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Ataque a Trump vira arma eleitoral republicana contra democratas

A Casa Branca e representantes do Partido Republicano culparam o que chamaram de “retórica de ódio” dos democratas pelo aumento da violência política nos Estados Unidos, após a tentativa de assassinato contra o presidente Donald Trump e membros de seu governo na noite de sábado (25), durante o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, em Washington. O ataque ocorre meses antes das eleições legislativas de novembro e pode se tornar um divisor de águas para a campanha republicana, atualmente atrás nas pesquisas.

Em coletiva nesta segunda-feira (27), a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que “a violência política” em curso nos EUA contra o governo Trump “decorre de uma demonização sistêmica” do líder republicano e de seus apoiadores “por comentaristas e por membros eleitos do Partido Democrata”.

Segundo a porta-voz, a retórica, que por vezes até compara o presidente Trump ao ditador nazista a Adolf Hitler, estaria “alimentando esse tipo de violência” armada no país e “fazendo a cabeça de indivíduos mentalmente perturbados”.

No final de semana, horas após o atentado de sábado, Joe Gruters, presidente do Comitê Nacional Republicano (RNC), classificou o ataque como “o resultado inevitável de uma esquerda radicalizada” nos EUA “que normalizou a violência política”.

Em entrevista ao programa “60 Minutes”, da emissora CBS, nesse domingo (26), o próprio presidente Trump declarou que “o discurso de ódio dos democratas é muito perigoso”.

Indiciado pelo ataque escreveu manifesto contra Trump

O ataque de sábado foi perpetrado, segundo autoridades, por Cole Tomas Allen, de 31 anos. Ele foi detido no local do atentado, o Washington Hilton, depois de avançar sobre um posto de segurança do Serviço Secreto.

Allen estava, segundo as autoridades, armado com uma espingarda calibre 12, uma pistola semiautomática e três facas. Um agente federal chegou a ser atingido durante o atentado, mas o projétil disparado contra ele atingiu o colete à prova de balas e o agente recebeu alta horas depois. Trump, a primeira-dama Melania Trump, o vice-presidente J.D. Vance e outras autoridades foram retirados do salão pelo Serviço Secreto.

Nesta segunda-feira, Allen foi formalmente acusado de tentativa de assassinato do presidente, transporte de arma de fogo com intenção de cometer crime e disparo de arma durante crime violento. Se condenado, pode pegar prisão perpétua.

Antes do ataque, informações da imprensa americana mostraram que ele teria enviado à família um manifesto em que se autodenominava “Assassino Federal Amigável” e descrevia uma lista de alvos prioritários no alto escalão do governo. O texto possui viés explicitamente anti-Trump e anticristão.

Registros da Comissão Eleitoral Federal indicam que o atirador doou US$ 25 à campanha de Kamala Harris – então candidata à Presidência do Partido Democrata – em 2024 e participou de protestos do movimento progressista The Wide Awakes.

Ataques da extrema-esquerda quadruplicaram nos EUA

Essa foi a terceira vez em menos de dois anos que Trump foi alvo de uma tentativa de assassinato. Em julho de 2024, durante a campanha presidencial, o então candidato republicano foi atingido na orelha durante um comício em Butler, na Pensilvânia. Este ataque deixou um civil morto. Em setembro do mesmo ano, um homem foi preso em West Palm Beach, na Flórida, ao ser flagrado armado próximo ao campo de golfe onde Trump estava.

Estudo do think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) publicado em setembro de 2025, dias após o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk, mostrou que 2025 marcou a primeira vez em mais de 30 anos que ataques e planos terroristas de extrema esquerda superaram os da chamada “direita radical” nos Estados Unidos. Entre 2016 e 2024, a média anual de incidentes extremistas ligados ao espectro esquerdista quadruplicou em relação à década anterior, passando de 1,3 para 4 por ano.

Pesquisa do Pew Research Center divulgada em outubro de 2025 mostra que 85% dos americanos consideram que a violência politicamente motivada está aumentando no país. Entre os republicanos, 16% citam a retórica de democratas e outros representantes progressistas contra conservadores como a principal causa. Entre os democratas, 28% mencionam espontaneamente a “retórica de Trump” do movimento MAGA (Faça a América Grande Novamente) ou de conservadores como causa principal.

Do lado democrata, o líder da minoria na Câmara, Hakeem Jeffries, condenou o ataque de sábado e afirmou à Fox News que “violência nunca é a resposta, esteja ela voltada à direita, à esquerda ou ao centro”.

O ex-presidente democrata Barack Obama também publicou nota nas redes sociais pedindo aos americanos que “rejeitem a ideia de que a violência tem qualquer lugar em nossa democracia”.

Comoção vira pauta eleitoral no discurso republicano

O atentado de sábado ocorre em um momento politicamente delicado para o governo Trump. Levantamento recente feito pela agência Associated Press junto do instituto NORC, ligado à Universidade de Chicago, registrou desaprovação de 67% do governo Trump.

