quarta-feira, maio 6, 2026
23.9 C
Pinhais

PCC e furto de celular desafiam a segurança pública em São Paulo

O último fim de semana terminou de maneira atípica para os moradores da favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Uma operação especial da Polícia Militar fora do comum para os padrões da região aconteceu no final da tarde do domingo (3) na comunidade dominada pelo tráfico de drogas onde vivem cerca de 60 mil pessoas.

Uma pessoa desavisada vendo as imagens poderia pensar que se tratava de alguma comunidade dominada pelo Comando Vermelho no Rio de Janeiro: a remoção de barreiras físicas em vias públicas supostamente instaladas por integrantes da facção criminosa do Primeiro Comando da Capital (PCC) para impedir e controlar a livre circulação de veículos e acesso no local.

A ação aconteceu depois de o jornal Folha de S. Paulo publicar no mesmo dia uma reportagem contando que os criminosos da facção paulista estavam adotando em Paraisópolis as mesmas táticas de controle de território da facção Comando Vermelho em comunidades do Rio de Janeiro e em outras regiões do país. Imagens da operação policial foram compartilhadas pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

“Não haverá lugar em São Paulo onde a polícia não entre ou onde o Estado seja impedido de atuar. A luta contra o crime organizado é diária, e não permitiremos que bandidos controlem territórios e subjuguem moradores e comerciantes”, afirmou o governador.

Nas imagens, é possível ver que barreiras de metal e concreto trazem a inscrição “PCC”, e Tarcísio não parece querer esconder o que poderia ser visto como um constrangimento — autoridades de outros estados chegam a negar que haja crime organizado em seus territórios.

“O PCC nasceu, cresceu e se espalhou pelo país durante governos que negavam sua existência e, muitas vezes, foram coniventes. Nós não somos mais assim, vamos lutar todos os dias para afastar esse mal, que causa medo à nossa população e atrapalha o crescimento do nosso estado”, continuou o governador em busca da reeleição.

VEJA TAMBÉM:

  • A ideia de uma "guerra total" pelo controle de todos os estados arrefeceu entre PCC e CV em favor de modelos de negócios mais lucrativos para o crime organizado.

    Enquanto Comando Vermelho mira expansão e domínio de território, PCC investe na internacionalização

Área da segurança é prioridade para o eleitorado, não apenas em São Paulo

Pressionado por problemas na área da segurança pública, sensação de insegurança da população e suspeitas de corrupção na polícia em plena pré-campanha para as eleições 2026, o governador paulista tenta contra-atacar com ações contundentes em uma área sensível para o eleitorado.

Menos de um mês atrás, Tarcísio já havia exonerado o coronel José Augusto Coutinho, que estava no comando da instituição desde maio de 2025 — a coronel Glauce Anselmo Cavalli foi nomeada no último dia 16 para comandar a corporação. Pela primeira vez em quase dois séculos de existência, a PM paulista será chefiada por uma mulher.

Um depoimento sigiloso do promotor Lincoln Gakiya, que atua no Gaeco do Ministério Público de São Paulo, revelado pelo Estadão, teria sido determinante para a queda do ex-comandante da PM. O depoimento teria selado a queda do comandante, segundo a apuração do jornal, em conjunto com um pedido feito pelo promotor da Justiça Militar Bruno Servello Ribeiro para que a procuradoria-geral da Justiça de São Paulo analisasse a conduta do ex-comandante em uma suposta omissão sobre propinas pagas pela cúpula do PCC a policiais da Rota, grupo de elite da corporação.

O que dizem as denúncias envolvendo policiais de São Paulo

Denúncias recebidas pela Corregedoria da PM indicam que oito policiais da Rota são suspeitos de formar um “núcleo de vazamentos de informações privilegiadas para criminosos” do PCC. Em um dos casos, os PMs teriam cobrado R$ 5 milhões pelo vazamento do áudio da reunião de um informante com policiais da Rota e integrantes do MP-SP.

A defesa do ex-comandante da PM diz que não teve acesso ao inquérito, e que não procedem informações de que ele teria sido alertado sobre o envolvimento de subordinados com a organização criminosa e deixado de tomar providências.

Já o governo de São Paulo informou que “o coronel Coutinho pediu afastamento das suas funções por motivos pessoais” e que “todas as movimentações realizadas na polícia militar têm como diretriz critérios técnicos fundamentados na trajetória de cada oficial”.

“Cada troca de comando da instituição foi realizada por motivos específicos e com o objetivo de manter o constante aprimoramento dos altos padrões operacionais da Polícia Militar do Estado de São Paulo”, completou o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, em nota divulgada à imprensa sobre o caso.

VEJA TAMBÉM:

  • Coronel Glauce Cavalli faz continência durante cerimônia de posse no comando da PM de São Paulo. Primeira mulher no comando da PM de SP em 200 anos, a troca tem bastidores que vão além do marco histórico; ocupa o cargo no lugar de José Augusto Coutinho

    Por que Tarcísio trocou o comando da PM de SP — e quem saiu ganhando

Pinheiros é o bairro que concentra crimes envolvendo celulares em São Paulo

Antes da crise na PM e o escândalo do bloqueio de vias públicas, o governo do estado de São Paulo já vinha pressionado pela sensação de insegurança, principalmente na capital. Pinheiros, bairro nobre da região oeste de São Paulo e com grande circulação de pessoas de outras regiões, foi o que mais registrou roubos e furtos de celulares nos três primeiros meses de 2026.

Foram 2.061 ocorrências desses crimes na delegacia local, o que representa uma média de 23 casos por dia — uma alta de 8% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados da Secretaria da Segurança Pública estadual. Mesmo assim, o número total de casos na cidade teve queda de 9% no primeiro trimestre.

O programa “SP Mobile” devolveu, em abril, 383 celulares com registros de furto ou roubo aos proprietários no estado de São Paulo. Criado em 2025 pelo governo do estado, o sistema cruza informações de boletins de ocorrência com dados fornecidos por operadoras de telefonia, identificando aparelhos com restrição criminal assim que voltam a ser ativados.

A partir disso, a Polícia Civil consegue localizar os dispositivos, notificar os atuais usuários e promover a recuperação. Desde a implantação, mais de 23,5 mil celulares foram recuperados em todo o estado — cerca de um terço dos aparelhos recuperados foi devolvido às vítimas dos assaltos.

O tema da violência e da segurança pública deve dominar boa parte do debate eleitoral nas eleições deste ano. De acordo com pesquisa Genial/Quaest divulgada no dia 15 de abril, a violência é o principal problema do Brasil para 27% dos entrevistados. O levantamento foi realizado entre os dias 9 e 13 de abril e reflete a opinião de 2.004 eleitores com 16 anos ou mais. A sondagem tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com taxa de confiança de 95%. 

Procurada pela reportagem da Gazeta do Povo por meio de sua assessoria de imprensa para responder a perguntas sobre a troca de comando na PM e as suspeitas e investigações contra policiais da Rota, a operação em Paraisópolis e o suposto domínio do PCC na região, assim como a “epidemia” de roubos de celulares, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo não respondeu.

VEJA TAMBÉM:

  • O domínio das facções sobre territórios brasileiros.

    Tudo dominado: até 61 milhões de brasileiros vivem sob o domínio do crime

  • Apenas cerca de 8% dos aparelhos celulares roubados conseguem ser recuperados pelas forças policiais e de segurança pública, na média nacional.

    20 cidades concentram 40% de todos os celulares roubados ou furtados no Brasil

Autor: Gazeta do Povo

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas