Na adolescência, tive minhas primeiras aulas de flauta transversal com João Dias Carrasqueira (1908-2000), o Canarinho da Lapa. No quintal de sua casa, algumas árvores atraíam pássaros que vinham comer os frutos e nos presenteavam com seus cantos. Muitas vezes, meu estimado mestre me pedia que interrompesse os exercícios —certamente minha desafinação era insuportável— e apenas escutasse os passarinhos.
Um senhor cujo nome não recordo, que consertava flautas em uma das salas da casa, às vezes se juntava a mim naquela escuta atenta. Identificava as aves e chamava a atenção para suas proezas sonoras: trinados, glissandos —passagens contínuas entre alturas— de uma rapidez espantosa e melodias de fazer inveja a um bom compositor.
Aquelas pausas também eram aulas de música. Carrasqueira me ensinava a perceber, além do instrumento e da partitura, o que os pássaros tinham a oferecer aos ouvidos. Hoje, uma pesquisa ajuda a compreender algumas das semelhanças entre aqueles cantos e os sons que produzimos.
Uma nota se prolonga ao fim de uma frase. A seguinte surge sem um grande salto entre o grave e o agudo. Os sons se sucedem em intervalos regulares. A descrição poderia servir a uma voz humana, mas também ajuda a entender o canto das aves. Uma pesquisa publicada em 29 de outubro na revista científica Science encontrou padrões comuns nessas duas formas de expressão sonora.
O trabalho analisou mais de 74,5 mil elementos vocais distribuídos em cerca de 5.900 cantos de 367 espécies de aves. Para a comparação, os pesquisadores examinaram mais de 15 mil elementos de fala e canto, organizados em mais de 800 frases de 52 idiomas humanos.
Entre as semelhanças identificadas estão pequenas variações de altura —a passagem entre sons mais graves ou agudos—, ritmos regulares e previsíveis e o prolongamento do último som de uma frase. São características que aproximam vocalizações de espécies distintas, embora não tornem o canto de um pássaro equivalente a uma canção humana.
A pesquisa reuniu cientistas de instituições como a Universidade McGill, no Canadá, e o Imperial College London, no Reino Unido. Parte do material veio do xeno-canto, plataforma que recebe gravações de animais feitas por colaboradores de diferentes países. Registros de campo, disponíveis em um acervo público, permitiram comparar vocalizações em uma escala que ultrapassa a observação de poucas espécies.
Uma das questões centrais era saber se aprender a vocalizar faria diferença nessa aproximação. Aves de grupos como os oscinos, que incluem numerosos pássaros cantores, e os beija-flores aprendem vocalizações ouvindo outros indivíduos. Nos grupos usados para comparação, como os suboscinos e os bacuraus, a produção sonora depende predominantemente de mecanismos inatos.
Como a fala e o canto humanos envolvem aprendizagem, seria plausível esperar maior semelhança com as aves que também aprendem. Os resultados, porém, não mostraram uma relação sistemática entre essa capacidade e os padrões acústicos examinados. A aprendizagem vocal, portanto, não foi uma condição necessária para o aparecimento das semelhanças.
Isso também pede cuidado com uma interpretação sedutora: a de que o estudo provaria que aprendemos a falar e a cantar imitando os pássaros. A comparação não estabelece essa origem. Os resultados apontam para padrões compartilhados e são compatíveis com a hipótese de que limitações e mecanismos de produção vocal favoreçam soluções semelhantes em espécies distintas.
A investigação dialoga com a biomusicologia, campo que aproxima biologia evolutiva, neurociência e estudos da música para compreender as bases da musicalidade. Nesse encontro, perguntas sobre ritmo, memória e aprendizagem ajudam a examinar como organizamos sons e por que essa capacidade ocupa tanto espaço na vida humana.
Outros trabalhos já haviam explorado aproximações entre o canto das aves e procedimentos musicais. Em um artigo publicado em 2021, Tina Roeske, David Rothenberg e David Gammon descreveram como o sabiá-poliglota transforma suas sequências sonoras. Mudanças graduais de timbre, altura e duração lembram o desenvolvimento de variações sobre um tema. A comparação oferece uma ferramenta de análise, sem demonstrar que a ave componha com as mesmas intenções de um músico.
Para quem faz música, essas pesquisas propõem um exercício de escuta. Um canto ouvido no parque pode revelar repetições, pausas e transformações que antes passavam despercebidas. Ao improvisar diante dele, o instrumentista escolhe responder, acompanhar ou deixar espaço. O dueto nasce dessa decisão humana de prestar atenção aos sons de outra espécie.
Ao lembrar das aulas com Carrasqueira, reconheço quanto foi válida a experiência de parar de tocar para ouvir os pássaros. Aquela escuta ampliou minha percepção de ritmos, timbres e frases e me ensinou a dar atenção às pausas. Levo comigo a lição daquele quintal: parte da formação de um músico acontece quando ele silencia o próprio instrumento e se dispõe a escutar.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Autor: Folha








.gif)












