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Doença hepática alcoólica cresce no Brasil; entenda – 09/05/2026 – Equilíbrio e Saúde

A doença hepática associada ao consumo de álcool tem avançado no Brasil e provocado aumento contínuo de internações e mortes nas últimas duas décadas, com crescimento mais acelerado nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

É o que aponta um estudo da UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro), baseada em dados do SUS entre 2000 e 2022, que identificou 344 mil internações e 214 mil mortes por DHA (doença hepática alcoólica) no país, condição que inclui esteatose (gordura no fígado), hepatite alcoólica e cirrose.

Os dados mostram tendência de alta em todas as regiões brasileiras. O Norte apresentou o maior crescimento anual de internações (2,57%) e de mortalidade (4,95%), enquanto o Nordeste teve o segundo maior avanço nos óbitos.

Já o Sul, embora com crescimento mais discreto, concentra taxas de internação e mortalidade acima da média nacional: 10,5 e 5,6 por cem mil habitantes, respectivamente, ante médias nacionais de 7,8 e 4,9.

Segundo a hepatologista Geisa Gomide, professora e coordenadora do departamento de clínica médica da UFTM, o aumento anual da doença é maior do que a média mundial, o que chama a atenção e levanta indagações. “É aumento real, melhora no diagnóstico ou sistemas de informação mais bem alimentados?”

Para o hepatologista Roberto José de Carvalho Filho, professor-adjunto da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, o cenário reflete um problema antigo e subestimado. “O Brasil não bebe necessariamente mais do que a média mundial, mas quem bebe, bebe muito. O consumo episódico excessivo é muito frequente.”

Segundo ele, cerca de 15% da população brasileira apresenta padrão de consumo abusivo. “Não é uma condição rara. E existe um lobby muito forte da indústria de bebidas para manter essa aceitação social do álcool”, diz.

De acordo com o estudo, em 2021, as doenças do fígado foram a principal causa de óbitos relacionados ao álcool no Brasil. Para Gomide, as diferenças regionais refletem tanto padrões culturais quanto desigualdades no acesso à saúde.

“No Sul, o consumo de álcool historicamente já é maior, com influência cultural, inclusive desde a infância em algumas comunidades. Já no Norte e Nordeste, pode haver melhora recente na notificação e no diagnóstico”, afirma.

Ela destaca ainda as dificuldades de acesso em áreas remotas: “Há populações em que o deslocamento até um serviço de saúde pode levar dias. Muitos óbitos podem nem ser corretamente registrados.”

No estudo, homens responderam por 82% das internações e 88% dos óbitos registrados no período analisado. Entre os internados, a maioria tem entre 40 e 59 anos (55,6%) e há a mesma proporção de brancos (35,8%) e pretos e pardos (35,8%).

Entre os mortos, a faixa etária de 40 a 59 anos também predomina (56,3%), mas a fatia de pretos e pardos é maior (49,8%). A maior parte tinha sete anos ou menos de escolaridade (58,1%).

A faixa etária mais atingida, de meia-idade, indica o efeito acumulado do consumo crônico sobre o fígado. “É uma doença que depende do tempo de uso. São pessoas que muitas vezes chegam ao sistema de saúde já em estágio avançado, quando há pouco a fazer além de tratar complicações”, diz Gomide.

Embora outras pesquisas mostrem alta do consumo de álcool entre adolescentes, com 5,7% deles fazendo uso abusivo, isso não se reflete nas doenças hepáticas. “Antes dos 40 é muito difícil, a história natural da doença precisa de tempo de evolução”, explica a médica.

Para a médica, é possível que outros agravos associados ao alcoolismo, como acidentes de trânsito, ocorram em faixas etárias mais jovens, mas eles não foram objeto do estudo.

Ainda que as mulheres sejam biologicamente mais vulneráveis aos danos hepáticos causados pelo álcool, elas responderam por 21,5% do total de internações e 11% das mortes.

O trabalho também revela desigualdades regionais e sociais. No Norte, Nordeste e Centro-Oeste, pretos e pardos predominam entre os casos e mortes. No Sul e Sudeste, há maior proporção de pessoas brancas, o que acompanha o perfil demográfico dessas regiões.

Para Gomide, a combinação de fatores sociais agrava o cenário. Baixa escolaridade e dificuldade de acesso ao sistema de saúde pesam muito. “E há falhas importantes nos dados hospitalares, com muitos campos não preenchidos, o que dificulta entender melhor quem são esses pacientes.”

Cerca de 90% dos usuários crônicos de álcool desenvolvem algum grau de gordura no fígado, e entre 10% e 20% podem evoluir para quadros, como hepatite alcoólica e cirrose. Nos casos mais graves, a taxa de mortalidade chega a 50%.

“O fígado é um órgão silencioso. Quando o paciente interna, geralmente já está muito grave”, afirma Gomide. “Esse diagnóstico precisa acontecer antes, na atenção primária.”

Carvalho Filho reforça que o problema é agravado pelo estigma. “Existe preconceito até dentro da classe médica. O paciente com dependência alcoólica ainda é visto como alguém sem força de vontade, quando na verdade estamos falando de uma dependência química”, diz.

Ele destaca ainda que a doença hepática alcoólica é hoje a principal causa de cirrose no Brasil e no mundo ocidental, respondendo por cerca de 65% dos casos nos centros especializados. Apesar disso, recebe menos atenção científica e menos investimento. “Não há o mesmo interesse da indústria farmacêutica, como houve com hepatite C ou há hoje com doenças metabólicas.”

No ambulatório de doença hepática alcoólica da Unifesp, a proposta é abordar os pacientes nas formas mais precoces, até mesmo quando não há sintomas, o que ocorre em um quarto dos casos.

Segundo Carvalho Filho, os pacientes são tratados com psicoterapia e medicamentos para tentar resolver ou minimizar a dependência química e evitar a progressão da doença hepática. Ao menos 500 pacientes são acompanhados no local, com uma taxa de adesão de 70%.

As abordagens contemplam tanto a redução de danos quanto a abstinência total. “A gente vê os benefícios das reduções de consumo nesses pacientes mais graves. Eu tenho paciente com cirrose que faz acompanhamento há quase 20 anos. Só está vivo porque a gente conseguiu que ele reduzisse muito.”

Luiz Cláudio da Silva Cardoso, 57, desempregado, é acompanhado no ambulatório há três anos. Ele faz tratamento de cirrose, que inclui medicações, psicoterapia, orientações para uma dieta equilibrada com baixo teor de sal para controlar o acúmulo de líquidos, entre outras.

Cardoso diz que começou a beber muito cedo, aos 14 anos, e desde então já sofreu muitas perdas devido ao alcoolismo. “A maior delas foi perder o amor dos meus filhos e da minha mulher.” Ele diz que ainda enfrenta recaídas, mas tem esperança de abandonar de vez a bebida. “Eu sei que só depende mim.”

Os pesquisadores defendem que os resultados do estudo sirvam de base para políticas públicas focadas em prevenção do uso abusivo de álcool, ampliação do diagnóstico precoce e organização da assistência para grupos mais vulneráveis.

Autor: Folha

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