A disputa histórica entre Argentina e Reino Unido pela soberania das Ilhas Malvinas, ou Falklands, como são chamadas pelos britânicos, voltou ao debate geopolítico.
Um e-mail interno do Pentágono, vazado e divulgado pela agência de notícias Reuters, revelou que o governo de Donald Trump poderia revisar sua posição sobre o território. Seria uma forma de pressionar aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em particular o Reino Unido.
A possível mudança de postura de Washington seria uma resposta à frustração do governo de Donald Trump com a falta de apoio de países europeus às operações militares americanas no conflito contra o Irã.
Além do Reino Unido, poderiam ocorrer possíveis sanções à Espanha, governada pelo socialista Pedro Sánchez, com a suspensão do país ibérico da aliança militar ocidental.
Atualmente, o Departamento de Estado dos EUA trata a questão das Malvinas como um tema bilateral a ser resolvido entre Argentina e Reino Unido. O país reconhece a administração de fato dos britânicos. Não há, contudo, uma tomada de posição explícita sobre a soberania do território.
Na visão de Cezar Roedel, doutor em Filosofia e mestre em Relações Internacionais, essa é uma questão mais diplomática do que prática. “É possível que, nas próximas entrevistas de imprensa, o Trump fale disso porque, muitas vezes, ele faz uma escalada diplomática. Em termos simbólicos, é bem importante”, afirma.
Neste contexto, o e-mail vazado sugere uma possível reavaliação desse apoio diplomático a antigas “possessões imperiais” europeias.
Consequências práticas: Trump, Ilhas Malvinas e Reino Unido
A estratégia norte-americana seria fazer com que os aliados da Otan passem a contribuir de forma mais ativa nas defesas globais e “façam a sua parte”. Seria uma maneira de esses países deixarem de ser apenas “figuras decorativas”, segundo o secretário de imprensa do Pentágono, Kingsley Wilson.
Apesar disso, uma mudança de postura e maior apoio do Reino Unido e até mesmo de outros aliados europeus seria algo improvável no momento, na visão de Cezar Roedel.
“Inicialmente, isso não deve acontecer. O governo britânico tem um posicionamento claro, e os líderes europeus, em sua totalidade, não apoiam essa guerra. Observamos uma perda de liderança na Europa, com líderes que não estão preparados para essa hard politics [política de força e coerção]”, explica o especialista.
Ele também pondera que o documento vazado serve mais como um alerta do que como um ultimato.
“Mesmo que tenha ocorrido esse vazamento, o conteúdo é muito vago. É apenas de uma possibilidade de rever o posicionamento diplomático. Pode ter sido uma espécie de recado de Washington, mas não acredito que seja um recado forte o suficiente para fazer com que o Reino Unido mude seu posicionamento militar”, conclui.
Resposta do Reino Unido sobre Ilhas Falklands
Em Londres, o governo do primeiro-ministro Keir Starmer deixou claro que não pretende ceder à pressão diplomática sobre seus territórios.
O porta-voz oficial do primeiro-ministro disse que a posição do Reino Unido em relação às Ilhas Falklands (ou Malvinas, para os argentinos) “é algo antigo, permanece inalterado. A soberania pertence ao Reino Unido e a autodeterminação é fundamental”.
“As Ilhas Malvinas já votaram esmagadoramente a favor de permanecerem [como britânicas]”, completou, referindo-se a um referendo com a população da ilha, realizado em 2013. A autoridade acrescentou ainda que essa tem sido uma posição consistente, expressada a sucessivas administrações americanas.
Reivindicação e alinhamento na Argentina
Na Argentina, a notícia foi recebida com entusiasmo pelo governo de Javier Milei, aliado de Donald Trump. O presidente argentino aproveitou o momento para reforçar a reivindicação histórica do país sul-americano.
“As Malvinas foram, são e sempre serão argentinas”, publicou Milei em suas redes sociais, endossando as palavras de seu chanceler, Pablo Quirno.
O ministro das Relações Exteriores da Argentina rejeitou publicamente a “invocação britânica do princípio de livre determinação dos povos”. Ele argumentou que a ocupação de 1833 foi um “ato de força contrário ao direito internacional vigente à época” e que instaurou uma situação colonial.
Quirno defendeu a retomada das negociações bilaterais com Londres e declarou que os atuais habitantes das ilhas nunca foram reconhecidos como um “povo” pelas Nações Unidas, invalidando, na visão argentina, o referendo de 2013.
A vice-presidente argentina, Victoria Villarruel, também se manifestou na mesma linha, enfatizando que “hoje mais do que nunca, Malvinas Argentinas”. Ela ressaltou que a disputa é entre Estados, justificando que “os kelpers [habitantes das ilhas] são ingleses que vivem em território argentino, não são parte da discussão”.
Na prática, segundo Cezar Roedel, a questão acaba sendo um ganho político para Milei. “Os argentinos têm um sentimento muito nacionalista em relação às Malvinas. [Uma eventual retirada de apoio norte-americano ao Reino Unido] seria um elemento importante para aquecer à base do Milei”, afirma. O especialista destaca ainda que isso amplia a esfera de influência norte-americana e enfraquece a da China, que tem interesses comerciais e investimentos em solo argentino.
As Ilhas Malvinas e a “nova doutrina” do governo Trump
Além da questão diplomática e simbólica, Cezar Roedel também identifica que a pressão sobre o Reino Unido reflete, na verdade, parte da nova visão dos Estados Unidos para o continente americano como um todo.
“Historicamente, desde a década de 1980, os EUA sempre mantiveram o apoio à administração britânica nas Ilhas Falklands. Mas agora temos que considerar dois elementos importantes: a virada histórica na Argentina, que traz Javier Milei como um aliado crucial de Washington, e a nova estratégia de segurança nacional dos EUA, que coloca a América Latina como pivô estratégico da política internacional. Essa doutrina coloca as Américas como prioridade”, analisa Roedel.
Dentro dessa nova configuração de alianças promovida pelo governo de Donald Trump, a Argentina ganha um status de parceira preferencial na região, preenchendo um vácuo geopolítico.
“Tudo isso se insere no campo estratégico e nessa nova doutrina de segurança. Hoje, os aliados principais dos EUA na região são a Argentina e o Paraguai. O Brasil, neste momento, acaba ficando de fora”, pontua o especialista.

Roedel destaca ainda que os movimentos americanos não se restringem aos e-mails vazados, mas envolvem demonstrações clássicas de poderio militar e diplomático na região. Ele lembra que os Estados Unidos estão reativando a 4ª Frota Naval (responsável pelas operações no Caribe e nas Américas Central e do Sul). “A passagem de um porta-aviões nuclear pela América do Sul, por exemplo, é um recado diplomático e estratégico claro”, diz.
Histórico do conflito das Ilhas Malvinas/Falklands
A tensão reacende memórias de um dos episódios mais marcantes da história recente da América do Sul. Em 1982, Argentina e Reino Unido travaram uma breve, porém intensa, guerra pela soberania do arquipélago. Foram cerca de 650 soldados argentinos e 255 militares britânicos mortos em dois meses de conflito.
A guerra teve início após uma tentativa da Argentina, então sob regime militar, de retomar o controle das ilhas à força. A resposta britânica, liderada pela então primeira-ministra Margaret Thatcher, resultou no envio de uma força-tarefa naval que recuperou o território após semanas de combates no Atlântico Sul.
Desde então, a ferida diplomática permanece aberta, sendo um tema quase unânime de sentimento nacionalista na Argentina e de defesa à soberania no Reino Unido.
Autor: Gazeta do Povo








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