O JazzB, em São Paulo, recebe no dia 22 de outubro a apresentação de dois trompetistas paulistanos que merecem ser ouvidos atentamente: Daniel D’Alcantara, de 52 anos, e Mathias Hindal (Mathias Hindrikson D’Alcântara), de 20.
A coluna Música em Letras entrevistou, com exclusividade, o trompetista Daniel D’Alcantara, pai de Mathias Hindal. Ele falou sobre o show em que a dupla aborda a sonoridade e a obra de mestres do instrumento, como Dizzy Gillespie (1917-1993), Freddie Hubbard (1938-2008), Miles Davis (1926-1991), Lee Morgan (1938-1972), Donald Byrd (1932-2013) e Thad Jones (1923-1986).
Daniel D’Alcantara é filho de Magno D’Alcântara, o Maguinho trompetista tarimbado que tocou com diversos artistas e, assim como o filho, construiu uma sólida carreira. Mathias integra a quinta geração de músicos profissionais da família, que conta ainda com o saxofonista Vitor Alcântara e seu irmão, o baterista Maguinho Alcântara.
Daniel D’Alcantara iniciou os estudos musicais aos 8 anos. Atualmente, acumula 35 anos de atuação e docência. Mathias começou a estudar trompete aos 6, com o pai e o avô, Magno D’Alcantara. Hoje, são 14 anos de estudo e quase três de carreira profissional.
Além dos trompetistas Daniel D’Alcantara e Mathias Hindal, o espetáculo conta com a participação de outros três instrumentistas: Edson Sant’anna (piano), Gustavo Fonseca (contrabaixo) e Jonatas Sansão (bateria).
Leia a seguir a entrevista que Daniel concedeu à coluna Música em Letras.
— O que você ensina e, ao mesmo tempo, aprende com seu filho?
— Acho que essa é uma das partes mais bonitas de ser pai e músico. Procuro passar ao Mathias o que aprendi ao longo desses anos: disciplina, escuta, conhecimento do instrumento, respeito pela música e, principalmente, a importância de desenvolver a própria personalidade. Aprendo com ele quando percebo como ele assimila a música, principalmente a instrumental e o jazz, pela perspectiva da geração dele. Isso é muito diferente do meu olhar e, mais ainda, do olhar do meu pai. A geração do Mathias já nasceu com os smartphones, e o acesso à informação é muito mais rápido e eficiente. Isso gera uma certa falta de surpresa diante das novidades, porque eles não passaram pela dificuldade que a gente teve para conseguir material de estudo, e as informações brotam a todo momento. É um desafio gigantesco para todas as gerações: para a deles, manter o foco e se manter estimulados; para a mais velha, se conectar e ir mais direto ao ponto.
— Seu pai [o trompetista Magno D’Alcantara] certamente deve ter muito orgulho de vocês dois. Alguma vez ele orientou o Mathias sobre algo específico na música ou comentou algo sobre a maneira dele tocar?
— Meu pai é um avô babão (risos), mas sempre que pode orienta o netinho com sua sabedoria e inteligência musical. Ele sugere álbuns e solos para transcrever de ouvido, indica estudos técnicos para o instrumento, conta suas experiências e como resolveu as situações mais diversas. O Mathias, por sua vez, tem uma relação muito carinhosa e respeitosa com esse legado. Sente a responsabilidade de manter a tradição que herdou e o privilégio de ser mais um músico profissional da família, com o mesmo amor e dedicação que todos aqui sempre tiveram pela música instrumental brasileira, mas também conectando com a geração dele e com as próximas.
— Comente três músicas que estarão no repertório desse espetáculo, citando uma particularidade de cada uma delas.
— O repertório foi pensado como um panorama da história do trompete no jazz e também como uma forma de mostrar diferentes gerações e maneiras de pensar o instrumento. São trompetistas que influenciaram meu pai e, por consequência, a mim e ao Mathias. Destaco três dessas músicas. A primeira é “Alcantara’s Blues”, composição do meu pai [Magno D’Alcantara] que reflete a influência do hard bop em um contexto de samba-jazz. A segunda é “Moontrane”, de Woody Shaw, que é uma homenagem ao saxofonista John Coltrane. E a terceira é “Dear John”, de Freddie Hubbard, outra homenagem ao Coltrane. É uma coincidência bonita ter duas delas no mesmo repertório.
