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Lucas Baur: morre chef que ousou tentar sucesso em Paris – 28/05/2026 – Comida

“Ano que vem eu volto para o Brasil.” Lá estava Lucas de novo desabafando que não aguentava mais fazer o que ele mais amava: ser uma das estrelas da gastronomia parisiense. “Não dá mais, suffit…” Na primeira vez que ouvi isso, me assustei. Nas seguintes, apenas sorri.

Paris perdeu na semana passada um grande chef brasileiro. Ou ainda, um grande chef. Lucas Baur de Campos, Lucas, Lucão morreu menos de um mês depois de celebrar os dez anos de enorme sucesso do restaurante que colocou de pé ao lado de sua companheira Ninon Lecomte. Uma festa que, como ele mesmo me contou, tinha sido uma das noites mais felizes da sua carreira.

Uma trajetória que Lucas, com aquele jeito sempre relutante de comemorar suas conquistas, constantemente ameaçava abandonar. Uma ameaça que, não demorei para perceber aliviado, não passava de retórica.

Nunca foi um caminho fácil. Aliás, nunca é. Se alguém te disser que basta ter talento para se tornar um dos restaurantes mais disputados de Paris, essa pessoa está mentindo. O Brutos, seu carro-chefe —e mais tarde o Bar Principal— foi construído com imensas doses de dedicação, esforço, sacrifício e superação. Mas sobretudo com talento.

Fomos apresentados por um amigo comum, na época um sommelier eminente da gastronomia parisiense. Em meados dos anos 2010, o Brutos era apenas uma aposta arriscada. Aliás, bastante arriscada.

Qualquer jovem chef no Brasil pesa inúmeras vezes os riscos de abrir um restaurante na sua cidade, seja em Maceió, Belém, Belo Horizonte ou Porto Alegre, de onde veio o gaúcho Lucas. São Paulo então… Imagine a ousadia necessária para tentar o sucesso em Paris!

Lucas, sempre ao lado de Ninon, achou que um projeto desses não apenas seria viável, como acreditou que ser um chef brasileiro na cidade mais competitiva da gastronomia internacional não era uma loucura. Nadar na mesma raia de outros talentos do mundo todo? “Pourquoi pas?”

Anos difíceis aqueles primeiros, acompanhei de perto. Mas a determinação de Lucas sempre foi incansável. As mazelas que ele desabafava nos “apéro” em dias de folga ou nos jantares quando não estava na cozinha diminuta (apenas nas proporções) do Brutos eram reais, mas eram também o combustível para que ele fosse adiante.

Neste processo, Lucas encontrou um espaço verdadeiramente original. Ele inventou uma cozinha que, sim, era brasileira, mas essa identidade era naturalmente vivida no seu cardápio, não imposta como uma credencial.

De fato, tinha pastel, dado de tapioca e às vezes picanha, sim. Mas também um “tartare de thon” impecável, a “terrine de canard” essencial (“inconturnable”, diriam os franceses), os “langoustines à la braise” divinos. E, claro, o frango que se tornou um ícone.

Pensa no nosso clássico frango assado, como a gente chama no Brasil. “Poulet frit”, para os franceses, que tradicionalmente compram a iguaria nas feiras livres para o almoço do fim de semana. Mas elevado à categoria de arte.

Durante a pandemia, o Brutos praticamente foi em frente por conta dessa iguaria. A fila para comprar o frango aos domingos literalmente virava a esquina da praça em frente ao restaurante, que ficou fechado para os clientes por um bom tempo. Depois disso, o prato virou um ícone aos domingos em Paris. Sorte de quem conseguia reservar uma mesa para degustar um!

Dizer que a fama do Brutos se deve a esse achado de Lucas seria usar um pincel monocromático para ilustrar cardápios multicoloridos. Mas é verdade que o tal franguinho foi também um catão de visitas para todas as criações desse chef. E que, com o passar dos anos, se tornaram clássicos de Paris, queridinhos de um punhado de publicações importantes do cenário da gastronomia em Paris.

Editores notórios, da Time Out Paris ao cultuado Le Fooding, estavam entre os convidados da festa de aniversário agora em abril. A comemoração dos dez anos foi pensada para ser especial, e para isso Lucas contava com uma colaboração estelar: seu amigo, o chef Marc-Olivier Frappier, do conceituadíssimo Mon Lapin, em Montreal, Canadá.

Lucas cultivava amizades assim, tornou-se uma espécie de chef dos chefs. As panelas sempre foram uma conexão certeira no mundo da gastronomia, e com ele não era diferente, não apenas pelos sabores que inventava, mas também pelo seu charme natural. Uma certa seriedade inicial, provável marca gaúcha, logo se dissolvia em sorrisos e piadas. Antes da sobremesa você já estava “batendo copos” com o chef.

Com Frappier, Lucas elaborou um menu a quatro mãos, estava animado. Me mandou o convite dezenas de vezes. Diariamente me pedia para que eu confirmasse a presença. E eu, ansioso pelo banquete, bloqueei na agenda a noite de 29 de abril de 2026.

Naquela quarta de manhã acordei cedo, umas 5h. E a primeira menagem que recebi no WhatsApp foi a de Lucas: “Você não vem? A festa está acabando!”. “Como assim?”, perguntei atônito, “o aniversário não era hoje?”

“Nãããão, dia 28!”, me respondeu Lucas exalando felicidade. O jantar havia sido um sucesso, e, a portas fechadas, todo mundo seguiu bebendo e dançando madrugada adentro, um ritual que já havia vivido inúmeras vezes com Lucas e Ninon em vários restaurantes.

Eu percebi então que tinha anotado errado o dia da celebração na minha agenda e me odiei muito por isso. Levei uma bronca de Lucas, mas seu perdão veio como uma recompensa: “Vem enterrar os ossos hoje no fim da tarde.”

Antes das 18h então, do dia em que eu achava que comeria muito bem, eu estava fazendo exatamente isso, só que não como eu tinha previsto. Minha mesa original do aniversário de dez anos do Brutos seria na companhia da editora-chefe do Fooding e do apresentador de TV Ali Baddou, que conheci anos atrás no próprio restaurante.

“Tan pis”, brincou Lucas quando cheguei com quase um dia de atraso. Porém, minha perda foi um presente. No lugar das celebridades francesas, eu ganhei um fim de tarde relativamente pacato com meus amigos Lucas e Ninom. Que foi, na verdade, uma despedida.

Comemos as adoráveis sobras da noite anterior, entre elas, uma asa de frango recheada que mesmo no dia seguinte fez Lucas revirar os olhos. Bebemos novas criações do Principal, o bar “à côté”, Ninon me presenteou com umas garrafas, jogamos conversa fora, rimos bastante e inevitavelmente ouvi uma ou duas reclamações sobre as dificuldades de levar adiante um restaurante de sucesso como o Brutos e sua vontade de voltar ao Brasil.

Mas dessa vez eu tinha certeza de que isso era só conversa fiada. Enquanto a luz caía no sedutor terraço do Brutos, olhando o jardim Maurice Gardette na minha frente, ali no 11ème, eu tinha a certeza de que Lucas já tinha feito história. E que nada jamais tiraria isso dele. Jamais.

Autor: Folha

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