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Vale tudo na ciência? – 28/04/2026 – Bruno Gualano

A homeopatia é ciência? E a psicanálise? A pesquisa da polilaminina segue o chamado rito científico? E a da cloroquina, durante a pandemia? Debater seriamente questões como essas pressupõe uma concepção filosófica do que seja ciência. E sobre isso há divergências legítimas.

Tomemos Paul Feyerabend, para quem não existe critério universal capaz de explicar —e menos ainda normatizar— o desenvolvimento da ciência. O filósofo austríaco sustenta que grandes avanços científicos ocorreram não apesar, mas frequentemente em virtude da violação de regras metodológicas.

Diante do que considera a inabilidade das metodologias racionalistas de explicar o progresso científico — crítica sobretudo a Karl Popper, arquiteto da versão mais “popular” do método científico— Feyerabend arremata: na ciência, “vale tudo” (anything goes).

A ideia sugere que o valor de uma teoria se decide por seus resultados históricos, não por obediência a cartilhas metodológicas. O heliocentrismo de Galileu enfrentava sérias dificuldades empíricas antes de encontrar, após décadas, sustentação na mecânica de Newton. A evolução de Darwin carecia de um mecanismo hereditário plausível até a redescoberta das leis de Mendel, já no início do século 20. São exemplos de que teorias fortes podem florescer de evidências imperfeitas.

À maneira de Feyerabend, programas de pesquisa como o da polilaminina não se julgam por um sistema único de métodos, mas pelo veredito lento da história: um processo em que a hipótese se revela —ou não— empiricamente fértil, útil na prática e integrada à ciência.

O pluralismo feyerabendiano tem o mérito de frear a pretensão de primazia da ciência e lembrar que o conhecimento humano não se esgota no laboratório.

Saberes práticos, tradicionais e experienciais —desdenhados pelo establishment científico— também iluminam a realidade. É sugestivo que um dos textos mais perspicazes sobre a polilaminina seja assinado por Marcelo Rubens Paiva, um escritor literário.

A postura cientificista fragiliza a democracia ao substituir a deliberação plural pela tecnocracia; rebaixa as humanidades, tratadas como saberes de segunda ordem; e corrói a credibilidade da ciência ao convocá-la a responder perguntas que não lhe cabem, como o sentido da vida ou a existência de Deus.

Mas Paul Feyerabend mina a própria tese ao ancorá-la em maus exemplos. Na ânsia de demolir o método, equipara práticas médicas alternativas, astrologia e até o vodu a teorias científicas consolidadas. Com isso, converte uma crítica legítima à soberba científica em reabilitação de práticas charlatanescas. E ao dissolver distinções cruciais entre pluralismo intelectual e permissivismo cognitivo, acaba por municiar o negacionismo.

Para o filósofo Massimo Pigliucci, o problema não está em submeter a ciência ao escrutínio público, mas em confundir esse exercício com a “democratização da expertise”. Pigliucci nos recorda que não decidimos por assembleia como realizar uma cirurgia cerebral, consertar um motor ou projetar uma ponte. Não se trata de elitismo —sociedades complexas dependem de uma divisão do trabalho especializada. Especialistas são falíveis e devem ser criticados, mas seguem sendo nossa melhor aposta. Sem eles, decisões informadas pela ciência cedem lugar a opiniões infundadas, com custos sociais elevados —vide o negacionismo climático e o movimento antivacina.

Como Pigliucci, creio que a melhor ferramenta de que dispomos para compreender o mundo é a ciência. Isso não significa, contudo, que ela esteja imune a considerações morais e políticas. Precisamente pelo prestígio social de que goza, deve ser publicamente responsável, eticamente vigiada e epistemicamente humilde. Nisso Feyerabend, o anárquico, tinha razão.


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Autor: Folha

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