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O que se sabe sobre a cepa Andes do hantavírus – 15/05/2026 – Equilíbrio e Saúde

A cepa Andes do hantavírus circula há décadas na Patagônia argentina e chilena, transmitida por roedores selvagens, mas o surto associado ao navio MV Hondius trouxe à tona uma característica excepcional da variante: a capacidade de transmissão humana.

Mas como se comporta o roedor que a transmite? Há fatores ambientais que expliquem sua propagação? Por que é tão difícil de ser estudada?

O roedor e o meio ambiente

O transmissor do vírus Andes na Patagônia é o rato-de-cauda-longa (Oligoryzomys longicaudatus). O contágio inicial ocorre por exposição à saliva, urina ou fezes de roedores infectados, em geral em ambientes fechados.

Para o biólogo Raúl González Ittig, professor associado de genética de populações da Universidade Nacional de Córdoba, os casos registrados na Argentina podem estar ligados a uma sequência de eventos ambientais, como chuvas intensas associadas ao El Niño, mais vegetação e maior disponibilidade de alimento para os roedores.

Um maior número destes animais não significa necessariamente um surto, mas sim mais oportunidades de contato. “Há mais indivíduos e há maior probabilidade de que algum trabalhador rural se infecte”, diz Ittig à AFP.

Já a seca e os incêndios, que costumam ocorrer no verão na região, “fazem diminuir as populações de roedores”, segundo o especialista.

Nos casos de transmissão entre pessoas, o único roedor envolvido é aquele responsável pelo primeiro contágio. Nesse cenário, “não é aplicável o que se sabe ou suspeita sobre a associação ou influência de fatores ambientais”, diz à AFP a infectologista María Ester Lázaro, médica aposentada do Hospital Zonal de Bariloche.

Além dos surtos conhecidos (na Patagônia argentina em 1996 e 2018, e agora no navio de cruzeiro), a transmissão entre pessoas é raramente relatada na região.

Contágio entre humanos

O epidemiologista Rodrigo Bustamante, do hospital de Bariloche, ressalta que a transmissão entre humanos da cepa Andes “não é uma regra, mas um evento excepcional que requer contato próximo de menos de um metro durante trinta minutos”.

Também não se comporta como a Covid ou a gripe. “É muito menos transmissível”, afirma Bustamante à AFP.

Os cientistas rejeitam a ideia de que uma mutação recente tenha tornado a cepa Andes transmissível entre humanos. “É um vírus muito estável, ao contrário do da Covid ou da gripe. Cada hantavírus evoluiu desde tempos ancestrais com seu roedor hospedeiro sem sofrer mutações relevantes”, disse Lázaro.

Segundo a infectologista, ainda não se sabe “por que o vírus Andes, em vez de gerar um caso isolado ao infectar uma pessoa, é depois capaz de se transmitir a outra em algumas ocasiões e até mesmo gerar cadeias de transmissão com vários elos”.

Ittig afirma, por sua vez, que acredita “que o vírus sempre teve essa propriedade” e que, possivelmente, “os humanos começaram a ocupar os ambientes onde viviam os ratos”.

Difícil de ser estudado

Lázaro acredita que a baixa ocorrência de casos na região dificulta tirar conclusões. A evolução clínica também pesa.

No começo, o paciente pode parecer saudável ou ter sintomas de gripe com diarreia ou vômitos. “No quarto dia, em questão de horas, o paciente passa de um estado que parece uma gripe a já estar em um respirador”, diz a médica.

Em Ushuaia —de onde partiu o MV Hondius—, cientistas ainda debatem a identidade do roedor local: se é o mesmo rato-de-cauda-longa ou uma subespécie. A distinção importa porque há dúvidas sobre o papel desse animal como reservatório do hantavírus na região.

Especialistas do Malbrán, o instituto nacional que estuda doenças epidemiológicas, viajarão na segunda-feira (18) a Ushuaia para realizar a pesquisa.

Na atual campanha epidemiológica, que vai de junho a junho, foram registrados 102 casos de diferentes cepas de hantavírus na Argentina, quase o dobro dos 57 do período anterior.

Autor: Folha

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