Quando a NJ Transit (New Jersey Transit Corporation) anunciou neste mês que as passagens de trem para o MetLife Stadium para a Copa do Mundo custariam US$ 150 (R$ 750) —mais de dez vezes o preço normal—, os torcedores ficaram indignados. A notícia deu início a uma batalha entre autoridades locais e a Fifa (Federação Internacional de Futebol), entidade máxima do futebol, sobre quem deveria arcar com os custos de segurança e transporte.
Mas, enquanto políticos discutiam com os organizadores, uma ideia alternativa ganhava força online: por que, questionavam alguns torcedores europeus, eles não poderiam simplesmente ir a pé até o MetLife Stadium (onde o Brasil fará sua estreia, contra Marrocos)? Certamente um estádio perto da cidade de Nova York receberia pedestres de braços abertos.
“Eu sei que caminhar é um conceito desconhecido para a maioria dos americanos, mas é algo comum no resto do mundo”, dizia a publicação original na plataforma social X em 17 de abril.
Pouco importa que a Fifa tenha proibido o acesso de pedestres, ou que o passeio cênico possa envolver atravessar rodovias interestaduais e caminhar pelos pântanos ao redor do estádio, onde um dia se acreditou que Jimmy Hoffa estivesse enterrado.
Mesmo assim, Jean P.D. Meijer, um engenheiro de design holandês de 29 anos que mora em Groningen, na Holanda, reforçou sua posição no X, dizendo: “Vocês realmente acham que os torcedores de futebol se importam? Vai ser como uma horda de zumbis abrindo caminho, vocês não vão conseguir dirigir nessas estradas”.
“Muita gente estava dizendo que é completamente impossível ir a pé até lá. Não é —não que seja uma boa ideia—, mas meio que parecia essa mentalidade de simplesmente desistir porque você acha que é muito difícil”, disse Meijer, que não planeja ir à Copa do Mundo.
Embora não estivesse claro se aqueles que comentaram online realmente seguiriam o conselho ao se deparar com os pântanos, rodovias e motoristas de Nova Jersey, os americanos rapidamente alertaram contra ir a pé até o MetLife Stadium.
Sim, tecnicamente é uma distância que pode ser percorrida a pé: vários quilômetros entre Rutherford, Nova Jersey (onde fica uma estação de trem próxima) e o MetLife Stadium, dependendo do trajeto, e, para os mais atléticos, cerca de 16 quilômetros de Manhattan até o MetLife.
Mas uma rota a pé é, no mínimo, assustadora e, talvez, impossível, argumentaram algumas pessoas online —um repórter do New York Times tentou em 2013.
“Não são 8 ou 16 quilômetros que se possa percorrer a pé”, disse Tiesyn Harris, uma criadora de conteúdo para redes sociais de 22 anos da Carolina do Norte que já visitou Nova York e cujo vídeo no TikTok sobre o debate teve mais de 3,3 milhões de visualizações.
“Imagine tentar caminhar na I-95, uma das rodovias mais perigosas dos Estados Unidos, ou tentar atravessar o Meadowlands, ou pântanos ou esses córregos tóxicos com altos níveis de mercúrio e outras substâncias nocivas.”
Enquanto o debate online se intensificava —aparentemente alimentado principalmente por pessoas que nem sequer planejavam comparecer ao evento—, o Comitê Organizador de Nova York/Nova Jersey foi forçado a se pronunciar, emitindo um comunicado na semana passada aconselhando veementemente que os torcedores não vão ao estádio a pé.
“Esses são corredores movimentados e de alto tráfego, onde caminhar representa sérios riscos tanto para pedestres quanto para motoristas”, dizia o comunicado.
Tony Vernal, um morador do Brooklyn de 48 anos, disse que, apesar do aumento da tarifa, planejava usar o NJ Transit para assistir à partida entre Noruega e Senegal com seu filho de oito anos. “Estou esperando para ver se Nova Jersey recua nesse aumento absurdo de US$ 150”, disse ele. “Mas, com uma criança, vou optar pela opção mais fácil, que é o trem.”
“Não há como ir a pé até o estádio”, acrescentou. “É uma armadilha mortal. Você vai andar pela Pulaski Skyway? Não, é uma péssima ideia.”
Ainda assim, Vernal disse que não se importaria de ver alguns europeus arriscarem. “Fiquem à vontade para tentar”, disse ele. “Eu incentivo esse tipo de transgressão.”
Se é tecnicamente possível ir a pé até a MetLife, talvez seja irrelevante. O debate se encaixa em uma tendência maior de americanos e europeus discutindo nas redes sociais sobre diferenças culturais, reais ou imaginárias. Eles discutem sobre a cultura da sauna, sobre hidratação e sobre como segurar os talheres.
Os americanos criticam os europeus por não investir em ar-condicionado, por fumar tanto e por cobrar pelo uso dos banheiros.
Os europeus acusam os americanos de falar muito alto, de fazer generalizações sobre a Europa como um todo e, claro, de dirigir para todo lugar. Os dois grupos chegam a ponderar o resultado de hipotéticos confrontos físicos —quem venceria uma briga: cem britânicos ou cem americanos?
Jamaal Burkmar, coreógrafo e criador de conteúdo britânico que publicou um vídeo no TikTok sobre o debate, afirmou em um email que as discussões que colocam europeus contra americanos frequentemente surgem de uma “tendência crescente à defensiva cultural online”.
“Críticas legítimas —sobre custos, infraestrutura e acessibilidade em torno de um evento global como a Copa do Mundo— são descartadas com uma resposta generalizada contra ‘esses europeus’”, escreveu ele.
“Já viajei para um país em cada continente e nunca deixei de ter dificuldades com o transporte público no primeiro dia. É realmente tão estranho que os europeus não soubessem o caminho para o MetLife Stadium?”, questionou.
Autor: Folha








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