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Eleições: Por que a bebida está até nas manifestações? – 19/10/2026 – Vida de Alcoólatra

Confesso que as eleições me dão arrepios. Tenho meus candidatos e fico torcendo para que eles ganhem. Por isso encaro meu medo e vou às passeatas. Agora, na reta final, restam apenas dois.

Presto atenção nas falas, nos gritos, nos cartazes. Quero saber o que há por trás deles: que valores as pessoas defendem, o que esperam dos candidatos, até que ponto acreditam nas promessas. Puxo conversa aqui e acolá. Mas não são as respostas que me surpreendem, e sim a quantidade de cervejas consumidas.

Ora, se estamos aqui para discutir o futuro do país, por que a bebida parece tão indispensável?

Faz nove anos que não bebo. Nove anos sem álcool não me transformaram numa santa, muito menos numa especialista em comportamento humano. Mas me deram alguma distância das desculpas que eu mesma usava para beber.

Na passeata, observo os copos passando de mão em mão. Um homem discursa com uma latinha na mão. Uma mulher, enrolada numa bandeira, ri alto enquanto procura mais uma cerveja. Há quem beba para comemorar, quem beba para criar coragem, quem beba porque todo mundo está bebendo. Conheço essas justificativas. Já usei todas. Algumas vezes, inventei outras, muito mais sofisticadas, porque sempre fui boa com as palavras quando precisava esconder de mim mesma o que estava fazendo.

Não julgo quem bebe uma cerveja. Eu mesma bebi muitas. O que me inquieta é o lugar que o álcool ocupa em tudo, como se nenhuma experiência fosse completa sem um copo. Bebe-se pela vitória, pela derrota também, numa passeata em apoio a um candidato. O motivo muda; a bebida fica.

Hoje, quando alguém me oferece uma cerveja, respondo que não bebo. Quase sempre a pessoa insiste. Só uma, não vai fazer mal, você precisa relaxar. Dou um sorriso e digo que estou bem assim. Não explico meus nove anos, não conto minha história, não transformo minha recuperação em assunto. Mas me incomoda ter de justificar uma recusa que deveria bastar.

Ainda sinto certo desconforto diante de tanta bebida. Não é vontade, é memória. Meu corpo lembra de coisas que minha cabeça preferia esquecer. E já aprendi que não preciso testar minha força para provar que estou recuperada. Posso simplesmente ir embora, mudar de assunto ou ficar onde estou, com as mãos livres.

Continuo ouvindo os discursos, lendo os cartazes, perguntando às pessoas por que acreditam neste ou naquele candidato. Quero entender o que pensam, mesmo quando discordo. Foi para isso que saí de casa, mas me descubro prestando mais atenção à bebida que às conversas.

Quando a manifestação termina, volto para casa observando os copos espalhados pelo chão. Não sinto orgulho por não beber, nem pena de quem bebe. Reconheço silenciosamente nos outros hábitos que já foram meus. Sei que cada pessoa tem suas razões, e nem todas aparecem num cartaz.

Nove anos depois, ainda aprendo a conviver com a minha história. Estar no meio da multidão, cercada de cerveja, ainda mexe comigo. Não preciso ir embora nem ficar para provar que posso. Fui à manifestação apoiar um candidato, mas meu foco acabou se deslocando.


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Autor: Folha

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