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Doença pode ser confundida com demência em idosos – 19/10/2026 – Equilíbrio e Saúde

No início de outubro, o cantor estadunidense Billy Joel, 77, revelou ter passado por uma cirurgia no cérebro para tratar uma forma incomum e reversível de demência.

A HPN (hidrocefalia de pressão normal), com a qual o autor de “Piano Man” convivia, muitas vezes tem seus sintomas confundidos com outras formas de perda cognitiva, como Alzheimer, mas tem a particularidade de ser curável caso seja diagnosticada e tratada no momento correto.

A doença é mais comum em indivíduos acima de 60 anos, ocorrendo em média em uma a cada 100 pessoas acima dessa faixa etária.

Ela aparece devido ao aumento anormal do líquor, que protege e nutre o cérebro, nas regiões que o produzem. O aparecimento de seus sintomas é lento, surgindo apenas quando esse líquido passa a comprimir os neurônios. Quanto mais tempo essa condição permanece sem tratamento, maiores são os danos causados no cérebro e, portanto, mais frequentes os sintomas e menor a possibilidade de uma cura total.

“Os principais sintomas dela são alterações na forma de caminhar, com a marcha se tornando mais robótica, a incontinência urinária ou a urgência constante de urinar e o raciocínio mais lento. Nem todas as pessoas com a doença apresentam todos esses sintomas simultaneamente”, explica o neurologista Iron Dangoni Filho, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.

A natureza inespecífica dos sintomas da HPN é um dos principais fatores que contribuem para o diagnóstico tardio.

“Os sintomas que ela traz fazem com que os familiares muitas vezes a confundam com o próprio envelhecimento. Além disso, quando há a preocupação de ir ao médico, é comum que os pacientes busquem outros especialistas, como ortopedistas, urologistas e, sem conscientização, perdemos um tempo que poderia melhorar a resposta de muitos dos pacientes ao tratamento”, adverte Dangoni.

Teste pode indicar necessidade de cirurgia

O diagnóstico da HPN se dá por meio da observação dos sinais clínicos da doença e é comprovado por uma ressonância magnética, que ajuda a identificar as alterações nos ventrículos cerebrais, preenchidos por esse líquor.

Caso o diagnóstico seja feito a tempo, uma cirurgia é realizada e consegue reverter a doença e até levar à cura completa. O procedimento instala uma válvula que permite que o excesso de líquido seja desviado para a barriga, onde é reabsorvido pelo corpo.

O procedimento, porém, é complexo, especialmente em pessoas idosas. Além disso, a cirurgia não é benéfica para todos os pacientes.

“As diretrizes internacionais indicam que na ordem de seis a oito em cada dez pessoas com a doença teriam o benefício da reversão dos sintomas ao realizar a cirurgia. Isso porque a convivência com a HPN ao longo do tempo deteriora as próprias estruturas neurais e, mesmo com o alívio da pressão, não é possível recuperá-las”, explica o neurologista.

Essa avaliação dos benefícios potenciais pode ser feita por meio de um exame chamado Tap test. Ele permite fazer um alívio momentâneo da pressão, com a retirada do líquor por uma punção lombar, técnica muito menos invasiva que a cirurgia.

Após a retirada, avalia-se se o paciente teve melhora em sua marcha e no controle urinário. O exame tem resultados repetidos em até 48 horas depois da primeira punção para avaliar os benefícios de ir ao procedimento definitivo.

Disponível em centros especializados da rede privada no Brasil, o Tap test não está incorporado ao rol de exames que devem ser realizados obrigatoriamente pelos planos de saúde e nem faz parte da lista do SUS (Sistema Único de Saúde). Entretanto, alguns centros de saúde públicos realizam uma análise subjetiva, em que as punções são feitas, mas com avaliações que se baseiam no relato do paciente.

“O Tap test positivo nos dá mais segurança para realizar a cirurgia, já que ele comprova os benefícios. Para nós, como médicos, é uma alegria receber o teste positivo e fazer uma cirurgia exitosa”, comenta o médico do Einstein em Goiânia, onde o exame está disponível de forma completa: a punção é realizada com um conjunto de sensores chamado baiobit, que tornam a avaliação mais objetiva e precisa, padronizando a medição e permitindo observar até benefícios mais sutis do tratamento.

“Na prática clínica da neurologia, convivemos com muitas demências que são progressivas, no máximo controláveis. Ver um paciente que não caminhava se movendo livremente e recuperando suas próprias memórias é uma das experiências mais gratificantes que podemos ter”, completa Iron Dangoni.

No caso do cantor Billy Joel, foi possível fazer a cirurgia que permitiu a reversão dos sintomas. Em seu programa de rádio semanal, ele afirmou que pouco tempo após o procedimento já havia percebido uma melhora na memória e no equilíbrio, e não voltou a ter sintomas da HPN.

“Conhecer o caso de figuras famosas ajuda a trazer mais atenção para a doença e isso pode salvar vidas. Quanto antes o diagnóstico da condição é feito, mais provável é termos resultados de cura após a cirurgia”, afirma o neurologista.

Autor: Folha

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