— Em qual fase da carreira o Mathias se encontra?
— O Mathias começou a estudar trompete aos 6 anos. Atualmente, são cerca de 14 anos de convivência com o instrumento. Profissionalmente, faz quase três anos. Mas existe uma diferença entre estudar um instrumento e construir uma carreira, e ele está justamente entrando nessa segunda etapa: já tem formação, experiência de palco e, principalmente, uma busca pela própria identidade musical. Inclusive ele lidera uma jam session toda quarta-feira no Let’s Beer, local próximo do metrô Ana Rosa.
— Na sua opinião, o Mathias já está com o “bico pronto” ou falta muito para tal?
— Essa é uma pergunta interessante, porque no trompete o “bico pronto” é quase uma utopia. Mesmo depois de mais de 40 anos tocando, continuo descobrindo coisas sobre o instrumento. Embocadura, emissão, respiração, articulação, sonoridade… Enfim, tudo está em uma eterna transformação (risos). O Mathias já tem uma base muito boa e plena consciência de que precisa manter uma rotina de estudos, para que os reflexos técnicos no instrumento e, principalmente, no processo de criação instantânea sejam ferramentas primordiais para o seu desenvolvimento como músico.
— Qual característica musical você percebe nele como a mais latente?
— A que mais me chama a atenção é o lirismo. Ele tem um jeito diferente do meu ao tocar: é mais calmo de temperamento do que eu e pensa com mais naturalidade ao improvisar. A construção melódica dele é mais lírica e serena, com uma sofisticação harmônica muito interessante para a idade. Acho que parte disso vem da bagagem dele. O Mathias cresceu dentro da música, e não apenas no meu ambiente: a mãe dele, Érica Hindrikson, é regente de orquestra, e ele conviveu com um universo completamente diferente da música instrumental brasileira, que complementa e expande suas informações e sonoridades. Mas tudo é um longo processo de autoconhecimento e de adequação ao ambiente em que se toca, e por isso qualquer definição pode soar precipitada para um jovem de 20 anos.
— Haverá algum momento no qual vocês dois tocarão em duo, sem acompanhamento? Qual?
— A princípio, não. Talvez em alguma introdução, para criar uma textura diferente e dialogar brevemente, mas com certeza faremos vários trades [revezamento rápido de solos ou frases musicais improvisadas entre dois ou mais instrumentistas sobre a estrutura de uma mesma música], e os duelos em que trocamos frases durante os solos.
— Qual a lição mais importante que um pai músico pode passar para um filho que deseja seguir a carreira do pai?
— Acho que a maior lição é trilhar o próprio caminho: manter a chama acesa, a vontade de tocar, a curiosidade por novas possibilidades e por conexões mais amplas entre estilos. Acredito piamente que a música deve sempre ter espaço para o discurso criativo, não importa o estilo ou gênero. E há outra lição, que para mim é a evolução da espécie musical: aprender a explicar nossa profissão para quem não a conhece. Nós, músicos, em geral temos muita dificuldade de explicar o que fazemos e como fazemos dela o nosso sustento, material e espiritual. Espero que a geração do Mathias tenha mais chances de se comunicar com o público, especialmente aqui no Brasil, por meio da música instrumental criativa, que tem uma energia maravilhosa, mas que muita gente nunca teve a oportunidade de entender e apreciar.
— O que as pessoas devem ter em mente quando forem a este show?
— Gostaria que as pessoas não fossem ao show só para ver um pai tocando com o filho, no sentido de “olha que bonitinho…”. Essa é a história por trás do espetáculo, mas no palco vamos falar principalmente de música.
SHOW DANIEL D’ALCANTARA E MATHIAS HINDAL QUINTETO
QUANDO Quinta-feira (22), às 21h
ONDE Jazz B, r. General Jardim, 43, Vila Buarque, São Paulo, tel. (11) 3257-4290
QUANTO De R$ 38,99 a R$ 55
Autor: Folha








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