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Parar de beber me trouxe uma vida que vale a pena – 18/05/2026 – Vida de Alcoólatra

Quando parei de beber, me afastei de muitos amigos. Acho que me distanciei até um pouco antes, quando o álcool já tinha detonado a minha vida. É natural: estava no fundo do poço e não queria encontrar ninguém. Se eu me sentia um peso para mim, imagina para os outros…

Quem quer conviver com uma pessoa que está prostrada à beira de um colapso?

Outro dia fui ao show do Djavan a convite de um amigo e encontrei boa parte do meu time da ativa, em meio a todas aquelas músicas que marcaram tanto minha trajetória.

Olhei para eles e veio a nostalgia. Claro, não são pessoas ruins que me levaram para um lugar triste. Muito pelo contrário. Todas eram e são muito afetuosos comigo. Ninguém me vê em um lugar ruim. Sempre acho que os outros estão pensando alguma coisa sobre mim. Que nada, está todo mundo levando a própria vida.

Rever gente do passado, com quem vivi momentos muito bons —porque, é claro, nem sempre foi ruim beber— me deu uma sensação estranha, boa e ruim ao mesmo tempo. Eram colegas de faculdade, no tempo em que eu estava na ativa, mas numa boa (digamos…). A diversão era outra.

Neste show, eu estava sóbria. Então à nostalgia misturou-se certo alívio em ter consciência de que consegui me livrar do álcool e, mesmo assim, continuei a ser recebida com carinho.

Fui com duas amigas de infância, e uma delas fez uma brincadeira: “Onde vamos fazer o esquenta?”. Fazia muito tempo que não escutava isso. Era muito comum beber antes de ir a qualquer lugar, para já chegar entorpecido. Hoje saio com hora marcada para voltar. “Bêbado não pode sair sem destino”, como já disse aqui na coluna. É verdade. Temos que antecipar a rota, estar com gente que sabe da nossa condição e ter hora para voltar.

Cheguei em casa tarde da noite e não consegui dormir, lembrando de tudo que vivi com aquela turma. Fiquei com a imagem do grupo, todo mundo junto, fazendo piada e bebendo. Passei a noite em claro, rememorando aquela galera tão familiar que hoje habita meu passado. Às vezes combino com um ou outro de encontrar pela manhã para ir ao parque ou tomar um café. Mas a maioria eu só vejo nas redes sociais. Ver ao vivo mexeu comigo.

Parar de beber me fez ficar mais triste? De jeito nenhum. Muito pelo contrário. Entendo e vejo as pessoas se divertirem com álcool e irem se exaltando à medida que os copos vão sendo entornados, mas nessa hora é bom eu me afastar. Chegar em casa limpa, tomar um banho, um chá, e ainda conseguir dar uma volta com meu cachorro, não tem preço.

Já falei disso em outras colunas, mas repito: eu achava que, se largasse a bebida, a vida não teria sentido. É o oposto: sei que só tenho uma vida que vale a pena ser vivida porque parei de beber. Acabaram as ressacas e as depressões horríveis que vinham com elas. Acabaram também os apagões, aquelas perguntas no dia seguinte: “Você viu o que você fez ontem?”.

O carinho permanece, mas muita coisa não faz mais parte da minha vida. Tenho certeza de que está tudo bem e que, em sobriedade, fiz amigos que não faria se não tivesse chegado a uma sala de Alcoólicos Anônimos.

Beber é um ato de liberdade para muitos. Para mim, é justamente o oposto. Hoje vivo essa liberdade, com muitos pensamentos, bons e ruins, mas todos conscientes.


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Autor: Folha

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