A Copa do Mundo de 2026 será a primeira da história com 48 seleções, 104 partidas e três anfitriões. Estados Unidos, Canadá e México chegam ao torneio em cenários esportivos distintos, com a busca americana por relevância global, o trauma mexicano com as recentes eliminações precoces e a tentativa canadense de consolidar sua melhor geração no futebol.
Espalhada por países que reúnem cerca de 512 milhões de habitantes, a 23ª edição do Mundial tentou vender uma imagem de integração continental. Apesar do marketing da Fifa (Federação Internacional de Futebol), porém, a competição será disputado perto de algumas das fronteiras mais politizadas do planeta e em meio a uma série de desafios internos em cada um dos donos da casa.
No caso dos EUA, o cenário poderia ser apenas o de uma grande oportunidade de virada histórica para uma nação que nunca foi além das quartas de final de uma Copa. Em 1994, quando o torneio esteve pela primeira vez no território americano, o país não tinha uma liga profissional estável e acumulava décadas sem tradição internacional. Nas palavras de Alan Rothenberg, então presidente da US Soccer (a federação de futebol do país), “nenhum jogador americano conseguia contrato no exterior”.
Três décadas depois, apesar de a MLS (Major League Soccer, a liga nacional americana de futebol) ter chegado a sua 30ª edição com 30 equipes e um apelo internacional cada vez maior —atraindo nomes como Lionel Messi e exportando jogadores como Christian Pulisic, Weston McKennie e Tyler Adams—, o possível impacto esportivo da Copa em casa tem ficado em segundo plano diante das tensões políticas provocadas por medidas do presidente Donald Trump.
Nos meses que antecederam o Mundial, a relação com os vizinhos coanfitriões foi tensionada pela criação de tarifas comerciais impostas pelo republicano a diversos países, entre eles Canadá e México, posteriormente barradas pela Suprema Corte americana.
Além do aspecto comercial, o presidente dos EUA também passou a tratar os dois coanfitriões como um problema de segurança nacional. Sobre o Canadá, repetiu provocações ao sugerir que o país poderia se tornar o “51º estado” americano.
Em relação ao México, afirmou que “o crime governa o país”, sugeriu a possibilidade de operações terrestres contra cartéis em território mexicano e chegou a atribuir à inteligência americana participação na morte de líderes do narcotráfico.
As declarações provocaram reações diplomáticas. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, classificou qualquer ação unilateral como “violação da soberania”.
Além do protecionismo econômico e das provocações no campo da geopolítica, Trump endureceu a política migratória. Seu governo congelou o processamento de vistos para migrantes de 75 países, incluindo visitantes de quatro seleções classificadas para o Mundial: Haiti, Costa do Marfim, Senegal e Irã.
Para Nicholas Cull, professor da Escola Annenberg de Comunicação e Jornalismo da Universidade do Sul da Califórnia e especialista em diplomacia pública, boa parte do sucesso do torneio será medida fora dos estádios. “Muito dependerá da experiência de jogadores e torcedores nas fronteiras americanas”, disse à Folha.
Nem toda pressão vem de fora. Dentro dos Estados Unidos, cidades que receberão partidas convivem com debates sobre mobilidade, financiamento público e segurança. De acordo com o Pew Research Center, um centro de estudos apartidário, a polarização política no país está próxima de máximas históricas, enquanto governos locais discutem quem pagará pela expansão de infraestrutura exigida pelo Mundial.
No Canadá, a discussão sobre fronteiras aparece como um contraponto aos Estados Unidos e começa no próprio perfil da seleção. Liderado por Alphonso Davies, nascido em um campo de refugiados em Gana depois de a família ter fugido da guerra civil na Libéria, e por Jonathan David, filho de migrantes haitianos, o Canadá apresenta um elenco multicultural.
A seleção jogou sua segunda Copa em 2022, encerrando um jejum de 36 anos. Na terceira participação, tentando superar pela primeira vez a fase de grupos, aposta em uma geração que transformou migração, diáspora e futebol em parte de sua identidade.
No México, existem pressões internas e externas, esportivas e políticas. Eliminada nas oitavas de final em sete Copas consecutivas, de 1994 a 2018, e com um resultado ainda pior em 2022, quando caiu na fase de grupos, a seleção chega a 2026 marcada pelos traumas que atravessaram gerações de jogadores e torcedores.
Fora de campo, há problemas evidentes. Dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime colocam o México entre os países mais afetados por homicídios nas Américas. Episódios ligados ao crime organizado continuam impactando diferentes estados mexicanos, motivo de preocupação para seus vizinhos, como EUA e Canadá.
Para Simon Chadwick, professor especializado em geopolítica do esporte, a inédita divisão do Mundial entre três sedes criou um nível de complexidade sem precedentes. “As dinâmicas entre os três países adicionaram uma camada de complexidade organizacional que nunca vimos antes.”
Autor: Folha








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