O crescimento econômico do Brasil enfrenta um problema estrutural. Há mais de 40 anos o PIB nacional expande-se abaixo do ritmo global, resultando em uma perda contínua de participação na economia mundial.
Segundo o Banco Mundial, em 1980, o país detinha 2,8% do PIB global; em 2024, esse número recuou para 2,1%. Com uma expansão média anual da economia de apenas 2,2%, o país ocupa a 102ª posição no ranking do crescimento nesse período, que inclui 153 nações. O Brasil fica atrás de países que enfrentaram conflitos internos ou externos como a Colômbia, a Bolívia, a Nigéria, o Irã e o Iraque.
Uma combinação de fatores ajuda a explicar o baixo crescimento verificado no período. Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), destaca que o crescimento passado foi “artificialmente” sustentado pelo bônus demográfico, com a entrada massiva de mão de obra no mercado de trabalho. Esse abono, contudo, não se mantém.
Outros fatores que pesam são a baixa poupança doméstica; uma “fragilidade institucional” em que o estado é capturado por grupos de interesse. O resultado é uma carga tributária de país rico com serviços públicos ineficientes e um ambiente de negócios que não promove a “destruição criadora”, ou a superação de antigos modelos produtivos para a necessária inovação.
“Há uma burocracia asfixiante e uma insegurança jurídica total e generalizada que eleva o custo de empreender e força muitos negócios a permanecerem ‘embaixo do radar’ na informalidade. Muitos desistem antes de começar”, diz Magno Karl, diretor-executivo do movimento Livres.
Ainda mais: Pessôa, aponta que, sem reformas profundas na eficiência e no marco institucional, o país terá um crescimento potencial limitado a apenas 1,5%. Este número dependerá mais de ganhos de produtividade do que de aumento nas horas trabalhadas, por causa do fim do bônus demográfico.
O abismo da divergência: o país ficou para trás
Desde 1980, a economia brasileira oscila entre períodos de crescimento fraco e estagnação, perdendo oportunidades. Dados históricos revelam uma realidade incômoda. Em 1980, o PIB per capita brasileiro correspondia a cerca de 20% do americano. Em 2024, havia caído para 14,4%. No mesmo período, a Coreia do Sul, que em 1980 era mais pobre que o Brasil com apenas 13,6% da renda per capita americana, deu um salto extraordinário. Em 2024, a renda per capita sul-coreana era de 55,8% da americana.
Segundo a coordenadora do boletim macroeconômico do FGV Ibre, Silvia Mattos, a “mediocridade brasileira” decorre do fracasso em obter ganhos de produtividade ao longo da nossa história. Os números comprovam a magnitude: em 1950, o trabalhador brasileiro tinha o dobro da eficiência produtiva de um trabalhador coreano; hoje, tem pouco mais de um terço da produtividade coreana.
A queda no ranking global: de potência a coadjuvante
A trajetória brasileira no ranking de maiores economias mundiais ilustra essa perda de dinamismo. Em 1960, era a 11ª economia mundial, 17% maior do que a chinesa. Durante a década de 1960, enquanto Mao Tse-Tung consolidava a ditadura comunista com perseguições e massacres, o Brasil acelerava. O principal avanço foi entre 1968 e 1974, durante o “Milagre Econômico”. Em 1976, o PIB brasileiro era aproximadamente 98% maior que o chinês. Naquele ano, chegou a ocupar a sétima posição no ranking global.
O Produto Interno do Brasil, contudo, foi ultrapassado pelo da China em 1988, quando ainda ocupava o posto de oitava economia global. Em 2000, a brasileira correspondia a 42% da chinesa, segundo números do Banco Mundial. Desde então até 2024, o crescimento médio anual foi de 2,3% no Brasil, bem atrás da média mundial (2,9%) e menos da metade dos países de renda média-alta (5,5% ao ano). Nesse ano, a economia havia caído para a 9ª posição no ranking das maiores do mundo, com PIB correspondendo a pouco mais de um décimo do chinês.
As expectativas seguem desfavoráveis para os próximos anos. Segundo o think tank Conference Board, a nação deve expandir-se a um ritmo bem menor do que o mundial nos próximos anos. Neste ano, a economia global deve crescer 2,8%, enquanto as projeções para o país são de 1,8%. Para 2027, a previsão é de 2,2% para o Brasil e 3,0% para o mundo. Para a década entre 2028 e 2037, a expansão nacional deve ficar, em média, inferior a 2% ao ano, enquanto a mundial ficará em torno de 2,5%.
As travas à expansão do crescimento
O fim do bônus demográfico é um dos principais obstáculos ao desenvolvimento econômico. Segundo o IBGE, de 2012 a 2025, a parcela da população com menos de 30 anos caiu de 49,9% para 41,4%, enquanto a população com mais de 60 anos cresceu de 11,3% para 16,6%. Sem esse impulso demográfico, que adiciona jovens adultos à força de trabalho, crescer fica mais difícil.
