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Sobriedade: como parei de buscar aprovação alheia – 27/04/2026 – Vida de Alcoólatra

No comecinho da minha recuperação, lá pelos primeiros meses, queria que as pessoas reconhecessem meu mérito por não estar bebendo. Então mostrava minha ficha de AA referente a um mês sóbria no grupo de WhatsApp da família e esperava os cumprimentos. Ah, explico: o AA nos dá uma ficha, um marco simbólico que vai acompanhando os aniversários. Assim que ingressamos, recebemos uma ficha que simboliza a vontade de parar de beber. O bonito em AA é que não somos obrigados a nada. Nem a parar de beber. Somos convidados a participar das reuniões e escutar os depoimentos.

Ouvi dizer que a ficha, lá no começo do século 20, era uma ficha de orelhão: se a pessoa tivesse vontade de beber, ela usava a ficha para ligar para um companheiro de sala que pudesse ajudá-la. Não consegui confirmar se procede, mas gosto dessa versão. Orelhão, para quem não sabe, era um telefone público que ficava espalhado pela cidade.

Mas não quero desviar meu foco, o que é beeeem recorrente comigo. Eu só via valor na minha abstinência se eu recebesse os parabéns dos mais próximos. Isso durou um tempo. Na cerimônia da entrega da minha ficha de um ano, chamei meus irmãos e meus pais para celebrarem meu sucesso. Depois disso, só convidei alguém quando completei sete anos: meu pai. Alcoólatra, hoje sóbrio, ele se emocionou bastante.

Ao contrário do que acontecia em vários outros campos, lá, na irmandade, eu não sentia necessidade de me comparar com ninguém. Eu simplesmente me sentia, e ainda me sinto, feliz com minha trajetória. Acho que, no início, é natural querer o reconhecimento dos outros. Afinal, todos reconheciam (torcendo o nariz) quando me viam de porre fazendo besteira. Mas a verdade é que parar de beber foi um ganho pessoal. Não foi para agradar meu ex-namorado, minha mãe, meus amigos…

Compreender isso só foi possível com o autoconhecimento que resultou dos anos de abstinência. Ninguém melhor que eu sei que é acordar sem ressaca, lembrar de tudo que fiz na véspera, não ficar com hematomas cuja causa eu desconheço. Mas isso leva um tempo.

E não é fácil. Olhar para dentro de si é uma das coisas mais difíceis que existem, mas faço esse exercício diariamente. Foi por isso que aceitei prontamente uma sugestão do meu terapeuta: não perder tanto tempo no Instagram. Aquela rede é um mundo de aparências, um recorte positivo da vida dos outros, uma armadilha para quem tem o hábito de ficar se comparando e se achando a pior de todas.

A busca por likes em posts soa como a expectativa que eu tinha no começo da recuperação, quando precisava que os outros me aplaudissem. Por isso recuo e regulo meu tempo naquele mundo virtual.

Não posso, por razões de trabalho, deixar de conferir os posts pelo menos uma vez por dia. Mas navegar por horas e horas me desvia da pilha de livros que eu tenho para ler, do meu cachorro que quer brincar, de tanta coisa que pode ser feita.

Estar em sobriedade é, sobretudo, aceitar as sugestões alheias e não rebater de pronto, como era meu costume. Escutar, acolher, vale muito mais do que falar. Mesmo sem ninguém aplaudir.


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Autor: Folha

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