A forma como o sistema imunológico muda com o envelhecimento é diferente a depender do sexo biológico, o que pode trazer pistas preliminares sobre por que mulheres e homens têm riscos distintos para determinadas condições. A conclusão é de uma nova pesquisa publicada na revista Nature Aging que avaliou mais de 1 milhão de células sanguíneas para investigar o tema. No entanto, embora robusto, os dados ainda são iniciais, e estudos mais aprofundados são necessários.
O efeito do envelhecimento no sistema imune já é um tema discutido no meio médico. De forma parecida, as diferenças da resposta imune a depender do sexo biológico também é um assunto que chama atenção de especialistas. Moisés Evandro Bauer, professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), cita o caso da Covid.
“A resposta inflamatória nas mulheres à infecção é mais forte. Não é muito mais forte, mas é realmente maior que aquela vista em homens”, afirma Bauer, que não assina a nova pesquisa, mas que é especialista no tema e autor do livro “Imunossenescência: Envelhecimento do Sistema Imune”.
A ideia da nova pesquisa foi considerar a relação das duas variáveis, tanto idade quanto sexo, quando se trata da capacidade de defesa do organismo.
“Nosso estudo questiona não apenas se o sistema imunológico muda com a idade, mas também se ele envelhece de forma diferente em mulheres e homens, e quais células e programas moleculares impulsionam essas diferenças”, resume Marta Mélé, líder de grupo no Departamento de Ciências da Vida do Centro de Supercomputação de Barcelona e uma das autoras do artigo.
Para concretizar o estudo genético, 982 adultos com idades entre 19 e 97 anos participaram da investigação. Os pesquisadores coletaram amostras desses participantes, o que totalizou mais de 1 milhão de células sanguíneas. Todo o material foi sequenciado e estratificado.
Em relação a pessoas do sexo feminino, a conclusão foi que o sistema imune tende a passar por maiores remodelações com o avançar da idade. De início, isso pode até parecer positivo por estar relacionado a respostas imunológicas mais responsivas contra infecções.
No entanto, o cenário é mais complexo, porque o estudo observou uma maior expansão de marcadores celulares que favorecem processos inflamatórios no caso de mulheres e também ao considerar o fator da idade.
Os autores hipotetizaram que esse comportamento, associado a doenças autoimunes, pode ser uma explicação das altas taxas dessas condições em mulheres. Em média, a incidência de doenças autoimunes em mulheres é 80% do que os registros em homens.
“A ideia não é que o envelhecimento ‘melhore’ a imunidade em mulheres, mas sim que ele parece impulsioná-la mais fortemente em direção a trajetórias inflamatórias e autoimunes”, resume Mélé.
No que diz respeito ao envelhecimento no grupo masculino, a pesquisa concluiu que as duas variáveis resultam em menores índices de alterações no sistema imunológico quando se compara com o caso das mulheres. Mesmo assim, Mélé afirma que essas mudanças mais sutis ainda precisam ser analisadas com cautela.
Ela cita o caso, observado na pesquisa, da maior expansão de células tipo B em homens e ao também levar em conta o fator envelhecimento. Essas células podem ser estágios precursores para desenvolvimentos futuros de leucemias.
Mas essas associações ainda precisam ser melhor investigadas, afirma Bauer. Segundo o professor da PUC-RS que não participou do estudo, seria necessário outros métodos, com testes em laboratórios e não somente análises genéticas, para ter maiores evidências sobre se realmente alterações no sistema imunológico em mulheres a partir do envelhecimento estão relacionadas ao desenvolvimento de doenças autoimunes.
Ressalva parecida é colocada por Bauer quando se trata da associação entre as modificações observadas em homens e expansão de células associadas a potenciais distúrbios cancerígenos. Em outras palavras, as evidências são preliminares, e essas associações precisam ser consideradas com cautela.
Outra questão ainda em aberto é por que mulheres tendem a ter mais alterações no sistema imunológico do que homens. Mélé explica que uma hipótese para explicar isso é uma combinação de fatores biológicos observados ao longo da vida que impulsionam essas modificações em mulheres. Fatores genéticos, histórico hormonal e exposições ambientais são alguns exemplos, mas o estudo não chegou a uma conclusão sobre a indagação.
Autor: Folha








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