Pergunta: Estou noiva de um homem bem-sucedido, gentil e profundamente responsável. É o segundo casamento para nós dois. Somos muito compatíveis e compartilhamos uma bela casa, viagens, interesses, uma vida social ativa e um amor genuíno, marcado pelo companheirismo. No entanto, depois de quase dois anos de noivado, não consigo me decidir a marcar a data do casamento.
Morar juntos revelou uma verdade profunda e dolorosa: ele é completamente desligado da intimidade física e emocional. Nossa terapeuta e eu suspeitamos de alexitimia não diagnosticada —ou seja, dificuldade para vivenciar e descrever as próprias emoções—, enquanto ele, na defensiva, atribui isso a uma simples “reserva emocional”.
Depois de um ano de terapia de casal sem resultados, vivemos uma relação totalmente platônica. Sinto uma solidão profunda, uma carência física que me faz desejar até mesmo o toque sem conotação sexual e a sensação de só poder compartilhar partes de mim, de maneira superficial, porque parece ser tudo o que ele consegue compreender.
Sinto vergonha e muita raiva de mim mesma por ter escolhido fechar os olhos, ignorando sinais de alerta evidentes em troca de segurança. Há dez anos, eu jamais teria aceitado essa covardia. Mas, aos 65 anos, sinto-me exausta demais para tomar uma atitude. Sobrevivi a um divórcio traumático e devastador, que exigiu anos de trabalho pessoal doloroso e trouxe consequências sociais difíceis de superar. A ideia de reviver aquele pesadelo parece insuportável. Já não sou a mulher determinada que enfrentou aquela perda e seguiu em frente.
Sinto-me presa à resignação, perguntando-me se consigo me conformar com essa relação estranha e sem romance, preservar minha segurança financeira e organizar minha vida em torno da fé, dos filhos adultos, do meu neto e da minha comunidade. Ou se devo ir embora e correr o risco de enfrentar novamente o mesmo destino doloroso do qual levei uma década para me recuperar.
De qualquer maneira, meu coração sofrerá um golpe enorme, que não consigo suportar. Simplesmente não sei o que fazer.
Terapeuta responde
Entendo por que você se sente encurralada. Pela maneira como apresenta a questão, sua única opção parece ser perguntar a si mesma: qual forma de sofrimento é mais suportável para mim? Se decidir ficar, abrirá mão da intimidade emocional e física pelo resto da vida. Se for embora, perderá o conforto dessa parceria e todo o universo que a acompanha: uma bela casa, segurança financeira, interesses em comum, amizades com outros casais e companhia para viajar. Mas acho que você está deixando de considerar algo importante: as partes do seu futuro que não consegue prever.
Ao ler sua carta, lembrei-me de uma frase atribuída à terapeuta Virginia Satir: “As pessoas preferem a certeza da infelicidade à infelicidade da incerteza”.
Você já sabe o que terá se ficar: o que tem agora. E sabe o que perderá se for embora: um universo particular que lhe proporciona segurança. O que você não sabe, porém, apesar do medo de reviver o “pesadelo” que se seguiu ao fim do casamento, é como sua vida se desenrolará em um contexto diferente. E, por contexto diferente, quero dizer algo que não se limite à relação atual, mas que também seja diferente daquela que veio depois do divórcio. Pelo que você conta, o fim do casamento foi traumático e deixou cicatrizes profundas. Mas, se esta relação terminar, será resultado de uma escolha refletida sobre o que é mais importante para você nesta fase da vida. E isso influencia o que vem depois.
Você poderia, por exemplo, morar em uma casa mais modesta, mas sentir-se mais em casa, sem o ressentimento que vem crescendo onde você vive hoje. Seu círculo social talvez mudasse em alguns aspectos, mas, apesar dos desafios, essas mudanças também poderiam ser positivas. Talvez você fizesse novas amizades em lugares inesperados, aprofundasse relações com amigos que já tem ou vivesse experiências que não teria no contexto do seu círculo social atual. Certamente sentiria solidão em alguns momentos, mas também poderia construir uma vida em que essa outra forma de solidão fosse mais suportável do que a que sente agora —e que preservasse a possibilidade de encontrar a intimidade emocional e física que tanto deseja.
Também questionaria o motivo pelo qual você acredita que já não é “a mulher determinada” que conseguiu superar um período difícil. É porque o divórcio a desgastou? Ou porque essa relação atual vem consumindo suas forças a ponto de você já não se reconhecer —e por que permanecer nela pode desgastá-la ainda mais do que ir embora?
A maioria dos casais não é perfeitamente compatível em todos os aspectos, inclusive na intimidade, mas existe uma diferença entre frustração e privação. Não está claro para mim como sua relação se tornou platônica, nem por que precisa continuar assim. Se a relação é importante o suficiente para que seu noivo participe de um ano de terapia de casal, o que o impede de tentar atender, ainda que minimamente, às necessidades fundamentais da pessoa com quem deseja se casar?
Também me pergunto por que ele está satisfeito com esse tipo de relação ou se há algo mais em sua experiência que ele não está disposto ou não consegue compartilhar. Existe vergonha, medo, falta de desejo ou algum aspecto da sexualidade que ele ainda não conseguiu enfrentar? (Isso também era um problema no casamento anterior dele?) Se ele não estiver disposto a explorar essas questões e o máximo que puder oferecer for compatibilidade sem intimidade, sem espaço para mudanças —e se nenhum dos dois estiver interessado em abrir a relação como possível solução—, talvez vocês não sejam tão compatíveis quanto imaginam.
Não estou ignorando as perdas que qualquer uma das escolhas envolve. Mas quero que você considere a possibilidade de se sentir encurralada menos pela falta de opções viáveis e mais pelo peso de duas formas de luto. Existe o luto antecipado pelo que você poderá perder se for embora e o luto pelo que já perdeu. Você teme que seu coração sofra um “golpe enorme”, mas ele já sofreu: você se sente solitária, com raiva, carente de toque, envergonhada e resignada.
Às vezes, o custo daquilo que já perdemos parece menor do que o custo daquilo que ainda podemos perder. Se algo já acabou e você continua sobrevivendo —ainda que infeliz—, pode acabar se convencendo de que essa perda atual dói menos do que a alternativa. Mas essa comparação não é justa: você não está levando em conta como poderá se sentir depois de mais uma década sem conexão emocional, toque e afeto.
Aos 65 anos, não há nada de errado em decidir que companheirismo, segurança financeira, família, fé e comunidade são mais importantes para você do que determinado nível de intimidade. Talvez você consiga suprir suas necessidades emocionais fora do casamento e descubra que a falta de afeto físico a incomoda menos. Mas essa escolha deve partir de um lugar de autonomia, não de resignação. Uma decisão pode ser a certa para você e, ainda assim, envolver perdas e dúvidas. Se for embora, provavelmente sentirá saudade dele em alguns momentos. Se ficar, provavelmente se perguntará sobre a vida que poderia ter construído. O objetivo não é negar a perda, mas compreender o que você está escolhendo —e por quê.
Então, em vez de apenas perguntar a si mesma: “Do que estou abrindo mão se ficar?” e “Do que estou abrindo mão se for embora?” aqui vai uma pergunta mais útil: “Quais perdas provocariam em mim o sentimento de luto, e quais seriam uma traição a mim mesma?”. Essa distinção pode aproximá-la da resposta que procura.
Autor: Folha








.gif)












