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Euforia e pressão na lista da seleção para a Copa do Mundo – 21/05/2026 – Marcelo Bechler

A convocação da seleção, na última segunda-feira (18), tem tantos pontos de vista que é difícil saber por onde começar.

Imaginando que o ponto de partida deva ser o futebol, não vejo absurdos na convocação. A média de idade dos convocados é de 28,6 anos, a segunda mais alta do Brasil em um Mundial —uma clara preferência pela experiência e por perfis bem específicos de jogadores e um espaço para “futebol não é uma ciência exata”, a justificar a presença de Neymar.

Entre discussões de defensores, goleiro e meio-campistas, a expectativa de todos estava voltada para o ataque.

Onde “vem o bonito”, segundo Ancelotti, são nove jogadores para quatro posições. Quatro duplas e uma carta extra, a de Igor Thiago, para entrar em momentos em que a tática fica em segundo plano. Pela esquerda, Raphinha deve ser o titular e Gabriel Martinelli o seu reserva. Pela direita, Luiz Henrique larga na frente e Rayan é o seu par. Como atacante pela esquerda, mas mais perto da área, Vinicius Jr. é o plano A e Neymar entra como opção. Matheus Cunha e Endrick entram na posição de atacante pela direita.

Rayan e Endrick ganham as posições de Estêvão e João Pedro. E Neymar entra na que poderia ser de Rodrygo. Na entrevista coletiva, Ancelotti justificou que técnica não falta ao camisa 10 do Santos e que, bem fisicamente, conta com ele. Esclareceu que sua presença não se explica apenas por números, “futebol não é uma ciência exata”, apostando na capacidade técnica que todos sabemos que Neymar possui.

A questão é que o nível precisará subir. Com melhores companheiros do que tem no Santos, a chance de dialogar melhor aumenta. Contra melhores defesas na Copa do que encontra no Brasil, o grau de dificuldade também. No fim das contas, Ancelotti aposta que é possível jogar melhor. O que mostrou nos primeiros meses de 2026 me parece insuficiente.

Alguém pode argumentar que Gabriel Martinelli, com três gols nos últimos 35 jogos e apenas um na Premier League, também não joga o suficiente, mas nem por isso foi tão questionado. É uma falsa simetria, porque não se espera que Martinelli seja um jogador que decida jogos ou que tire coelhos da cartola. Dele espera-se esforço, recuperação de bolas, corridas constantes em alta velocidade. E isso Neymar não faz. De cada jogador se pede e se espera algo diferente.

Levando o olhar para além do futebol, o evento montado pela CBF parecia uma armadilha para o treinador. Uma tarde inteira de discursos e homenagens, com artistas, influenciadores e torcedores presentes para aumentar a expectativa de saber se um nome estaria entre os 26 do italiano.

Caso não convocasse Neymar, Ancelotti certamente seria vaiado e não teria paz para deixar o edifício. “Museu do Amanhã” seria uma boa metáfora para aquilo em que se transformaria o trabalho dele. Lembranças de um futuro incerto, tamanha seria a pressão sob seus ombros.

Após a cerimônia e a confirmação de Neymar, foi iniciada uma caça às bruxas a quem questiona a presença do jogador na Copa. Perfis em redes sociais, ávidos pela monetização de contas verificadas, buscavam encontrar cortes para construir vilões e heróis via engajamento agressivo de fãs e haters.

Dentro do campo, não há nenhum absurdo na lista. Carlo Ancelotti é um dos maiores vencedores da história e entende muito do jogo para tomar boas decisões. Fora das quatro linhas, o ecossistema da seleção brasileira na Copa do Mundo parece infectado por euforia, discurso de ódio e guerra por protagonismo de vampiros em busca de fama.


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Autor: Folha

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