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Manifesto do PT reforça papel do Estado e minimiza ajuste fiscal

Lula pediu propostas “factíveis” ao Partido dos Trabalhadores (PT), mas o documento aprovado no encontro nacional da sigla vai em sentido oposto. O que emergiu no intitulado “Manifesto Construindo o Futuro” foi um texto político, desprovido de diagnóstico fiscal e repleto de promessas sem lastro — a mesma combinação de equívocos que custou caro a Dilma após a eleição em 2014.

O documento, tradicional no evento anual, costuma embasar, em anos eleitorais, as diretrizes econômicas e sociais do programa de campanha — hoje em elaboração pelo Planalto com vistas a um eventual quarto mandato de Lula.

Na avaliação de analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, no entanto, o resultado “passa longe” do pedido de pragmatismo do mandatário de oferecer perspectivas viáveis para um projeto consistente de desenvolvimento econômico.

Reafirmando a defesa de um Estado “indutor do desenvolvimento”, o texto é permeado de críticas ao “neoliberalismo” — termo genérico frequentemente usado pela esquerda para desqualificar políticas de liberalização econômica —, e estabelece como eixo estratégico a retomada do “crescimento com distribuição de renda, riqueza e patrimônio” e a ampliação de direitos.

Na prática, prevê da expansão de gastos públicos, sem qualquer diagnóstico sobre como sustentar essa agenda num cenário de fragilidade fiscal.

“O que me chama atenção é a completa falta de sintonia com o problema fiscal que o Brasil vive”, afirma João Mario de França, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre).”Parece que a deterioração das contas não existe.”

Os números traduzem a gravidade da omissão: nos 39 meses do terceiro mandato do presidente Lula, as contas fecharam no vermelho em 32 meses, mostram números do Banco Central (BC). O déficit primário do setor público consolidado atingiu 1,06% do PIB em março de 2026, o maior valor desde novembro de 2024, enquanto a dívida pública saltou de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 80,1% em março — um crescimento de 8,4 pontos percentuais em pouco mais de três anos.

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Combate ao “rentismo” sem plano fiscal

A alternativa para o desequilíbrio, apontada pelo manifesto, seria “enfrentar o rentismo” — ganhos financeiros a partir de ativos, sem atividade produtiva —, combater a hegemonia do capital financeiro e “fortalecer do investimento público” para retomar o crescimento com distribuição de renda e riqueza.

Na avaliação de França, é um discurso “vazio”. “De onde sairiam os recursos para esses investimentos? Se o investimento público está cada vez mais reduzido, em meio a um déficit público crescente e a contas engessadas”, questiona.

A crítica é compartilhada por Alexandre Bertoncello, CEO da Bella Investimentos, que destaca a ausência de um plano detalhado. “Ele só fala de forma genérica sobre melhora das contas públicas, menor déficit, mas sem um plano técnico e sem prazo para atingir meta alguma”, afirma.

Temas sensíveis, mas inevitáveis, ficaram de fora: “Não há discussão sobre revisão de despesas obrigatórias, meta de dívida pública ou corte de gastos”.

No sentido oposto, um dos trechos mais extensos trata da universalização de direitos, com propostas que vão da “escola em tempo integral para todas as crianças” à “mobilidade urbana com tarifa zero”. A seção concentra promessas amplas de expansão do gasto público e, para Bertoncello, adota uma abordagem “populista”: “O único problema é que, nessa parte, eles não explicam quem vai pagar a conta”.

Narrativa fiscal ignora contexto

Na contramão dos fatos, o manifesto repete a narrativa de que “os avanços sociais e econômicos do atual governo foram conquistados paralelamente a uma gestão fiscal que reduziu o déficit primário médio para cerca de um terço do registrado no governo anterior”. Mas não é bem assim.

A comparação é baseada em um recorte específico que parte de uma base inflada pelo período da pandemia de Covid-19, quando as contas públicas registraram déficits excepcionalmente elevados — em 2020, o rombo primário chegou a cerca de 10% do PIB, puxado por gastos emergenciais.

Ao incluir esse ano na média do período anterior, o indicador fica artificialmente alto, favorecendo a versão de redução mais intensa. Na realidade, o endividamento público, de 71,7% do PIB em dezembro de 2022, atingiu em março de 2026 o patamar mais alto desde julho de 2021, quando ainda eram sentidos os efeitos da pandemia.

Produtividade, abertura econômica e isolamento comercial

Além da fragilidade fiscal, especialistas apontam lacunas críticas na agenda de produtividade — considerada central para o crescimento de longo prazo.

