Elas já vieram como brindes em balas, chicletes, salgadinhos e até maços de cigarro. Houve promoções em que cromos especiais podiam ser trocados por prêmios como bicicletas e canetas-tinteiro —também foram lançadas edições em que a difícil tarefa de completar o álbum dava direito a uma recompensa especial. Em ano de Copa do Mundo, é difícil ficar alheio ao mundo do colecionismo dos colantes com os jogadores e os brasões dos escretes que disputam o maior campeonato do futebol mundial.
De olho nesse filão, o jornalista e escritor Marcelo Duarte —curioso profissional reconhecido como o autor do já clássico livro-almanaque “O Guia dos Curiosos”— acaba de lançar “O Álbum dos Álbuns de Figurinhas das Copas”, um resgate afetivo que traz histórias de todas as coleções de figurinhas de Copas de Mundo que circularam no Brasil.
O projeto foi iniciado há cerca de um ano e meio. Duarte, ele próprio colecionador de figurinhas desde a Copa de 1970, quando tinha de cinco para seis anos, contou com a ajuda de cinco grandes colecionadores de álbuns esportivos. “Fiz uma pesquisa e vi que não havia em todo o mundo nenhum livro sobre esse tema.”
Um desses colecionadores é o professor de educação física aposentado Antônio Fiaschi Teixeira, 71. Ele admite que não faz ideia de quantos álbuns acumula. Seus favoritos são os dos anos 1960. “Foi uma época forte no lançamento de diversos álbuns que se tornaram icônicos”, disse. “Gosto muito de aprender sobre a história do futebol, dos clubes e dos jogadores.”
Professor na Fundação Getúlio Vargas e desembargador aposentado no Tribunal de Justiça de São Paulo, Moacir Andrade Peres, 72, foi outra fonte da pesquisa de Duarte. “Colecionei figurinhas de futebol na minha infância e adolescência. Os álbuns se perderam ao longo do tempo. A retomada ocorreu no final da década de 1990, primeiramente, com intuito saudosista e, posteriormente, como forma de preservação da memória futebolística”, afirmou ele, que guarda cerca de 3.000 exemplares, considerando os repetidos.
Para Peres, mais do que a história do futebol, esse resgate ajuda a mostrar a “evolução do design gráfico brasileiro”. Junto com amigos, ele integra o Memofut (Grupo de Literatura e Memória do Futebol), que se reúne mensalmente no Museu do Futebol, em São Paulo.
Cigarros e prêmios
As primeiras figurinhas de Copa do Mundo no Brasil surgiram na época da segunda edição do campeonato, em 1934. A coleção foi batizada de “Team Brasileiro Internacional” e era uma promoção das balas Vênus. Na Copa seguinte, de 1938, iniciativa semelhante foi promovida pela fábricas de cigarros Sudan. Craque da seleção nacional na época, o jogador Leônidas da Silva (1913-2004) —que se sagraria artilheiro do torneio daquele ano— fechou contrato com a marca e teve seu nome e retrato estampados na embalagem do produto.
Mas, se geravam uma mobilização entre torcedores, essas iniciativas ainda não resultavam em álbuns: eram coleções de cromos avulsos. Surgiram em 1950 os primeiros livretos de Copa com espaço para que os adesivos fossem colados. O pioneirismo cabe às balas Futebol, com o icônico “Craques do Campeonato Mundial de Futebol 1950“. “Curiosamente, ele foi lançado depois da Copa do Mundo”, observou Duarte. Então, já havia ali a informação de que o Brasil tinha perdido a final para o Uruguai.
Em um mundo em que a informação chegava muito mais pelo rádio, a curiosidade em ver as imagens da Copa explica o sucesso de um álbum posterior à edição do evento. Tanto que, além dos cromos com as fotos dos jogadores, também havia cenas de gols e de lances icônicos da competição.
Esses álbuns tardios continuaram sendo feitos. A paulistana editora Aquarela, por exemplo, lançaria no final daquela década o álbum “Brasil Campeão Mundial de Futebol 1958”, com as fotos de todo o elenco brasileiro que havia se sagrado vencedor mundial pela primeira vez.
A partir da segunda metade dos anos 1950, foram várias as publicações alusivas ao futebol e à Copa do Mundo —muito diferente da situação atual, proporcionada pelo maior controle de direitos de imagem e por contratos comerciais milionários, como o que garante à Panini a exclusividade. Houve títulos de publicações como “Álbum da História e Desenvolvimento dos Esportes”, “T.V. Bóll”, “Álbum Esportivo Quigol” e “Coleção Pé de Ouro”.
Cada vez mais se tornavam comuns álbuns atrelados a concursos, com promessa de prêmios para quem completasse toda a coleção, como brinquedos e liquidificadores. Para dificultar a tarefa, as editoras imprimiam um número menor de alguns cromos específicos —eram as figurinhas carimbadas, raras e muito disputadas.
Em 1971, uma lei federal proibiu a artimanha. Desde então, por lei, todas as figurinhas têm de ser impressas na mesma quantidade.
Ufanismo oficial
O primeiro contato de Marcelo Duarte com um álbum foi na Copa de 1970. Ele desconfia que o hobby era mais do pai do que dele, porque o então garotinho era proibido de tentar colar os cromos, para que tudo ficasse direitinho. Era uma época em que as figurinhas não eram autocolantes. Precisavam ser fixadas com cola —e o pai do jornalista usava goma arábica.
A paixão pelo universo dos álbuns aumentou na vida de Duarte quando ele leu, ainda na infância, o livro “O Gênio do Crime“, best-seller infantojuvenil escrito por João Carlos Marinho (1935-2019) e publicado pela primeira vez em 1969. Em um misto de referência e homenagem à obra, o próprio Marcelo Duarte escreveu um livro infantojuvenil chamado “O Mistério da Figurinha Dourada”, lançado em 2018.
Nos anos 1970, conforme resgata o livro, o clima de ufanismo da ditadura se misturou aos álbuns, que também traziam inscrições de slogans do regime como “Ninguém segura esse país” e “Brasil: ame-o ou deixe-o”, páginas dedicadas às Forças Armadas, fotos de autoridades federais junto a jogadores e até frases como “Colabore com nosso governo”.
Hegemonia
O cenário atual veio com a profissionalização do mercado. Criada em 1961 na Itália, a editora Panini lançou seu primeiro álbum em 1970, ainda na Europa, e chegou ao Brasil em 1989, fazendo parceria com a editora Abril —nesse formato, foram lançados os álbuns de 1990 e 1994. Em 1998, a gigante marca italiana passou a ser a única detentora dos direitos de publicar os álbuns oficiais das Copas no Brasil.
Uma curiosidade trazida pelo livro de Duarte responde a uma questão recorrente entre os colecionadores de figurinhas da Copa do Mundo: quem é o jogador que aparece dando um voleio na capa dos álbuns da Panini? Trata-se de Carlo Parola (1921-2000), zagueiro que integrou o time italiano que disputou a Copa de 1950. A imagem foi criada a partir de uma fotografia feita pelo fotojornalista Corrado Banchi (1912-1999), que cobria a partida Juventus x Fiorentina em 15 de janeiro de 1950 para o jornal Calcio Illustrato.
Autor: Folha








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