sim muito mais com uma resistência e contraposição àquilo que se espera de uma mulher

Machado diz que esse aprendizado também chega ao desejo de homens gays. Os interesses, segundo ele, se formam a partir do contato e da convivência. “À medida que chega só um modelo de corpo, de aparência e de estrutura de pensamento, se constrói um eurocentrismo dos desejos e dos afetos”, afirma.

Na dissertação, Souza Junior escreve que masculinidade, saúde, vida atlética, riqueza, branquitude, pênis grande, posição social e certas profissões recebem mais valor no ambiente online. Ele aponta a influência das redes sociais, da publicidade e da pornografia, que também reproduzem padrões de gênero e de dominação masculina.

Um homem gay de 61 anos ouvido pela reportagem em condição de anonimato se apresenta no Grindr como “macho”, “discreto” e “não assumido”. Ele diz procurar homens masculinos, em boa forma física e fora do meio LGBTQIA+.

Afirma que “o homem não precisa ser ‘cortador de lenha’, mas normal, sem traços, gestos ou atitudes ditas femininas”. Entre esses traços, cita “fala afetada”, uso de artigos no feminino, maquiagem, sobrancelhas feitas, corpo depilado e certos gestos com as mãos.

“É uma preferência. Como tem quem goste de gordos, peludos, negros, brancos, magros, coroas”, declara.

“Hoje a dificuldade é que tudo vira uma pauta, o fato de uma pessoa ter uma preferência sexual vira discriminação, racismo ou intolerância”, afirma.

O entrevistado cita ainda amigos que considera mais másculos e que preferem homens mais femininos.

Machado diz que o homem gay afeminado ocupa uma posição particular nessa relação entre masculino e feminino. “O gay afeminado torna visível tudo aquilo que a masculinidade hegemônica manda esconder.”

Para a escritora e pesquisadora de gênero e sexualidade Letícia Lanz, a desvalorização de traços ligados ao feminino está ligada à posição atribuída às mulheres na sociedade. “Na origem de toda essa coisa, você vai encontrar misoginia“, afirma.

Isso não significa, para Lanz, que toda preferência por homens masculinos possa ser classificada da mesma forma. Questionada se é possível ter essa preferência sem discriminação, ela diz que sim, caso o sexo seja considerado uma atividade lúdica, na qual as pessoas fazem escolhas. “Mas eu temo que não é assim que acontece”, afirma.

Lanz também contesta a ideia de que conviver com pessoas que sofrem discriminação seja suficiente para afastar o preconceito.

Na dissertação, Souza Junior questiona por que tantos perfis rejeitam homens afeminados de forma aberta, enquanto outros desinteresses não recebem a mesma ênfase.

Machado afirma que, nos aplicativos, essas rejeições podem aparecer de forma mais clara. Uma pessoa pode escrever no perfil algo que talvez não dissesse em uma conversa presencial.

Para a psicóloga Noemi Alves do Carmo Machado, que trabalha no atendimento de pessoas LGBTQIA+, tentar mudar características próprias para ser aceito pode dificultar a construção de uma identidade positiva.

“Se encaixar num grupo normalmente dói muito. E se encaixar não é pertencer. É deixar muita coisa que constitui o meu eu lá fora”, afirma.

Para Noemi, estar incluído em um grupo não significa sentir que é possível existir nele como se é. “Quando eu posso existir em um grupo, quer dizer que meu eu está lá inteiro. Chega a minha cor, o meu jeito, o meu corpo do jeito que eu sou. Chega eu por inteiro, e não tão fragmentado.”

Experiências de rejeição também podem levar a um estado de hipervigilância, diz a psicóloga. Mesmo em uma relação saudável, a pessoa pode continuar com medo de ser rejeitada e procurar sinais de que será aceita.

“Parece que cada interação que eu tenho é quase uma prova. Será que eu vou ser aprovado aqui? […] Traz uma exaustão muito grande para esse corpo, que está alerta o tempo todo”, afirma.

Quando entra na balada, Matheus percebe que os homens mais másculos chamam mais atenção, mas diz que sua prioridade mudou.

“Não me importo mais se estão me olhando. Eu me curto e gosto de estar bem para mim mesmo”, afirma.

Autor: Folha

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