Segundo o Observatório de Produtividade Regis Bonelli, da Fundação Getulio Vargas, entre 1996 e 2024, a produtividade cresceu ao ritmo médio de 0,8% ao ano. Entre 2000 e 2024, o crescimento foi menos da metade: 0,3% ao ano, puxado principalmente pela agropecuária.

O desempenho foi favorecido principalmente pelo aumento no número de horas trabalhadas — ou seja, o Brasil cresce porque trabalha mais, não porque trabalha melhor.

Para França, o texto passa ao largo dessa realidade. “Não dá para pensar em aumento de produtividade sem uma política mais agressiva de abertura econômica”, diz.

Neste sentido, o Brasil não apenas estagnou em termos de integração comercial, como permanece isolado em relação aos padrões internacionais. Segundo o Banco Mundial, a abertura comercial brasileira correspondia a 35,6% do PIB em 2024, patamar que o mundo já registrava há cerca de meio século. O descompasso também se evidencia na comparação regional: na América Latina e Caribe, esse nível de abertura foi alcançado ainda em 1999.

Transição produtiva, tecnológica e ambiental

Sem dimensionar o cenário, o documento aposta em uma estratégia voltada para dentro, centrada na “transição produtiva, tecnológica e ambiental” e na soberania nacional. Como eixo dessa agenda, propõe o controle sobre reservas de terras raras e exige que o processamento desses minerais ocorra em solo brasileiro para gerar empregos qualificados.

Na frente trabalhista, o manifesto incorpora propostas como o fim da escala 6×1, sem avaliar seus efeitos sobre emprego, renda e custo do trabalho, e desloca o foco para uma chamada “reforma tecnológica”, centrada na regulação de plataformas digitais — fenômeno que classifica como “plataformização”.

Paralelamente, o manifesto sugere “inovar” na organização dessa nova classe trabalhadora para evitar a exploração algorítmica, combinando fortalecimento sindical com “novas formas de organização social”.

“Isso é muito pouco para falar em reforma tecnológica”, afirma João Mario de França, pesquisador do FGV-Ibre. “A esquerda está completamente desconectada do mundo do trabalho”, diz.

Discurso ideológico mantém polarização

Para Rodrigo Marinho, CEO do Instituto Livre Mercado, o diagnóstico do texto repete uma lógica já conhecida, ao atribuir os problemas do país ao “neoliberalismo” e propor como solução mais intervenção estatal.

“No fim, o que se vende como ‘novo pacto’ é a reedição de um modelo que já falhou, agora com linguagem mais sofisticada, mas com a mesma incapacidade de lidar com o Brasil real”, afirma. “O país não precisa de mais Estado, mas de mais liberdade econômica para destravar crescimento e investimento.”

Para França, o manifesto também marca uma mudança de posicionamento político. “Diferentemente da eleição passada, em que o PT tentou se aproximar mais do centro, esse documento parece uma tentativa de voltar ao velho PT, mais tradicional da esquerda.”

O texto é permeado por termos como “fascismo”, “extrema-direita” e “projeto de destruição nacional” para se referir a adversários políticos — uma abordagem que, segundo ele, reforça a polarização. “É uma narrativa de confronto”, diz o pesquisador do Ibre. “Não existe nada de propositivo em reformas estruturais.”

O custo político da omissão

França avalia que a situação fiscal precisa ser explicitada no debate eleitoral. Para ele, independentemente de quem vença, o ajuste das contas públicas é inevitável — e omitir esse tema pode gerar custos políticos e econômicos relevantes. “É melhor que fique bem claro durante a campanha”, afirma.

Para Samuel Pessoa, professor do Ibre, a omissão pode levar ao que classifica como “estelionato eleitoral”. “Se a disputa eleitoral fazer com que os candidatos prometam o impossível, independentemente de quem ganhe, ele vai ter que entregar o impossível”, afirma. Ele cita 2014 como exemplo do custo de ocultar a realidade econômica.

“A presidente Dilma mentiu muito para a sociedade. Ela escondeu a crise e depois teve que fazer o ajuste econômico, traiu as pessoas”, lembra. “E acabou impeachada.”

A Gazeta do Povo procurou o PT para comentar as críticas levantadas nesta análise, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.

VEJA TAMBÉM:

  • Tebet alerta para gravidade do rombo nas contas públicas: “A água bateu no nariz”
  • Eleitor de Lula sente mais a perda do poder de compra

Autor: Gazeta do Povo

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