Em 2019, uma pesquisa com 2.206 jovens brasileiros mostrou que meio ambiente era o tema de maior interesse (80%), acima de saúde (74%) e ciência/tecnologia (67%). Mas 54% consideravam que cientistas podem estar “exagerando” sobre as mudanças climáticas. De que depende a confiança no cientista?
Um levantamento com 4.262 britânicos mostra que 63% confiam nos cientistas, mas vê-los “do lado de pessoas como eu” pesa mais do que achá-los competentes. E a posição política influencia: 71% dos eleitores do Partido Verde sentem que os cientistas estão do seu lado, contra 32% do Reform UK, da direita radical. Eis o padrão: “cientista confiável é aquele que me dá razão”.
Aqui não é diferente. Num estudo com 72 mil pessoas de 68 países, o Brasil ficou em 21º no ranking de confiança nos cientistas. Quanto mais à direita o entrevistado, menor a confiança de que eles agem por interesse público, e essa queda é a mais acentuada entre os países estudados.
Há um Brasil que ama a ciência e outro que a odeia? Sociólogos que analisaram grupos bolsonaristas no Telegram descreveram algo mais complexo: uma “ciência patriótica”, com médicos e estudos próprios, oposta à ciência “mainstream”, tida como corrompida. Não se rejeita o cientista; disputa-se quem pode sê-lo.
Ciência sob medida tem custo alto. Numa pesquisa de 2020 com 2.771 brasileiros, apoiadores de Bolsonaro sabiam menos sobre o coronavírus e se diziam menos preocupados com a pandemia que seus opositores. Nos municípios, quanto maior o voto em Bolsonaro, menores a cobertura vacinal e a adesão ao distanciamento, e maior a mortalidade. Estimativas levadas à CPI da Covid atribuíram ao atraso na compra de vacinas 95 mil a 145 mil mortes evitáveis.
Flávio Bolsonaro abraçou a necropolítica do pai. Em 2020, divulgou foto falsa de um homem que nunca teve Covid para alegar cura pela cloroquina; questionado, mentiu que a droga funcionava “na maioria esmagadora dos casos”. Em meio à escalada de mortes, apoiou a campanha “O Brasil não pode parar”, que pregava o fim do isolamento. Infectado, atribuiu a recuperação a tratamento precoce sem validação clínica. A CPI recomendou seu indiciamento por incitação ao crime.
Sua peculiar visão da ciência persiste. Em agosto, no Jornal Nacional, lembrado de artigo de 2019 em que minimizava o aquecimento global, disse que há “épocas cíclicas” e que os extremos não têm relação “só com a influência do ser humano”. Numa revisão de 88.125 artigos, o consenso sobre a causa humana supera 99,9%.
E qual ciência Flávio quer financiar? Defende bolsas para “tecnologia, inovação, inteligência artificial” e diz que dinheiro público não pode ir a áreas que, para ele, “não agregam nada ao país”. Seu programa tira as universidades federais do MEC e condiciona Capes e CNPq ao impacto produtivo, reduzindo a ciência a instrumento de conveniência.
O enredo é conhecido. Em 2019, quando o Inpe divulgou a alta do desmatamento na Amazônia, Jair Bolsonaro chamou os dados de mentirosos e insinuou que o diretor, o físico Ricardo Galvão, servia a alguma ONG. Galvão foi exonerado e a floresta seguiu caindo.
O cientista não está para servir a quem confia nele nem para militar contra quem desconfia. Sua lealdade é com o método, que o obriga a denunciar a sabotagem ideológica de evidências. A ciência não é a única forma de saber, mas talvez seja a melhor ferramenta para conhecer o mundo e decidir no interesse coletivo. A recusa do governo Bolsonaro em enxergar o mundo pela lente da ciência pagou-se em vidas.
Cotado por Flávio para a Saúde, Claudio Lottenberg trata a atuação de Jair Bolsonaro na pandemia como “capítulo superado”. Mas, como adverte Primo Levi, se aconteceu, pode acontecer de novo. Antecipar cenários a partir de dados é ofício científico. Ante a ascensão bolsonarista, silenciar seria descartar as evidências do risco.
Este artigo é assinado pela Coalizão Ciência e Sociedade, formada por 74 cientistas de todo o Brasil.
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Autor: Folha








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