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Não queremos futebol, queremos a burocracia – 04/11/2026 – Marcelo Bechler

Somos tarados por barulho. No futebol e fora dele. As coisas que importam, no Brasil, ficam em segundo plano para o que é barulhento.

Na campanha eleitoral, os escândalos envolvendo Flávio Bolsonaro (PL) e a atribuição a Lula (PT) do rótulo de ladrão deram o tom da tentativa de convencer o eleitor a se decantar por um lado. O “Exército de Janones” engajou o país para virar votos pelo medo do que o outro lado representava ao país. Ficou totalmente à margem a isenção fiscal de Lula para quem ganha até R$ 5.000, a taxação de empresas que lucram mais de R$ 600 mil por ano e o plano de governo de um ou de outro. Votamos e brigamos com base em tudo que gera ruído, não no que poderá fazer um país melhor para quem mais necessita.

No futebol, vamos pelo mesmo caminho. Sou comentarista de programas diários e preciso saber mais da burocracia do que do jogo. Na segunda-feira (2), a maioria dos programas debateu o pênalti não marcado por Anderson Daronco em Palmeiras e Vasco, o cartão vermelho para Saldivia e a não expulsão de Lescano. E depois disso, mais debate sobre as palavras de Abel Ferreira e de um dirigente vascaíno sobre os mesmos temas.

Durante a semana, gastamos tempo e energia falando da discussão de Seedorf com jornalistas e do pênalti de Moledo contra o Internacional, que as redes sociais querem acreditar que foi intencional.

Debatemos incessantemente o pênalti para o Mirassol no jogo contra a Chapecoense, um lance idêntico ao ocorrido no jogo entre PSG e Barcelona semanas atrás —mas o atacante no torneio europeu fez questão de ficar em pé para jogar, nenhum jogador reclamou e o VAR não interveio. Nada foi marcado e o jogo seguiu. No Brasil, o atacante se jogou, todos pressionaram o árbitro, que foi ao monitor confirmar sua decisão de dar um pênalti em um lance forçado de um atleta que não queria o jogo. Queria a burocracia da regra e o barulho.

Quase não falamos de futebol e não queremos futebol. Queremos que a burocracia nos leva ao resultado. Ninguém está interessado em entender por que o Palmeiras parou de pressionar após fazer 1 a 0 ou qual o motivo de o Vasco não ter jogado com dois pontas rápidos para forçar as transições na partida.

Ninguém quer saber como Seedorf vai preparar o Corinthians com Memphis disponível, mas ocupando uma posição de segundo atacante que hoje não existe no time desenhado pelo técnico holandês, que terá o desafio de encaixar o melhor jogador do time em seu esquema.

Não pensem que sou purista. Eu sei que decisões de arbitragem, jogo de bastidores e narrativas criadas em salas de imprensa são importantes para o jogo. Uma partida de futebol se joga durante toda a semana e é decidida em 90 minutos. Tudo importa. Minha questão é que recusamos todo o resto para focar apenas o que fará mais barulho.

Pergunte em seu ciclo de convivência por que alguém votou em Lula ou por que votou em Flávio Bolsonaro. Veja quem vai apontar ideias para o país como o motivo e quem vai apontar problemas do outro. Pergunte aos seus amigos engajados com futebol o que acharam de Palmeiras x Vasco e como os times se comportaram em campo.

Quantos terão alguma ideia do que responder? Agora, pergunte o que acharam das decisões de arbitragem. Todos sabem opinar. Posso estar errado, mas estou cansado de tanto barulho.


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Autor: Folha

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