Nas projeções sobre quem terá maioria no Congresso (Câmara e Senado) após as eleições legislativas de novembro, os democratas aparecem à frente dos republicanos em diversas pesquisas recentemente divulgadas.

Levantamento feito pela emissora Fox News, conduzido pelo Beacon Research/Shaw & Company Research entre os dias 17 e 20 de abril, aponta vantagem democrata de 5 pontos percentuais (52% a 47%). Pesquisa do instituto YouGov para a revista The Economist, realizada no mesmo período, registra dianteira de 5 pontos (45% a 40%) para os democratas. Já levantamento da Ipsos para a agência Reuters, realizado entre os dias 15 e 20 de abril, indica vantagem de 3 pontos (41% a 38%).

Neste cenário, os republicanos já estão tentando capitalizar politicamente o ataque realizado contra Trump no sábado. De olho na disputa legislativa, perfis oficiais do partido nas redes sociais passaram a pressionar publicamente candidatos democratas em estados considerados decisivos para o controle do Senado (Maine, Michigan, North Carolina e Georgia) cobrando posicionamentos sobre a violência política contra conservadores.

O Comitê Nacional Senatorial Republicano (NRSC), braço de campanha do partido para a disputa do Senado em novembro, acusou, em post feito na rede X neste domingo, candidatos democratas de “alimentar o ódio” que culminou no ataque de sábado.

O NRSC publicou em seu perfil um vídeo com uma declaração violenta contra opositores do pré-candidato democrata ao Senado por Michigan, Abdul El-Sayed, falando que “quando eles forem baixos (os opositores), nós não vamos alto. Nós os arrastaremos para a lama e os sufocaremos”. A frase foi uma releitura do lema da ex-primeira-dama Michelle Obama na convenção democrata de 2016: “Quando eles vão baixo, nós vamos alto”, até então usada como apelo à elevação do debate político.

Diferentemente da Câmara, em que os cenários apontam para uma maioria democrata, a disputa pelo Senado parece mais acirrada. Atualmente, das 35 cadeiras em disputa na eleição de novembro, 22 pertencem aos republicanos e 13 aos democratas. Em tese, isso amplia o risco para os republicanos, já que precisam defender mais vagas. Contudo, cerca de 20 das 22 cadeiras republicanas em disputa estão em estados que Trump venceu na eleição presidencial de 2024, segundo levantamento da Council for a Livable World, organização americana de análise política e segurança internacional.

No entanto, o cientista político Nolan Higdon, especialista em mídia e democracia, avaliou em entrevista a uma emissora afiliada da rede Fox que o atentado ocorrido no sábado dificilmente reverterá a tendência negativa nas pesquisas para Trump.

“Boa parte das críticas à administração vem de coisas que o presidente Trump simplesmente não consegue mudar com rapidez neste momento. Há frustração com o que está acontecendo no Irã. Há frustração com a economia. Essas são questões que provavelmente persistirão até as midterms (eleições de meio de mandato de novembro)”, disse.

Na visão de Ricardo Caichiolo, professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília, o atentado de sábado deve gerar uma onda imediata de solidariedade a Trump, mas dificilmente poderá reverter o quadro adverso ao governo até novembro, quando serão realizadas as midterms.

“O impacto político real dependerá da percepção de estabilidade do governo frente às tensões com o Irã”, disse o analista, acrescentando que, nesse cenário, o atentado de sábado pode apenas amenizar eventuais perdas republicanas nas eleições de meio de mandato, em vez de assegurar vitórias aos candidatos do Partido Republicano.

Caichiolo avalia que o ataque tende a impulsionar a agenda de lei e ordem defendida pela Casa Branca e a mobilizar a base conservadora, que enxerga em Trump uma figura de resistência. Mas o eleitor independente – historicamente decisivo em estados-chave como Geórgia, Carolina do Norte e Michigan – pode reagir em sentido contrário.

“Eleitores independentes tendem a reagir com cautela, possivelmente associando o episódio à instabilidade política crônica e buscando alternativas que prometam maior normalidade institucional”, diz o professor.

Em 2002, o Partido Republicano contrariou a tendência histórica das eleições de meio de mandato e ampliou sua força no Congresso durante o primeiro mandato do presidente George Bush, impulsionado pelo clima de unidade nacional após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Para Caichiolo, porém, o paralelo com o momento atual, de violência política contra Trump, tem limites.

“Embora o precedente de 2002 mostre que crises de segurança podem favorecer o governo, o cenário atual carece da unidade nacional vista após o 11 de setembro. Com o país profundamente fragmentado, o impacto do atentado pode ser insuficiente para reverter a tendência histórica de perda de cadeiras para o partido do presidente”, avaliou.

Autor: Gazeta do Povo

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