Sem esse impulso na mão de obra, a produtividade geral na economia, motor da expansão de longo prazo, opera em marcha lenta. Segundo pesquisa do FGV Ibre, apenas a agropecuária cresceu robustamente desde 1995 (5,8% ao ano);a indústria caiu 0,3% ao ano; serviços, apenas 0,2%.
Ou seja, o país permanece preso em atividades de baixa produtividade enquanto a indústria encolhe. O investimento brasileiro agrava o problema: 17% do PIB contra 26% de média global. A baixa poupança — de 14,5% do PIB em 2024 — é insuficiente para financiá-lo.
Além disso, gastos correntes engessados (previdência, saúde, assistência social) impedem excedentes para investimento, mesmo com carga tributária de 34,2% do PIB — próxima à de nações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Também não há poupança pública. O setor público consolidado, que reúne União, estados e municípios registra déficits crônicos desde novembro de 2014, segundo dados do BC. É uma dinâmica que limita a capacidade de investimento público.
Distorções drenam investimento produtivo
Segundo a Receita Federal, benefícios fiscais consomem 4,4% do PIB — isenções e reduções de alíquotas que equivalem a subsídios indiretos que poderiam financiar investimentos produtivos. Mattos aponta que a administração pública é “muito suscetível aos diversos grupos de interesse”, criando distorções que protegem setores ineficientes.
O resultado: empresas ineficientes sobrevivem artificialmente, impedindo a inovação. O capital migra para aplicações de baixo risco em vez de financiar fábricas e pesquisa — um círculo vicioso que sufoca a economia real. Não bastasse esse engessamento institucional, há um setor que ilustra concretamente essa paralisia: a indústria brasileira.
A indústria como termômetro da estagnação
Um dos principais termômetros da perda de fôlego da economia está no setor industrial. Uma análise do FGV Ibre sobre o hiato entre indústria e serviços, conduzida por pesquisadores como Claudio Considera e Henrique Bittencourt, revela um diagnóstico alarmante: a desindustrialização precoce não é acidental, mas resultado direto da fragilidade institucional e dos desincentivos que caracterizam a economia brasileira.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o país é responsável por somente 1,17% de toda a riqueza gerada pela indústria no mundo — o nível mais baixo desde 1990. A nação ocupa a 15ª posição na produção industrial global, tendo sido ultrapassada por México, Indonésia, Turquia e Irlanda. Nas exportações, está estagnada na 30ª posição, respondendo por apenas 0,92% das manufaturas globais.
A agenda da sobrevivência: quatro pilares para fugir do baixo crescimento
Diante desse diagnóstico, a reforma tributária pode ser um indicativo positivo, pelo menos, após superar a complexidade do período de transição. Um estudo do FMI indica que a modernização do sistema tributário poderia elevar o PIB potencial em até 6% no longo prazo — um salto expressivo alimentado principalmente pela eliminação da dispersão de alíquotas e pela redução do custo de insumos intermediários. O impacto na produtividade aumentaria pouco mais de 1%, transformando um cenário estagnado em dinâmico.
Os especialistas, entretanto, apontam que apenas a reforma tributária não será suficiente para salvar uma estrutura econômica doente. Eles traçam uma agenda de sobrevivência — uma bússola clara para que o país escape da “armadilha da renda média” e evite o colapso institucional que consumiu outras nações emergentes.
- Libertar o Estado de grupos de interesse. O orçamento público precisa deixar de ser refém de corporações protegidas. Simultaneamente, abrir a economia à concorrência global é imperativo. Nesse sentido, o exemplo mexicano traz um alerta: a liberalização comercial não se mostra eficiente quando a informalidade é alta e a alocação de recursos é distorcida, duas questões que também afetam o Brasil.
- Reconstruir a educação do zero. Aumentar anos de escolaridade é ilusão se a qualidade for medíocre. “O país precisa de ensino técnico e superior voltados para inovação”, diz a pesquisadora Silvia Mattos, lembrando que enquanto apenas 24% dos adultos brasileiros têm ensino superior, a Coreia alcança 70%.
- Entregar segurança jurídica aos investidores. Previsibilidade atrai capital, ressaltam os especialistas. Reformas como a trabalhista e marcos legais setoriais são passos positivos, mas esbarram em decisões judiciais que, em alguns casos, não consideram adequadamente a lógica econômica e os incentivos envolvidos. “O Brasil vive sob uma ‘insegurança jurídica total e generalizada’ onde “até o passado é incerto”, o que impede a previsibilidade necessária para atrair investimentos”, destaca Karl, do Livres.
- Reformar os incentivos à poupança. Uma previdência sustentável e um mercado de capitais moderno são urgentes, dizem os pesquisadores do FGV Ibre. Para eles, o país não poupa porque a máquina estatal consome tudo e a população desconfia do futuro. Sem poupança doméstica robusta, a nação permanece refém de financiamento externo e juros elevados, complementam os especialistas.
“Não existe atalho para o crescimento econômico. Apenas através do aumento da produtividade”, diz Silvia Mattos. O aviso é sóbrio: o Brasil não está fadado ao fracasso, mas a era da “sorte” — commodities em alta, demografia favorável — terminou.
Autor: Gazeta do Povo








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