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Gisele Bündchen reacende debate sobre veganismo – 05/05/2026 – Equilíbrio

A repercussão de que a modelo Gisele Bündchen teria deixado o veganismo reacendeu o debate sobre a viabilidade nutricional de uma alimentação baseada em vegetais e sobre os fatores que levam uma pessoa a abandonar esse padrão alimentar.

A declaração, porém, não é nova. Foi escrita no livro “Nutrir: Receitas Simples para Corpo e Alma”, lançado no Brasil há dois anos, onde ela relata que tentou seguir uma dieta vegetariana aos 20 anos, mas não conseguiu mantê-la devido a um quadro persistente de anemia.

O nutrólogo Eric Slywitch explica que não há evidências de prevalência maior de anemia em pessoas que não consomem carne. Em estudo de sua autoria, a única diferença relevante foi observada em vegetarianas que menstruam —grupo mais exposto à perda de ferro.

O ferro heme, presente nas carnes, tem uma melhor absorção por não sofrer interferência de outros alimentos no organismo. Por isso, Slywitch recomenda consumir uma fonte de vitamina C junto com alimentos ricos em ferro vegetal para otimizar a absorção.

A nutróloga Marcella Garcez afirma que, hoje, a medicina e os suplementos disponíveis permitem manter uma dieta vegana sem comprometer a saúde.

Ela ressalta que, embora seja possível obter ferro de vegetais com estratégias certas, a suplementação serve para garantir que o paciente não tenha carências que levem a anemia. “Tanto o ferro quanto a vitamina B12 são absolutamente necessários para você ter uma saúde hematológica, ou seja, não ter risco de anemia”, afirma a médica.

A vitamina B12 não é encontrada em alimentos de origem vegetal e deve ser obtida por suplementação, segundo os especialistas.

O debate sobre nutrição e dietas vegetais ganhou novo fôlego com a obsessão recente por proteína e o avanço de recomendações que incentivam o consumo de carne. As novas diretrizes alimentares dos Estados Unidos —pautadas pelo movimento MAHA (Make America Healthy Again)— recomendam aumentar o consumo de carne vermelha, na contramão do relatório global de referência em alimentação.

Para a nutricionista Alessandra Luglio, diretora do Departamento de Saúde e Nutrição da SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira), a obsessão por proteína atrapalha o movimento das dietas à base de vegetais. “As pessoas culturalmente não têm o conhecimento e nem o hábito de reconhecer os alimentos vegetais como fontes de proteínas.”

Ela afirma que uma dieta vegana planejada, que inclua leguminosas, vegetais e sementes, alcança a quantidade diária de proteína necessária para se manter saudável. Slywitch acrescenta que, se necessário, também há suplementos proteicos de origem vegetal, assim como existe o whey protein, de origem animal.

Uma das dificuldades de manter uma alimentação à base de vegetais, diz Garcez, é a falta de conhecimento básico para manter uma alimentação balanceada, que forneça todos os nutrientes necessários. Outra questão apontada por ela é a logística: quem tem que comer fora de casa frequentemente não consegue preparar as próprias refeições.

Um levantamento feito em 2014 pelo Human Research Council (atual Faunalytics) com 11 mil ex-vegetarianos e ex-veganos constatou que 84% das pessoas que adotam essas dietas acaba voltando a consumir produtos de origem animal. Segundo a pesquisa, o custo social de “viver fora da norma” é o maior obstáculo para a manutenção do veganismo, sendo que 63% não gostavam de ser vistos como diferentes devido à dieta.

Esse foi o caso da analista financeira Bruna Siqueira Sobrinho, 39. Ela foi vegana durante dois anos e relata que, nesse período, sua saúde era excelente. Ela fazia acompanhamento profissional, suplementava vitamina B12 e, devido aos treinos pesados, utilizava proteína vegetal. Mesmo se sentindo bem, conta que o isolamento social e a dificuldade que encontrava quando estava em festas e restaurantes fizeram com que repensasse seus hábitos.

“Eu decidi ser um pouco menos restrita, eu não voltei a comer carne e priorizo sempre o que for vegano”, diz. “Mas se eu estou em algum lugar em que eu não tenha muita opção, acabo comendo leite ou ovo.”

A necessidade de comer fora de casa também fez com que a cirurgiã plástica Giulia Takahashi, 34, deixasse a alimentação vegana, que manteve por dois anos. Depois de formada, começou a frequentar mais restaurantes e a trabalhar com plantões, o que demandava maior praticidade na hora de comer. Pela dificuldade que sentia para comer fora de casa, decidiu se tornar vegetariana, como seguiu por nove anos.

Conta que, no período, sempre suplementou a vitamina B12 e que chegou a ter um quadro de anemia, solucionado com suplementação de ferro. Há um ano, no entanto, voltou a comer peixe e frutos do mar, por vontade própria.

O advogado Paulo Arthur Coelho, 37, decidiu se tornar vegano durante a pandemia do Covid. Seu ex-marido, com quem morava na época, era vegano, o que o influenciou a seguir o mesmo estilo de vida.

Mesmo nunca tendo nenhuma deficiência nutricional além da vitamina B12, Paulo conta que sentia vontade de voltar a comer carne. Ele começou voltando a consumir laticínios, depois peixes e carne branca, mas hoje come de tudo. Mas ainda reflete sobre a questão ética em relação aos animais.

A nutricionista Alessandra Luglio diz que seguir uma dieta vegana não deve ser difícil nem caro. O que acontece, segundo ela, é que a tradição cultural faz com que os alimentos de origem animal estejam extremamente presentes na nossa rotina, e não aprendemos a pensar um padrão alimentar vegetal.

“A alimentação vegana saudável é baseada em alimentos simples, em leguminosas, em cereais, frutas, verduras, legumes, sementes, castanhas, que fazem parte já da dieta onívora. O que se tem que fazer é reorganizar esses alimentos que já estão no dia a dia, ampliar o portfólio de receitas e fazer ajuste calórico”, diz.

A presidente da SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira), Monica Buava, reitera que o apoio social, de familiares ou de comunidades é importante para que a pessoa siga no veganismo. Pensando nisso, a instituição criou um manual chamado “Quero Virar Vegano”, com dicas sobre como lidar com a rejeição familiar e incentivando a buscar comunidades veganas.

“Se você não consegue fazer 100%, mas você consegue fazer 80%, faça esses 80%”, afirma. “Não importa o rótulo, se você é vegano ou não vegano. A gente precisa valorizar esses passos que as pessoas dão.”

Autor: Folha

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