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Guerra no Oriente Médio chega ao balanço das construtoras – Broadcast

Por ora, impacto sobre margens foi discreto, com empresas mostrando boa blindagem.

Por Circe Bonatelli

São Paulo – A escalada dos custos de construção foi o principal tema na temporada de balanços das construtoras. Por ora, o impacto sobre as margens foi discreto, com as empresas mostrando uma boa blindagem contra as bombas. No entanto, ficou claro que a pressão vai durar por um tempo ainda indeterminado, mantendo a carapaça dos negócios à prova.

O problema decorre do aumento de preços de combustíveis, fretes e insumos importados associado à Guerra no Irã. Desde o fim de março, fornecedores estão aplicando reajustes em itens com peso relevante nos canteiros, como cimento, aço e resinas. Parte dos aumentos já foi aplicada, mas novas rodadas ainda estão previstas, o que tende a manter a pressão sobre a inflação do setor.

A dinâmica foi antecipada no início de abril pelo presidente do Sindicato da Indústria da Construção do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), Yorki Estefan, em entrevista à Broadcast Weekend. Ele afirmou que o cenário é semelhante ao da pandemia, quando cadeias produtivas foram afetadas.

O movimento foi confirmado no fim de abril, com a divulgação do Índice Nacional de Custos da Construção (INCC) da Fundação Getulio Vargas (FGV). O índice acelerou de 0,36% em março para 1,04% em abril, com maior impacto em materiais, equipamentos e serviços, cuja alta passou de 0,27% para 1,35%. Com esse resultado, o INCC bateu em 6,28% no acumulado dos últimos 12 meses.

Para analistas, o quadro é de previsibilidade reduzida dos custos, forçando revisões orçamentárias, com potencial de queima das margens do lucro bruto. O impacto é maior nas construtoras com foco em habitação popular, dentro do programa Minha Casa Minha Vida. Nesse segmento, a prática de repassar o cliente para o financiamento bancário logo após a venda na planta elimina a correção monetária nas parcelas até a entrega das chaves.

Diante desse cenário, as companhias têm atuado em duas frentes: revisão de premissas de inflação nos orçamentos de obras e ações para mitigar tais impactos, como gestão de contratos e reajuste dos preços do estoque. Pelo lado positivo, as novas regras do Minha Casa ampliaram as faixas de renda e os tetos de preços do programa, aumentando o poder de compra da população. Ou seja: ficou ‘mais fácil’ subir os preços dos imóveis.

A Cury fez uma provisão adicional no orçamento de obras e passou a trabalhar com INCC de 8% no ano. Com isso, a sua margem bruta foi para 39% no primeiro trimestre de 2026, recuo de 1,3 ponto porcentual (pp) perante o quarto trimestre de 2025. Por sua vez, a margem do resultado dos exercícios futuros (margem REF) foi para 42,9%, baixa de 0,4 pp.

A MRV elevou em 2 pontos porcentuais a estimativa de inflação do orçamento anual (a empresa não revela o dado nominal), o que freou a trajetória de crescimento sequencial da margem bruta, ficando em 31% no primeiro trimestre. No entanto, a MRV afirmou que espera a retomada do avanço na margem a partir do segundo trimestre, com a subida nos preços de vendas de imóveis acima da inflação.

Na Direcional, a mensagem foi que as oscilações de custos estão dentro do orçamento e das provisões e que não há motivo para alarme. A empresa conta com correção monetária na carteira de pro soluto (parcelamento da entrada) no financiamento direto a clientes. Além disso, também reforçou que há condições de reajustar os preços. A margem bruta da empresa ficou em 40,7% no primeiro trimestre deste ano, estável perante o trimestre anterior.

Na Eztec, com atuação no médio e alto padrão, o recado foi que a prioridade é manter a velocidade de vendas e evitar uma eventual expansão do estoque, ainda que isso exija perder um pouco da sua margem. A companhia entende que tem uma boa gordura para lidar com o aumento de custos no curto prazo e acredita que a tendência será de normalização mais à frente. Além disso, acredita que a queda nos juros dará um novo fôlego para as vendas de imóveis, ajudando a equilibrar o cenário. Por fim, a Eztec também disse que pode subir os preços, se necessário.

A despeito do ambiente ainda controlado, as construtoras admitiram que a aceleração do INCC exigirá monitoramento nos próximos meses e que há um alto grau de incerteza em virtude da duração da guerra. Portanto, será um ano para testar a resiliência do negócio.

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