Com representantes em cidades como Paris, Madri, Manchester e Eindhoven, a seleção de Marrocos se espalha pelos principais centros do futebol europeu. É no Velho Continente, não no território do país africano, que se moldam a base e o estilo de jogo do primeiro adversário do Brasil na Copa do Mundo de 2026.
O modelo baseado na diáspora atingiu seu auge com a campanha histórica na Copa de 2022, quando a seleção marroquina se tornou a primeira africana a chegar a uma semifinal. Terminou com o quarto lugar. Dos 26 jogadores convocados, 14 nasceram fora do país, ou seja, 54%, mais do que em qualquer outra equipe naquela edição do torneio.
Quatro anos depois, com uma recente troca de técnico —em março, Walid Regragui deu lugar a Mohamed Ouahbi—, essa presença é ainda maior nas listas mais recentes, próxima de 60%, reforçando o peso da dupla nacionalidade na composição do elenco. O país foi o primeiro da África a se garantir no Mundial deste ano, como líder do Grupo E das Eliminatórias da CAF (Confederação Africana de Futebol).
A forte ligação com a Europa aparece também no dia a dia dos jogadores. Na Copa de 2022, 73% dos convocados atuavam em clubes do continente. No ciclo atual, esse índice subiu para 79%. O movimento se repete na formação. A proporção de atletas desenvolvidos em clubes europeus passou de 69% para 82%, de acordo com o site oGol, especializado em dados sobre o futebol.
Essa base ajuda a explicar o desempenho recente da seleção. Acostumados a competir nas principais ligas do mundo, os jogadores adquiriram repertório tático, intensidade e experiência em jogos de alto nível. Foi com essa combinação que Marrocos neutralizou adversários mais tradicionais na Copa de 2022, como Bélgica, Espanha e Portugal. Até então, sua melhor campanha em Mundiais tinha sido registrada em 1986, com eliminação nas oitavas.
Nesse movimento, diminuiu o espaço na seleção para jogadores da liga marroquina, de 11% para 7% dos convocados. Segundo Mahfoud Amara, professor de ciências sociais e gestão do esporte da Universidade do Qatar, a baixa presença de atletas do campeonato local indica a dificuldade de desenvolver talentos no próprio país e reforça a dependência em relação ao futebol europeu.
“O desempenho da seleção não reflete plenamente o futebol doméstico, já que muitos dos principais jogadores do elenco possuem dupla nacionalidade e foram formados em clubes e academias europeias”, afirmou Amara à Folha.
Por isso, além da estratégia de curto prazo para a seleção, Marrocos desenvolve um projeto de longo prazo para o futebol local. Desde 2008, o país passou a investir de forma mais estruturada na formação de jogadores, com o objetivo de reduzir a dependência e fortalecer a base doméstica.
Em certa medida, a dependência de talentos que estão fora do país aproxima Marrocos do modelo brasileiro, também marcado pela saída precoce de talentos para o exterior. A diferença é que, enquanto o Brasil forma seus jogadores e depois os exporta, Marrocos, com frequência, precisa buscá-los fora.
A conexão dos marroquinos com a Europa não é apenas consequência dos fluxos migratórios. A Federação Real Marroquina de Futebol, liderada por Fouzi Lekjaa, atua de forma ativa na identificação e no convencimento de jogadores com dupla nacionalidade, muitos deles formados em centros europeus de elite.
A decisão passa por fatores de identidade. Nascidos na Europa, atletas como Achraf Hakimi e Brahim Díaz, estrelas do atual elenco, optaram por defender o país de origem de suas famílias após passagens por seleções de base europeias. Pelo regulamento da Fifa (Federação Internacional de Futebol), um jogador só perde o direito de mudar de seleção depois de disputar uma partida oficial pela equipe principal.
“Senti que [a seleção espanhola] não era o lugar certo para mim, não me sentia em casa. Não era nada em particular, mas não era como eu vivia em casa, que é a cultura árabe, sendo marroquino”, disse Hakimi.
O desejo pessoal dos atletas combinado com a estratégia institucional da federação marroquina consolidou a diáspora como eixo central da seleção nos últimos anos.
Esse tipo de arranjo não é exclusivo de Marrocos. Em escala global, o futebol de seleções tem sido cada vez mais moldado pelos fluxos migratórios.
Fora de campo, a relação com o exterior também é central para a economia marroquina. Cerca de 5 milhões de marroquinos vivem fora do país, segundo o Banco Mundial. Em 2023, as remessas enviadas por essa população representaram cerca de 8% do PIB nacional.
Do ponto de vista futebolístico, a lógica inverte um movimento histórico. Durante boa parte do século 20, jogadores nascidos em territórios africanos representavam potências coloniais, especialmente na Europa, em um contexto no qual muitos desses países ainda não tinham seleções consolidadas ou reconhecimento internacional.
Agora, ex-colônias passaram a disputar atletas formados no exterior, aproveitando laços familiares e identitários para reforçar suas seleções. Mas ainda há casos como o da França, que esteve nas últimas duas finais da Copa cheia de atletas com origens africanas.
Campeã em 2018 e vice em 2022, a equipe construiu suas últimas gerações incorporando filhos da migração. Na Copa de 2022, 19 dos 26 jogadores franceses tinham dupla nacionalidade, evidenciando como esses fluxos operam em direções distintas.
Autor: Folha








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